Muitos Tons de Roxo

Eu gosto que me batam. Batam, não… Eu gosto de apanhar. E talvez seja difícil explicar pra um cara que de alguma forma quer me tratar bem que esse “bem” passa por uns belos tapas, uns puxões de cabelo e até mesmo uns xingamentos. Ele acha que pode me machucar, que pode me deixar roxa, que eu posso de certa forma ficar puta e pedir pra parar.

Acho fofo isso.

Acho realmente bem bonitinha essa preocupação, mas se eu te disser “bate” é pra espalmar a mão e deixar marcado os cinco dedos em mim. Não tô pedindo um soco, poxa. Não é briga, não pra me apagar. Não sou um coleguinha do recreio que você brigou por causa de merenda ou um sujeito que te desrespeitou na rua e você quer quebrar a cara dele.

Sou uma mulher que gosta, sim, de apanhar na cama. Ou em pé. Ou sentada no colo do cara numa cadeira da sala. Não tem muito lugar exato pro ato, mas eu tenho minhas preferências na hora da “porrada”. Gosto, inclusive, quando ele começa batendo devagar, instigando e provocando. Vai quase que amaciando a carne até que desfere um só.

E aquele som ecoa pelo quarto. Pá!

Depois que o outro entende, então, a receita está criada. E aí, posso admitir que vou curtindo as mais diferentes variações dessa pegada forte que eu acho necessário que todo cara tenha. Gosto que afunde o dedo no meu quadril, me pegue de jeito, enlace a mão na base da minha nuca e me puxe pra perto, gosto de metida com força. Ficar dolorida acaba fazendo parte.

Lembro um dia que estava andando só de calcinha e sutiã pela casa e minha mãe viu o estado da perna e da bunda. Arregalou os olhos, me chamou imediatamente e perguntou:

“Minha filha, você foi espancada?”

“Mãe, espero que a senhora já tenha sido espancada desse jeito algum dia na sua vida”, respondi, tentando brincar. Ela não riu.

“Me respeita, garota”

Eu acabei rindo, mas corri no quarto pra botar uma roupa. Ela ficou uns dois dias me olhando de um jeito estranho. Até que, estando só nós duas em casa, ela soltou:

“Eu gosto muito também”
“De quê?”, não tinha entendido.
“De uns bons tapas”, ela disse – quase como se fosse pecado. Sempre tentei manter relações sinceras.

Acho que indicar essas preferências acaba fazendo parte disso quando se gosta de alguém. No caso da minha amizade com a minha mãe, falar de sexo deixou de ser tabu quando eu arrumei meu primeiro namorado e ela morria de medo que eu engravidasse. Eu precisava ser firme caso o garoto resolvesse não usar camisinha.

Só não me pergunte de onde veio esse tesão pelos tapas. Lembro da primeira vez que me olhei no espelho e pensei “caralho, isso vai car roxo”. Fica, mas antes é vermelho, depois fica verdinho, amarelo. Longe de ser uma violência, mas é um tempero que – me desculpem as mulheres que não gostam, faz uma boa diferença. E, convenhamos, quando é consensual e bem conversado, vale quase tudo entre as quatro paredes.

“Quatro paredes”, entre aspas por favor.

O mais interessante nisso tudo é que, no meu caso, com o passar do tempo e o ganho de intimidade, mais porrada eu gosto de levar. Vou ficar usando “porrada” que é pra você entender que eu tô falando do conjunto, ok? Acredito até que essa coisa gostosa da dor tenha um limite. Não sou masoquista, por exemplo.

Talvez a linha seja tênue, mas se é necessário ter o mínimo de confiança pra tirar a roupa, não é qualquer cara que vai conhecer esse meu lado mais safada. Existem nuances da nossa personalidade que precisam ficar quietinhos, sendo despertados pelas pessoas certas e mostrados nas melhores horas. Acabamos sempre voltando ao “tudo tem limite”.

Ainda assim, admito que gosto de, no dia seguinte, me olhar no espelho e ir encontrando as marquinhas. Um dedo na costela, um roxinho na perna, outro no bumbum e recordar como a transa foi boa. Muitos tons de roxo pra contar sobre um dos melhores jeitos de dizer “eu te quero”.

Pá.

[ Gustavo Lacombe ]

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