Todo abraço esconde em si um lar e uma armadilha.

Depende, claro, de qual é a intenção da pessoa que o dá. Sendo inocente, pode se configurar em abrigo, carinho e se transformar em lar. Usado para outros fins, funciona quase como areia movediça, teia de aranha, cola de sapateiro, superbonder, açúcar pra criança ou qualquer outra analogia que possa representar o que gruda, não solta, causa vício ou se quer fazer de sempre necessário. Uma ambiguidade capaz de confundir corações, dar nós em mentes, atiçar vontades, definir a linha tênue entre tudo o que se quer e tudo que se pode ter.

Talvez seja esse o motivo que nos faz olhar diferente para aquela pessoa que reúne o melhor dos dois mundos num só. Quando a gente encontra quem sabe nos envolver, passar os braços em “X” por nossas costas e guardar no gesto toda a carga de ternura e provocação, pensamos tirar a sorte grande. Bingo, diz o coração baixinho enquanto se ajeita mais uma vez no peito do outro. Jackpot, diria aquele outro que se acostumou a tratar o Amor como um jogo de azar, onde na maioria das vezes o jogador sempre perde.

É, sempre existe o risco.

Como dito, existem abraços capazes de confundir qualquer pessoa. Quantas vezes você não ouviu o papo de um amigo que se apaixonou e aproveitava esses momentos para tirar uma casquinha? Ou, quando a paixão é platônica, tinha naquele instante em que os corpos se aproximavam o limite entre se jogar e se esconder. Difícil. Ainda assim, é possível fazer transbordar todo o afeto por alguém no meio de um abraço. Quantas vezes você não precisou de um desses pra segurar a barra de um dia ruim?

Diria, então, para você tomar cuidado. Quando os recebe e quando os dá. Há um grande perigo, sim, ao tentar fazer de uma pessoa sua casa. E, ao contrário, pense bem antes de querer se fazer de armadilha. Despertar algo puro no outro para fazer disso um teatro é ridículo. Entretanto, tendo a certeza de que vale o risco, deixe-se prender, provocar e devolva tudo na mesma intensidade. Enrole-se, embosque-se, prenda-se, abrace.

E deixe o corpo ir.

[ Gustavo Lacombe ]

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