Ela acordou assustada. O sangue que manchava o lençol não estava ali na noite anterior. Procurou algum corte, uma ferida. Nada encontrou. Tentou se mexer mais um pouco, mas a dor de cabeça a atingiu com tudo. Estava de ressaca. Sentia na boca a remanescência daquele gosto de energético com vodka. Parecia a morte. Enxergou algo no chão, jogado. Mal pôde acreditar quando ligou todos os pontos: era uma camisinha, o sangue teria vindo da sua virgindade, alguém a estuprou na noite passada. Alguém que ainda estava ali.

Olhou pro lado e viu o namorado.

Quis gritar, mas só conseguiu mesmo se levantar e caminhar com dificuldade até a cozinha. Sentia-se um lixo. Sentiu-se como a mulher mais usada de todo o planeta. Sentiu a dor que subia do meio de suas pernas e tinha certeza de que havia lutado contra. Não que ela não quisesse experimentar o sexo. Já tinha até conversado com o namorado sobre isso. Só queria esperar mais um pouco. Ter certeza. E sabia que, na noite passada, essa era uma convicção que ainda não tinha. Virou a garrafa inteira de água. Molhou o chão, sem se importar.

Decidiu tomar um banho. Ligou a água quente e, sem se importar com o barulho do chuveiro, lavou-se. Esfregou-se. Quase ficou em carne viva. Sentia uma espécie de podridão na alma. Sentia-se contaminada por um vírus. Sentia-se suja demais para ficar limpa com algum sabonete de pH neutro. Chorava copiosamente. Chorava por saber que a pessoa que amava e dizia amá-la de volta tinha sido capaz de cometer o maior crime contra ela. Preferia ter uma bala na cabeça do que passar por aquilo.

Correu no quarto do pai, que viajava na ocasião. Ainda notou que o seu agressor dormia profundamente. Abriu as gavetas, procurou a arma que sabia estar escondida ali. Pensou, sim, em dar cabo da própria Vida. Viveu um dilema existencial dentro de si. Tinha sido criada como uma menina forte, que aprendeu a lutar pelos seus direitos e que não se calava diante de algo ruim. Só que aquilo era pior. Era o Inferno do Inferno. Alguém tinha sugado toda a sua força e coragem para seguir. Morrer parecia a única saída.

Num impulso, correu pra varanda.

Passou uma perna pela grade. Inflou o peito, pensou não ter mais jeito, mas antes de passar a outra metade do corpo, viu a vizinha olhando consternada. Em choque. Mirando sem acreditar no que via. Ela travou. A vizinha saiu correndo, bateu na porta do apartamento e se desesperou ao constatar que estava trancada. A menina, ainda sem saber o que fazer, sentou-se na grade e sentiu o vento no rosto. Imaginou quantas outras garotas não teriam passado por aquilo. Pensou em quantas vozes se calaram sem poder gritar ao Mundo sua dor.

Tentou voltar. A mão escorregou. A perna enganchou numa das grades e ela ficou pendurada. Gritou. Sentiu o pé arder numa dor lancinante e viu que tinha torcido algo ali. O joelho formigou. A grade parecia querer ceder. Ela viu que não teria jeito. Outros vizinhos viram a cena e se desesperaram. Gritaram mais alto ainda. Até que ela sentiu uma mão a puxar. Algum anjo teria sido enviado. Um Salvador. Não, era o próprio namorado, ainda meio bêbado. Caíram no chão, abraçados. Salvos. Ele a apertou. Ela chorou.

“Você ficou doida!?”, ele perguntou.

“Nunca mais encoste em mim”, disse. Ele não entendeu direito. As batidas na porta continuavam. Ela abriu. Encontrou a vizinha, o porteiro e o síndico ali esperando. Se escondeu atrás deles, apontou pro garoto que vinha na sua direção e, finalmente, conseguiu gritar. O grito que não saiu no banho, que não saiu na varanda, que não tinha saído da garganta de milhares de meninas que descobrem ter ao seu lado verdadeiros monstros. Pediu a polícia, o Pai, o Papa. Qualquer um. Só não queria ficar ali.

E enquanto era contida pelos moradores, berrava na cara do sujeito que a tinha violado o absurdo acontecido na noite passada. Agradeceu a Deus por não ter se jogado. Ela já tinha morrido, não poderia fazê-lo de novo. E já havia decidido, entre aqueles minutos turbulentos da manhã, que a sua voz não iria se calar.

E continuou gritando até a polícia chegar.

[ Gustavo Lacombe ]

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