Era pra ser só uma noite, mas seu perfume ficou de um jeito tão intenso no meu lençol que eu levei três dias para deixar de senti-lo no quarto. E ainda demorei alguns pra decidir lavar a roupa de cama. Quando pendurei no varal, tive a certeza de que queria sua essência pela casa novamente. Te liguei. Você respondeu que a gente poderia marcar, sim, mas que naquela semana não dava.

Fiquei maluco, claro.

Sumi da vida dos outros contatos. Não queria um corpo pra bagunçar o edredom. Queria você, com seu jeito de quem vai me dar o Mundo, mas deixa apenas que eu abrace a saudade na hora da partida. Não desejava o ato, mas o fato de ter você por perto a me encantar e me dando a chance de poder retribuir todo o bem que há tempos não vivia.

Deixei que os dias se arrastassem. Mandei algumas mensagens óbvias de “bom dia” e pensei que não estava sendo inconveniente. Acredito que todo ser que se encontre no mesmo estado de espírito que eu se pegue na mesma cilada. Aqueles dois certinhos ficando azuis sem uma resposta breve parecem o atestado de que tudo está terminado. É uma ansiedade.

Boba, talvez. Sincera, porém.

E foi quando você me perguntou “tá livre hoje?” e eu afirmei. Estaria, mesmo que não estivesse. Desmarcaria qualquer coisa; só pra poder te cheirar o pescoço, meter minha boca no teu perfume e comer teu gosto. Só para estar novamente ao redor. Era pra ser uma noite, admito, mas cresceu da noite pro dia e, quando vi, já era um querer incontrolável.

Confesso que já fui da turma dos que vivem momentos fugazes. Só por um momento, sabe? Até que o jogo vira e você vê que não adianta querer apenas colecionar corpos e números que passaram pela cama. E, justamente, foi na hora que não imaginava que tudo isso aconteceu. Querendo de novo, de novo e de novo. Foi te ver pra ter certeza de que não seria simples só matar a saudade.

Você se entregou, me fez experimentar o delírio, revirar os olhos e gostar de arrepios. Eu me empenhei, me sujei do teu batom escuro e fui ao limite do físico pra te mostrar o quanto te queria além daquilo. E, no dia seguinte, você se foi com a mesma pressa que o querer chegou. Largou um bilhete no banheiro, escrito em vermelho pra eu sempre lembrar:

– Foi maravilhoso, mas eu não posso me apaixonar.

[ Gustavo Lacombe ]

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