Saudade Boa Não Para de Bater

Hoje a saudade bateu arrebentando as paredes. Parecia que batia com raiva. De mim, do que eu fiz, do que eu joguei fora. A saudade esmurrou meu coração de um jeito que poucas vezes vi. E olha que eu já vivi um bocado, já senti um tanto e sofri outro cadinho. Já passei por poucas boas que você sabe bem porque ninguém chega sem história. Ninguém chega sem uma vontade que ficou pelo caminho ou um “eu te amo” que se transformou num “eu só quero ser seu amigo” que dilacerou o juízo. Hoje a saudade me fez querer inventar uma máquina do tempo para refazer os passos desde o primeiro dia em que cruzei o teu portão e subi com ansiedade o elevador e me deparei com teu sorriso na porta. Pra voltar ao mesmo ar que a gente respirou naquela sala em que a tensão elevava as vontades e a química foi tão fácil que eu só posso acreditar que nossos corpos foram feitos no molde um do outro para que o encaixe fosse perfeito como foi. Como era. Como ainda é se estivéssemos juntos. Hoje a saudade de acordar ao teu lado já estava lá quando eu abri meus olhos e te vi numa miragem tão estranha que eu quase pude te tocar. Quase te beijei. Quase me declarei de novo como tenho feito no meu número bloqueado no whatsapp que fica como um s.o.s. no meio do oceano sendo que ninguém vai ouvir. E a cada vez que te busco nas mensagens arquivadas eu afundo mais um pouquinho. Vivo essa gincana de ver teu nome e procurar tua foto e pensar que um dia, por milagre, ela vai estar lá. Hoje a saudade deu tanto murro contra as lembranças que eu cheguei a ter dor de cabeça na certeza de que mesmo cansada ela não pararia de bater. E bate. Agora. Contra a minha vontade, mas paradoxalmente nessa vontade de sair correndo de casa e passar na frente do teu prédio mais que as vezes que já passo frequentemente como se por alguma coincidência maldosa do destino eu fosse te ver ali. Parada. Com teus cachorros. Com teus cachos. Com teus dentes. Com tuas pernas. Com tuas poses. Com teu sorriso que, se me visse hoje, não apareceria. Talvez eu esteja querendo fazer algo enquanto existe raiva. Antes que vire indiferença. E cá estou sentindo o peito crescer para fazer caber essa falta tua que só aumenta e pede por mais espaço. Sinto quase um sufocamento, mas o alívio vem quando destilo as palavras pelos dedos que antes roçavam tua pele, mas hoje sentem o teclado frio vomitar as verdades que preciso ler: você não vai voltar. E é por isso que a saudade continua esmurrando, batendo, aumentando, fazendo poesia nos rebocos do nosso sentimento inacabado. Dizem que o pior é terminar gostando. Amando. Acho que não. Acho que o pior é terminar com esperança. Esperança que já está em pé na porta para ajudar a saudade a bater mais um pouco.

[ Gustavo Lacombe ]

Publicado por

Gustavo Lacombe

Gustavo Lacombe, trinta e um anos seguindo com uma vontade de escrever sendo lapidada todos os dias com muito suor e ideias. Tem a certeza de que será preciso quebrar muito a cabeça até conseguir chegar a algum lugar. Escreve por esporte, paixão e prazer - foi assim que fez seus quatro livros. Carioca da gema, acredita no amor bonito, ainda que o amor tenha diversas facetas não tão bonitas assim. Romântico, corredor de fim de tarde e feliz proprietário de um bom violão. É no blog, na página (fb.com/GustavoLacombeTextos) e no instagram (@glacombetextos) que, volta e meia, despeja o que lhe inspira, expira e vive. Ou queria ter vivido.

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