É claro que ela não sabe que eu penso nela

Ela não sabe. É claro que ela não sabe que eu penso nela. Vê só se eu ficaria falando todas as coisas que eu penso pra ela. Ainda mais sobre ela.

É claro que ela não sabe.

É claro que ela não sabe que, quando eu vou deitar e fico ali naqueles segundos antes de dormir e mexendo no telefone, eu fico pensando pensando que a mensagem de “boa noite” que mando pra um amigo, eu queria que fosse pra ela.

É claro que ela não sabe que, quando eu acordo e vou desligar o despertador – claro, no telefone – a primeira mensagem de bom dia que eu queria mandar era pra ela. Claro que ela não sabe que no meio da tarde, quando eu paro pra um café, eu tô pensando nela.

Às vezes eu me sinto meio maluco, meio bipolar. Porque, no mesmo instante que eu penso, penso e penso nela, eu tenho ódio de mim por pensar nela. Mas aí, eu paro pra pensar de verdade, e tenho ódio de mim! Eu me detesto nessas horas porque, ao invés de falar, não, eu me guardo.

Vê se eu ia falar que eu penso nela.

Vê se eu ia chegar, escancarar o sentimento e dizer: olha, eu não consigo parar de pensar em você. E seria verdade… Eu não estaria mentindo. Ela não teria por que me julgar. Não teria por que olhar pra mim e dizer “eu não acredito”. Ela ia ver nos meus olhos que é verdade.

Ela ia ver nas minhas palavras. Engraçado isso “ver nas minhas palavras”, mas ela ia conseguir enxergar no meu corpo, na minha atitude. Ou, então, se eu escrevesse num papel dizendo “olha, eu não consigo parar de pensar em você”, eu tenho certeza que ela ia acreditar.

Ou não.

Ai, Dúvida. Isso é que me mata. Essa dúvida de me entregar, essa dúvida de me declarar. Você entende? Vê se eu vou dizer pra ela que eu sinto “saudade do que a gente não viveu”. Saudade do que não viveu… Pelo Amor de Deus!

EU ODEIO QUANDO EU LEIO ALGUM POETA DIZER:
“Eu tenho saudade do que eu não vivi!”

Mas eu tenho… mas eu tenho e não consigo parar de pensar nela. Não consigo parar de pensar nas coisas que eu faria. Não consigo parar de pensar nas besteiras e, às vezes, eu me sinto culpado porque eu penso nela de tantas formas, de tantos sonhos, de tantos desejos, de tantas vontades.

Já pensou se ela descobre?

Eu fico com o “não”. Sempre falam isso, né? Que a gente fica com o “não”, mas já pensou se eu conto pra ela e ela diz que sente o mesmo. Onde vai caber tanta felicidade? Talvez a gente às vezes tenha medo. Tenha medo de ser feliz.

E nem sabe.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

Durona, “pero no mucho”

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Em qual direção você está indo?

Sou durona. Minhas amigas volta e meia me perguntam se eu não sofro (nem que seja um pouquinho) por ser assim. Eu jogo o cabelo e digo “claro que não, amiga. Nasci assim, cresci assim, sou bem melhor assim”. Faço aquele beijo maroto no ombro e largo:

– Foda-se o que passou, eu olho é pra frente – e sorrio.

É um pouco de pose também, claro. Não assumirei o papel de representante hipocrisia aqui. Dizer que não me arrependo de algumas coisas seria mentira. Me arrependo de várias. Sério. Nossa… Se pudesse voltar no tempo, faria um monte de coisas diferentes. Mas digo isso só agora também. É bem mais fácil chegar a essa conclusão depois de ver o tamanho das merdas e ter que lidar com todas as consequências.

Quando fecho os olhos e tento relembrar o que sentia naquele exato momento, me dou conta de que cheguei onde exatamente quis. Bom, não exatamente, mas fui nas direções que quis tomar. Aí, quando me bate uma nostalgia, fico olhando pras estrelas à noite e relembro um amor. Não qualquer amor, mas aquele que qualquer pessoa tem e que sabe que poderia ter mudado a vida inteiramente.

Sempre tem.

E é engraçado como a gente passa a reparar mais nas estrelas e na imensidão do céu quando tem esses momentos sozinhos. Nos damos conta do tamanho de tudo e, pelo menos eu, fico me perguntando se realmente não existe uma força maior que vai além do nosso entendimento. Algo mais forte que Destino ou Acaso. Algo mais forte que isso tudo que conhecemos.

Voando alto, lá pra longe, me pergunto onde será que aquela pessoa está? Que caminhos seguiu? Por que teve que ser desse jeito? E ai de mim se alguém me pega aqui nesse estado. Não é pra todo mundo que eu mostro como realmente sou. Sou durona, “pero no mucho”. Só até a página dois.

Só até bater a saudade.

[ Gustavo Lacombe ]

@glacombetextos

Saia Plissada

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Minha mãe sempre me dizia para tomar cuidado com os rapazes. O que ela nunca tinha me dito era que, no fundo, eles é que precisariam tomar mais cuidado ainda comigo.

Por isso a importância da saia plissada passada em cima da cama. Mamãe não contava que eu crescesse esses últimos três centímetros – que o médico disse – aos dezessete. Tarde para uma moça, ficava repetindo. Eu sei o porquê desse sentimento dentro dela, atacando com força. É que o azul marinho da saia agora não chegava mais perto do joelho, mas se aproximava do meio da coxa. São três centímetros só, eu ficava falando.

É como cortar o cabelo e ninguém reparar, mãe!

Não adiantava. Ela tinha cismado que era preciso comprar outras mais comportadas. Não!, dizia dentro de mim. Admito: aquilo seria meu trunfo. Já que Deus tinha me abençoado com um belo par de pernas, que elas tivessem livre acesso ao ar quente do Rio. Claro que um shortinho por baixo. Eu não sou uma das periguetes da turma B. Respeito é bom, combinado?

Entre outras coisas que a mamãe tinha me dito – e eu já tinha comprovado – era que a imaginação dos meninos era pior do que a realidade na cara deles. Então, nada como deixar que eles imaginassem o resto de mim. Um botão a mais aberto na camisa era suficiente. O tipo de blusa que usava por baixo também fazia diferença. Aliás, detalhes sempre fizeram e ainda fazem toda a diferença.

Nunca fiz pouco de outra menina. Assim como existem mais bonitas, tem as mais feias. Ninguém fala, mas é uma puta competição. E isso, sem dúvida, às vezes é uma grande merda. Agradeço todo dia por não precisar de tanta maquiagem pra me sentir bem, mas sempre tem aquela no colégio que acorda, nem toma café, e chega linda. Exemplo: a Mah Fraga.

Raiva.

Não quero o monopólio das atenções. Papai já faz isso muito bem e cresci com a convicção de que um cara dedicando até seu tempo longe pra mim é melhor que vários apenas me vendo passar. Agora, que é uma delícia se sentir valorizada, isso é. Saber que as cabeças estão tortas por sua causa. Que menina não gosta?

E aquela saia plissada passada em cima da cama era parte do jogo. Eu queria crescer só mais um centímetro. Só mais um.
Aí, ficava perfeito.

(Gustavo Lacombe)

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