Você Não é Seus Traumas

Ela entrou no metrô e correu pra uma cadeira no fundo do vagão. Torceu pra que ninguém a incomodasse e que as lágrimas escorressem sem muita pressa porque queria sentir aquilo. Queria ouvir cada poro do seu corpo gritar o quanto havia sido idiota por dispensar alguém que a queria tão bem. As palavras dele continuavam a varrer o chão da sua cabeça, mas não limpavam nada, apenas espalhavam o lixo que outra pessoa havia deixado. “Você não é seus traumas”, ficava em looping aquela voz doce lhe dizendo a maior verdade que não queria admitir. A mão estendida, a promessa de paz, e o medo. Tudo junto. Ela poderia facilmente ter dito “sim”, mas algo a impediu e isso era o mais paradoxal de todo aquele cenário. Ela se afogou na negação com a certeza de que o coração perdia uma nova chance de ser feliz. Mas havia o receio. O temor. São tantos nomes pra mesma merda que ela saiu correndo e dizendo apenas um “não posso” que fez com que a outra pessoa se perguntasse “onde foi que eu errei?”. Em nenhum lugar. Em nenhum momento. Em nada. Às vezes, alguns erros vem precedidos de feridas que ainda não cicatrizaram e acabamos cometendo mais um ao afirmar que, se existisse sentimento, o outro esqueceria aquilo que aconteceu de ruim e abriria os braços na certeza de que agora pode ser feliz em paz. Besteira. É leviano afirmar isso. O que fode tudo não é a rejeição ao novo, mas a reafirmação de que o velho ainda importa. Ainda estraga o presente. Ainda está ali, pronto para atacar e mostrar que aquela menina solitária sentada num vagão meio-vazio do metrô tem o coração ainda devastado por alguém que não soube cuidar dela, e que ainda não sabe dizer “sim” pra si mesma e para as novas oportunidades que a vida põe na sua frente. Como ela, eu sei, existem outras milhares de pessoas que todos os dias deixam que os seus passados ainda lancem a mão pesada da dor sobre suas rotinas. E o pior de tudo é ter que ficar ouvindo em replay “você não é os seus traumas” e se sentir impotente. Enfim, cada um e cada coisa tem seu tempo. Cada cicatrização também. Cada lágrima que escorria naquela vagão também.

[ Gustavo Lacombe ]

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