#MeuPrimeiroAssédio

Bruna sofreu o seu primeiro assédio aos onze anos. Estava indo na padaria com uma amiguinha comprar picolé e sentiu uma mão apalpar sua bunda quando estava na fila pra pagar. Assustada, deu de cara um velho que pedia para ela andar depressa porque estava com pressa. Ninguém falou nada da cena e ela mal se lembra se alguém realmente viu o que aconteceu.

Ela talvez não saiba, mas a caixa viu. Viu e não falou nada porque, Isabella, a caixa da padaria, também sofria assédio. No caso de Isa, ele vinha do dono do estabelecimento que sempre fazia comentários sobre sua forma física. Ela nunca deu liberdade para que ele fizesse aquilo. Inclusive, o patrão sempre a comparava com a esposa. Dizia que ela era bem mais gostosa que a mulher.

Roberta, a mulher do patrão de Isabella, que viu Bruna sofrer o seu primeiro assédio naquela padaria, ainda sente vergonha ao se recordar-se de quando um amigo de seu pai o chamou para sentar em seu colo e a fez sentir algo estranho em sua calça. Roberta tinha treze anos e entendeu perfeitamente o que tinha acabado de passar. Correu pro quarto e se trancou. Disse a mãe que estava preocupada com uma prova no colégio.

Marília, a mãe de Roberta, anos antes já tinha desenvolvido um trauma e o medo de andar em uma das ruas do bairro em que morava. Naquela mesma rua, ficou sabendo, Marina, sua vizinha, tinha sido assaltada. Marina estava de vestido e o ladrão pediu, além da bolsa, a calcinha dela. Achou que seria estuprada, mas não foi. Marina não passou naquela rua por meses.

Marina cresceu e teve uma filha, a qual deu o nome de Bruna. Bruna sofreu seu primeiro assédio numa padaria, mas isso é apenas coincidência com a primeira personagem desse texto. Todas elas, em algum momento, pensaram que teria sido mais fácil ter vindo homem ao mundo. Todas são personagens fictícias, mas plenamente plausíveis.

Enquanto isso, há quem pense que vai tudo muito bem no país do Carnaval e que não é preciso discutir nada. Fiu-fiu é normal. Cantar é normal. Elas que deveriam “se dar ao respeito”. Não, há quem não enxergue que o que falta é respeito. Não delas, mas para com elas.

[ Gustavo Lacombe ]

Tô Fazendo Amor Com Outra Pessoa

Ela vai tirando a roupa no automático. Lembra de como era mais gostoso com o outro, mas segue o ritmo imposto por quem agora ocupa sua cama. Fecha os olhos e sabe que se engana. Sabe que por mais perfeito que possa parecer o cara que desliza as mãos na sua pele, são os defeitos daquele outro cara que faltam. Não se trata de sexo, mas de Vida.

Ele não te dá o mesmo que você tinha.

Aí, quando acaba, ela mal consegue dormir. Vai pro banheiro, saca o celular e faz menção de chamar o ex. Desliga antes que chame. Borra o pensamento antes que ele se transforme algo mais concreto. Se sente horrível, claro. Ela acabou de fazer amor com um, mas a cabeça vai longe.

O banho não serve para nada. Olha pelo vidro do box e consegue ver as costas do namorado. Senta no chão. É inevitável fazer comparações agora. Todas elas. Das dimensões do corpo aos detalhes do jeito. De como um fazia sorrir e de como o outro se preocupa com todas as necessidades dela.

Compara, inclusive, com a preferência da mãe.

Volta pra cama e rola pra um lado e pro outro. O cara, percebendo a inquietude dela, pergunta se está tudo bem e recebe um “claro, meu bem” como resposta. Não está. É claro que não está. Existe um coisa que toda essa dedicação e a possível perfeição não conseguem fazer. Nada disso faz a saudade passar.

Uma amiga já a tinha aconselhado. Já tinha dito que não adiantaria continuar se enganando e dizendo pra todo mundo que está feliz e que o novo é dez vezes melhor que o antigo. O Amor não é um objeto para se tornar obsoleto e ser substituído. Por fim, ela chora.

Sabendo que não há o que fazer, dorme. Amanhã, quem sabe, ela liga pro número que já decorou, faz a loucura de voltar pra vida que um dia negou, joga fora aquilo que todas as outras amigas invejam que tem. Quem sabe ela não cria coragem de jogar pro alto a segurança e ir atrás do que realmente a faz feliz.

[ Gustavo Lacombe ]

Ou Ela ou Eu

A gente se encontra numa dessas noites perdidas pela cidade e meu coração palpita. Pularia em teus braços, te beijaria a boca e sorriria bem mais do que o aperto que a saudade me fez esses últimos dias, mas você só aperta a minha mão e me cumprimenta friamente. Não fosse a mulher que você traz à tiracolo, poderíamos continuar nosso Amor proibido.

Sinto vontade de te perguntar “ou Ela ou Eu?”.

Baixo os meus olhos. Escondo minha dor num copo e me afogo na minha própria mentira que venho criando sobre nós dois. Fico olhando de longe o que vocês fazem. Fico seguindo os movimentos. Minha mente arma seus piores truques e torna-se inevitável não acabar pensando nas noites que vocês passam juntos, nas coisas que vocês fazem juntos, nas juras que você fala pra ela, mas repete comigo.

No amor que vocês fazem.

Morro de medo, você sabe, de fazer essa pergunta maldita. Morro de medo porque eu sei que sou a “outra”. E agora já encaro o fato sem pudor algum. Você encontra em mim algo que não vê mais nela, só que isso não é suficiente. Nunca serei promovida a “oficial”. Uma amiga vive me dizendo que estou apenas me enganando e perdendo meu Tempo, gastando minha Vida. Entre mim e ela, você certamente ficaria no conforto do lar. E me abandonaria.

Então, fico naquela insuportável sinuca de bico. Não te digo tudo que sinto porque tenho medo de ficar sem você. Deveria mesmo era ir lá e escancarar o que a gente tem. Ao mesmo tempo, sei que continuar te tendo pela metade vai seguir cravando cada vez mais fundo uma faca no meu coração. Sangrando, não consigo desviar os meus olhos de vocês. E eu sei que você já reparou a situação que a gente criou.

De longe, percebo, você está me encarando. Puto.

Penso em arrumar outro alguém ali mesmo naquela festa. Pretendentes não param de se encostar, mas dispenso todos. Te causa ciúmes cada aproximação. Depois me sinto uma idiota. Uma ridícula. Já basta o meu papel, não preciso passar recibo. Tem gente que não entende quando eu digo que o Amor, às vezes, nos cobra um preço alto demais. Só que cada um sabe o quanto pode bancar.

Vou embora antes de vocês. Meu coração apertado é apenas o 3×4 de um sentimento gigante. Soa como castigo. E eu vou dormir com a cabeça zonza, morrendo de vontade de fazer a tal pergunta. Repito baixinho pro meu travesseiro: ou ela ou eu. Ensaio. Ensaio aquilo que não vou perguntar. Por fim adormeço.

E, como um pesadelo, sonho contigo.

[ Gustavo Lacombe ]

Quase um Casal

Eu fico me perguntando se foi um engano me envolver contigo. Se foi um erro ou um simples capricho. Fico remoendo perguntas se eu deveria ter colocado freios nos meus impulsos ou se fui vítima da ingenuidade que acomete as pessoas que se iludem. E em todas as vezes em que fico martelando se deveria ou não ter feito tudo isso por você, chego sempre na mesma resposta:
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– Não fui eu quem perdi.
 .

Pode ser até que eu tenha que me desculpar por jogar num email todas essas palavras na tentativa de te dizer “adeus”, mas não queria morrer sufocada com tanto entalado no peito. As coisas que mais nos fazem mal são aquelas que não admitimos mesmo que fazem. Então, admito aqui que estou tentando seguir, mas parece que uma parte minha foi tirada. Aquela parte ingênua que acreditava em planos e na construção de uma história.

Tenho certeza de que eu passei a nutrir algo muito especial por você e por tudo que nós dois vínhamos construindo. Que fique bem claro: nós dois, sim. Se alguém aqui por um acaso resolveu jogar tudo fora, esse alguém não fui eu. Digo isso sem rancor, mas com um certo peso. E mesmo que você venha me dizendo que não me prometeu nada em palavras tão claras assim, as suas atitudes de ciúme, de posse, de carinho e de cuidado indicavam que era justamente o contrário. Éramos quase um casal.

Pode ser que numa roda entre os seus amigos eu acabe virando assunto e você diga que me levou para a cama num dia desses. Acredito até que não faça nenhum comentário que me denigra ou me fira, mesmo que eu não esteja presente para ouvir, mas eu serei apenas isso no final das contas. Mais alguém que foi pra cama contigo. Mais um assunto que você talvez até goste de comentar só pra lembrar das nossas noites, mas com um quê de gosto amargo por conta de uma recordação.

Memória de que eu tentei e você não quis.

Não é culpa de ninguém, afinal. Não se pode obrigar um coração a aceitar o que querem lhe entregar. Porém, um dia ele colocará a mão na consciência e vai trazer à tona aquela história que por algum capricho seu foi jogada fora. E você vai se lembrar de mim e de tudo que queria ter sido, mas não fui.

[ Gustavo Lacombe ]

Antes que o Estrago seja Maior

Antes que os beijos se transformem em agressões e passemos a nos fazer mal diariamente e ininterruptamente. Antes que os abraços que eram trocados com tanto carinho passem a ser maiores inconvenientes que protocolos formais. Antes que um comece a enxergar o outro como uma enorme pedra no sapato e um intransponível obstáculo para que seja plenamente feliz. Felicidade que era encontrada lado a lado, mas que agora só se sente quando se está distante.
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Melhor parar. Parar de varrermos para debaixo do tapete toda a desconfiança, toda guerra velada que se estabeleceu entre duas pessoas que tinham o pacto de dividir bem mais que uma cama. Uma guerra silenciosa e que não se admite. Melhor deixar de fuzilar o outro com as mesmas desculpas ou com as mesmas respostas céticas quanto ao presente e ao futuro. Se já não se consegue mais encontrar graça no que se vive e se passa a pensar no passado como um grande desperdício de tempo, melhor parar.
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Não é fácil, de certo, entender que a mesma cama já não cabe os dois. Não importa o tamanho. O que antes se fazia em ninho, agora se travestem de armadilha em que, todas as noites, precisamos cair. É difícil aceitar e traçar a linha do tempo que desencadeou em poucas memórias gostosas e apenas a verdade dolorosa de que não se tem mais para onde seguir. A estrada acabou e o que resta é afogar no peito o que sobrará do sentimento. Antes que o Amor se transforme algo ruim. Melhor parar.
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 Em certos devaneios, viaja-se longe para quando tudo começou. Todo início parece o Paraíso. Todos os defeitos são abraçados, as qualidades exaltadas, os beijos mais longo, o sexo mais quente. Os erros são bem mais perdoáveis. Tenta-se encontrar os primeiros tropeços e há aquela pontada de arrependimento em não ter conseguido mudar. Tenta-se pensar que, sendo alguém diferente e beirando a perfeição, poderia tudo ter dado certo. Certo do jeito que hoje já não há mais disposição para se alcançar. Tenta-se refazer tudo que foi feito só para não ter que enfrentar a dor de partir.
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E, sem que se possa mudar algo, abre-se aquela vida em duas e se passa a viver efetivamente separado – o que já era assim há tempos. As noites lado a lado já tinham se transformado em mentiras. O que era tão verdade já tinha descambado para uma falsidade. As respostas tinham se tornado automáticas, vazias e sem um pingo de afeto. Talvez apenas com a torcida de que um dos dois pudesse dar o primeiro passo. Antes que alguém se machuque mais ainda, melhor ser sincero. Nem que seja pela última vez.
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Melhor acabar antes que seja tarde e o estrago seja maior.
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[ Gustavo Lacombe ]

Página de Amigos

Ela vira pra mim e começa a contar detalhes da vida pessoal dela. Não, ela até agora não percebeu que eu gosto dela. Eu me faço ouvidos pelos motivos óbvios: sou amigo dela. E, então, existe uma encruzilhada em que eu me meto para poder estar perto dela e ser presente. Sacrifico meu Amor por algo tão bonito quanto: a nossa amizade.

Não espero que as outras pessoas entendam, mas eu sei que faz sentido para mim. Não me declarei ainda porque tenho medo. Ela sempre chega me contando algumas de suas desventuras amorosas e várias vezes eu já disse que não sou uma mulher para ela se ater a detalhes sórdidos, mas ela ri e apenas me diz que confia em mim e nos meus bons conselhos de amigo.

Mais um corte por dentro.

Se fosse para aconselhar de verdade, diria que ela está perdendo tempo com esses idiotas que apenas querem bagunçar lençóis e não serem nada além de uma trepada. Diria que ela precisa parar de sofrer por tanta gente que só sabe brincar e começar a olhar para quem tem interesse em fazê-la feliz. E a olharia nessa hora bem fundo até ela atinar que estou falando de mim.

Entretanto, meu devaneio termina no momento que ela pronuncia novamente a palavra “amigo”. Outra ferida. Sentado à mesa do bar, peço outro chope para disfarçar o ciúme e a impossibilidade de ir além. Já sustento aquele teatro por muito tempo, mas tem sido cada vez mais difícil.

Lembro do dia em que ela me disse que estava “estranho”. Passou, mas cá estamos aqui de novo e eu estou prestes a perder o juízo quando ela diz que vai tentar reatar com um ex. Um cara que nunca fez bem a ela, que não a tratava da forma que ela merecia e que, ainda por cima, a tinha traído no fim do relacionamento.

Ela contou que ele a tinha procurado, que tinha dito coisas bonitas e que estava mudado. Mudado em quê, meu Deus!? O mesmo filha da puta de antes com as mesmas palavras bonitas que usa para todas. Ela até agora não percebeu a obviedade de tudo que está se passando e eu não aguento mais.

Chego minha cadeira perto da dela, encosto meus olhos nos dela e miro minha boca. O beijo sai meio desesperado e, depois do susto inicial, ela retribui. Eu descolo os lábios, abaixo o rosto e vou embora, largando uma nota em cima da mesa. Mando uma mensagem de desculpas, mas não consegui me segurar. Eu precisava me libertar da paixão ou do meu teatro.

Tudo na Vida tem uma gota d’água.

[ Gustavo Lacombe ]

Saudade: o Melhor Afrodisíaco

Existem diversos tipos de sexo. Alguns melhores que outros, uns sem graça, e até os divertidos. Ainda assim, de todos os tipos existentes, um dos que mais faz explodir o tesão no casal é o ótimo sexo de “fazer as pazes”. Reconciliação, sabe? É quando, depois de um certo tempo separado, os dois resolvem voltar e tentar mais uma vez.

Não existe nada melhor para a libido que a Saudade.

Tive uma das minhas noites inesquecíveis com ela num dia que a gente, depois de um tempo longe, resolveu voltar. Tínhamos saído, tomado algumas caipirinhas e rido muito. Entenda: voltar é uma decisão que precisa ser encarada de frente. Não se pode deixar arestas ou desacertos com o passado. É preciso seguir em frente e mudar o que antes fazia mal.

Porém, nós dois na cama sempre foi algo surreal.

Aquela noite foi a prova. Chegamos em casa alegres, nos beijando e meio despreocupados se fazíamos muito barulho ou não. Claro que tomamos o mínimo de cuidado para não acordar ninguém na casa e na vizinhança. Lembro que colocávamos o colchão no chão para não deixar que a cama fizesse muito barulho. E ela gemia no meu ouvido apenas.

Fizemos Amor com gosto. A posição preferida dela era a mesma que a minha, mas a gente ia mudando conforme dava na telha. Lembro da cara dela quando me olhava e pedia para eu ir lambendo do queixo dela até lá embaixo. E, também, de como ela pedia pra eu fazer devagarinho. Mesmo depois da separação, parecia que o tempo não tinha passado. Intimidade sempre é o segredo.

E se você me perguntar o que mais me marcava em nós, era o jeito com que ela pedia pra eu soltar todo o peso do meu corpo em cima dela depois do amor feito. Depois do gozo, com os dois dando risinhos um pro outro e as declarações sendo feitas. Suados, acabados e transpirando toda a vontade represada por aquele tempo afastado.

No dia seguinte, sentados à mesa do café, ela vira pra mim e diz: – Não devia ter dado pra você ontem, mas o álcool tirou a minha inibição. Eu ri. Perguntei se ela tinha se arrependido e ela respondeu que não. Todo aquele desejo do outro guardado. Toda aquela saudade que precisava sair de algum modo. Toda aquela paz sentida depois de uma noite fazendo Amor.

Era Saudade demais pra nos segurarmos.

[ Gustavo Lacombe ]

Se não fosse por você, eu estaria sozinho.

Vinha sofrido de histórias passadas. Daquelas que tinham marcado a alma e gravado a decepção tão forte na cabeça que não acreditava ser possível encontrar alguém para sorrir assim tão abertamente. Para sorrir de verdade novamente. Passei a crer – de pés juntos e cabeça baixa – que o Amor continuaria me reservando uma faceta ruim e que estava sempre fadado a fracassar.

O Amor nunca fracassa, aprendi.

Aos que acabam transformando-o no peito durante a relação, certamente ele acaba em um sentimento diferente. Aos que provam de alguma traição, há sempre o Amor na possibilidade do perdão – mesmo que se decida não olhar mais na cara da pessoa. Aos que se desiludem, o Amor acaba retornando fantasiado de uma nova oportunidade. E assim foi comigo.

Teu Carinho, por fim, se tornou o meu melhor amigo. Algo que me esquenta nos dias de inverno e que me faz sorrir mais largo nos dias de Sol. Daqueles que tece clichês no pé do ouvido e surpresas nos dias mais rotineiros. Sem dúvida levarei para sempre as cicatrizes que, por ensinamento da Vida, não preciso esconder, mas a cicatrização do meu peito vem diretamente ligada à tua presença comigo.

Se não fosse por você, eu estaria sozinho.

O mais engraçado é que, durante um certo tempo, eu lutei contra tudo isso que nascia em mim. Você vai se lembrar das negativas, dos arroubos de lágrimas e das brigas que tinha quando você insistia. Essa história de “quero te fazer feliz” não colava. Hoje eu sei que você entrou na minha história para me fazer bem mais que feliz. Você apareceu pra me re-ensinar a viver.

A gratidão acontece nos meus beijos, nos meus abraços. Me desculpa se, às vezes, eu cobro algo, se eu tenho ciúme, se eu acabo me excedendo. Ainda carrego um resto de medo, mas a cada dia a confiança vem aumentando. A cada dia você devolve o brilho; meu e da vida. E vejo que estamos dando certo. O Amor nunca fracassa, isso é certo.

Ele apenas espera para se entregar de novo.
Quando a recíproca for verdadeira.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser adquirido aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

Relacionamento Exige Manutenção

Ela diz que já não o sente, que acabou alguma coisa ali, que se apagou outra chama aqui. Ele se incomoda com tudo, reclama das coisas que antes sorria e já não vê mais o tesão de antes. Estão no fim e, pior, sabem disso. Se olham com pressa e dão seus beijos automáticos, como um radiador de carro que sempre arma quando necessário. Viraram mecânicos num relacionamento que não troca o óleo nem dá uma geral há muito tempo.

Quando enguiçar, tudo bem.
Se quebrar, compra-se outro.

Mais novo, modelo turbo, lindo. Todo relacionamento no começo é lindo. Ela pisa no acelerador e ele responde com beijos e trepadas sensacionais. Ele trata com cuidado nos fins de semana, leva ao parque, passeia. Todos ao redor notam aquele zelo. Andam de mãos dadas, exibem-se de modo ingênuo. A felicidade é latente. Agora, são a preocupação de que dia terão de abrir suas Vidas e serem dois seres à procura de novo. Serão semi-novos. Usados aos olhos de alguns. Carregarão suas marcas do tempo e, certamente, enfrentarão alguma rejeição por isso.

Eles sabem que continuar infeliz não é o melhor caminho, mas nada na vida é tão fadado ao fracasso assim. A esperança reside em fazer uma verificação total no que possuem. Enxergar melhor as coisas, discutir alguns entraves de tempos e saber que, se quebrar, haverão de dar um fim àquela parafernália toda. E não se joga um clássico fora desse jeito. Mesmo com tudo parecendo desandar, mesmo com o motor engasgando, mesmo com o estofamento todo fodido, sempre existe uma saída.

Ele a chama pra um jantar, ela aceita. Se arruma. Ele escolhe uma roupa bacana, compra um presente. Ela está decidida a não brigar nem a falar do passado. Tentarão recomeçar, isso é certo. Se vai dar certo, isso apenas um o Tempo dirá. O que sei é que são essas atitudes que reconstroem o Amor. É dizer, falar, conversar e entender que antes de toda aquela indiferença com o outro, sempre existiu um carinho. O que mudou, então? Por que já não somos como antes?

Claro que o ronco potente do motor ainda novo não é o mesmo depois de alguma rodagem, mas se cuidado com carinho, a quilometragem pode ir longe.

Nenhum relacionamento é simples de manter. Entrar nele pode ser por impulso e sair dele pode ser a saída mais cômoda, mas é a sua manutenção que realmente prova o quanto o casal se gosta. Naquela noite eles se olhariam com mais calma, não discutiriam por bobagens nem trariam para a mesa as reclamações cotidianas. Exaltariam o que foi bom, elogiariam o esforço conjunto e, por fim, celebrariam a chance de ainda poderem ser felizes.

No restaurante, ele mostra uma foto com uma das rabiscada e um poema do Neruda no Verso. Presente dela. Ela usa o brinco de zircônia que ele deu quando ainda não tinham começado a namorar – e sorria ao lembrar da história confessada por ele de que tinham sido comprados na promoção. Sorriam. Juntos sorriam.

Davam a partida no velho motor, que ainda tinha muito a rodar.

[Gustavo Lacombe]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, ainda pode ser encontrado aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

Eu te Odiaria se Você Não Existisse

Pra começar nossa conversa, eu queria três filhos, tivemos dois.
E, às vezes, eu quase te odeio por isso.

Fico revirando na minha cabeça todos os outros motivos que tenho pra te detestar. Chego a ter raiva por eles ficarem saltando na minha frente e apontando seus defeitos, rindo e zombando da minha cara que te aceitei assim. Você é tudo aquilo que eu jurava que não iria ter num domingo à tarde quando eu passasse dos meus quarenta anos.

Quando eu conversava com a minha mãe sobre a vida dela e dizia que não repetiria os mesmos erros ou quando eu ficava naquela coisa de criança com as amigas tentando adivinhar o futuro, sempre dizia que arrumaria alguém que seria sempre ativo, bonito e que, de vez em quando, cozinharia para mim. E você veio com tudo fora de lugar.

Tem mais, claro: você faz coisas que eu simplesmente detesto. Nesses dias em que fico remoendo seus erros, penso em como fui capaz de entrar na Igreja toda de branco e dizer “sim”. Você já deixava a toalha em cima da cama, você já não me levava mais café na cama e eu já vivia pedindo pra você largar a cerveja e entrar na academia. Olha em que ponto chegamos.

Dezesseis anos depois, enquanto você coloca os pés no mesa de centro e a televisão no futebol, estou aqui do seu lado abraçada aos nossos filhos que entraram naquela fase de perguntar o porquê de tudo. E ontem eles me perguntaram se eu não tinha encontrado alguém melhor do que você na minha Vida.

Vê se tem cabimento essa pergunta!

Primeiro eu disse que sim, que havia encontrado outros homens muito melhores do que você. Alguns eram ricos, outros sarados, e conheci até aqueles que beirariam a perfeição, mas nenhum deles tinha os seus defeitos. Nenhum deles sabia arrancar um sorriso meu no meio de uma briga.

Nenhum deles conseguia enxergar o lado bom das coisas em qualquer que fosse a situação – como quando o pneu furou e a gente ficou esperando o reboque porque o carro estava com o estepe vazio e você disse que era bom porque, pelo menos, a gente ficaria mais um tempinho juntos e tinha um bom motivo para chegar tarde em casa.

Nenhum deles saberia dizer quando estou na TPM tão bem e me trazer paçoca para comer. Nenhum deles repetiria as piadas infames como “pra que arrumar a cama se nós vamos desarrumá-la mais tarde?” – e, o pior, ainda me fazer rir disso.

Às vezes, eu quase te odeio por um segundo inteiro. Minha vida poderia ter sido completamente diferente, eu disse aos meninos, mas certamente eu não teria sido tão feliz quanto eu tenho sido com vocês nessa Vida.

E eu te odiaria se você não existisse para me dar isso tudo que a gente tem.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe