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Ignorar Pode Ser Uma Virtude

Não quero mais ouvir tua voz. Pode gritar, pode falar, pode berrar no meu ouvido todas as besteiras que você se acostumou a dizer para as outras. Não vai adiantar. De agora em diante, decidi, vou te ignorar com tudo que tenho. Com todas as minhas forças e te deixar claro que a “ignorância” será a minha maior virtude. Já não posso mais ficar cedendo as caprichos de alguém que só me procura quando precisa.

Eu não sou o remédio da sua carência.

Tivemos que chegar aqui por sua causa. Não adianta a cara de sonso e de choro. Não adianta martelar que eu não quero hoje e te mando embora. Foi você quem me ignorou quando deixei a porta aberta e te pedi pra ficar. Aquela história de preparo o café ou a Vida tá certa. Eu nunca deveria ter feito o primeiro café, quanto mais ter continuado a deixar um espaço reservado pra você se instalar em mim.

Importante é aprender, eu sei. A gente precisa gostar muito de alguém para enxergar o valor que o nosso amor-próprio merece. Só depois de ver até onde é possível tolerar, relevar e ceder é que descobre-se o que a linha imaginária e pronta pra jogar na nossa cara: você passou de todos os limites. E aí, quando se entende que perdeu-se o respeito, já não há sentimento que consiga resistir.

E tudo rui.

Desejo do fundo do meu coração que não bata aqui em casa com flores na mão ou um sorriso idiota de quem sabe que está errado, mas tenta consertar do pior jeito que existe. Se a campainha tocar, não estarei na porta e vou pedir que deixe tudo que é e está contigo na portaria. Se não quiser devolver, pode queimar. O ditado diz que a ignorância é uma bênção, e eu não quero mais saber de você ou de nós.

O fim é explícito. Não preciso desenhar. O que bater de saudade será retrucado com os fones bem ajustados e a música alta. A rotina que engula o resto e me faça esquecer o que passou. Sei que certas coisas apenas se curam com o tempo e, agora, estou me dando tempo o suficiente para conseguir voltar a viver. Sem tudo isso (ou esse pouco) que você me dava. Desculpa, eu sei que é até mal educado, mas te ignorar é (eu) preciso.

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A inocência de acreditar no “Pra Sempre”

Aconteceu muito de repente. Pra mim, pelo menos. Não esperava que ele viesse com tão poucas palavras, mas tanto a dizer. Não esperava que o olhar mudo conseguisse traduzir, ao final daquela frase, o que eu supus que nunca chegaria. Doce inocência de quem ama acreditar que o “pra sempre” pode acontecer. Justo comigo. Justo com a gente.

Injusto demais, desculpa dizer.

A decisão era algo concreto no rosto, nos gestos e na Vida dele. Me comunicou com profundo pesar, mas como um apresentador de telejornal que na notícia seguinte fala dos gols da rodada. “Vou ter que partir”, falou. Simples e direto. Preciso, cirúrgico. De uma polidez que achei até fria. De uma valentia em ser indiferente ao sofrimento que me causava e que ele sentia, mas que não parecia demonstrar.

Caralho, até ontem nós éramos juras. Até ontem meu corpo pressionava o seu e você me dizia que eu era a mulher. Que eu tinha o beijo mais gostoso, que a boca era a mais macia, que nunca tinha feito amor como fazia comigo. Que porra é essa de chegar dizendo que vai ser melhor assim. Melhor pra quem? Melhora pra quem, porra!?

Fica calma, não. Fico não.

Talvez amanhã eu rasgue nossos retratos. E não quero essa cara de que eu posso fazer o que quiser. Nem essa outra de que eu tenho razão. Não queria ter razão, queria ter amor. O seu amor. Você tem ideia do quanto ainda é importante pra mim? E agora, só porque você vai ser transferido e mudar de cidade, julga que é melhor pra nós dois chegarmos ao fim.

Tem alguma coisa aí. Ou você já não me amava mais há algum tempo ou tem alguém por trás desse término. Eu sei. Não é possível que você abra mão de nós dois assim, como quem descarta uma latinha de refrigerante depois de beber. Ou quem joga fora um doce pela metade porque enjoou de comer.

Se é isso mesmo que você quer, vai.

Aprendi que não se deve segurar quem não quer ficar. Não vou gastar minhas forças tentando te explicar o que pra você já está mais do que claro. Se você não me quer e não há o que eu possa fazer, tenho certeza de que vou sofrer o bastante pra me reencontrar. E vai passar. É foda pensar que vai, mas eu sei que passará.

Pode ir.

[ Gustavo Lacombe ]

Meu segundo livro:
http://bit.ly/AmorParaRaros

Se a Tua Fila Andar

Eu não estou preparada pra isso, certamente. Não quero te encontrar passando na rua com outra pessoa, beijando outra boca e sorrindo os sorrisos que um dia foram pra mim. Não ter que presenciar todo esse zelo que você fará por ela e que um dia já foi todo meu. Eu ainda tenho em mim um tanto de sentimentos e, pode crer, se tivesse acabado em mim tudo isso eu não me incomodaria. Riria, conseguiria até ficar feliz por você. E não é que eu não esteja. Veja bem, eu só quero teu bem, mas eu queria ser o teu bem. Queria ser as tuas razoes de sorrir ao acordar, o primeiro pensamento das manhãs e o de sempre nas tuas orações. Então, te peço, não esfregue na minha cara teu novo amor, tua nova alegria, teus novos motivos de se exibir por aí. Não queira fazer tudo isso por uma simples vingança,  só pra se mostrar mais inteiro depois que a nós dois acabamos. Sei de todos os perigos que corro ao frequentar os mesmos lugares, ir aos mesmos bares, mesmos cinemas. Corro o risco de te ver bem, entrando pela porta sem se importar com mais nada. Se importe. Por favor, não faça pouco disso. Se importe comigo. Preserve-me. Só te peço respeito pelo que a gente teve, por mais que nada tenha restado de nós.

[ Gustavo Lacombe ]

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Se tiver Alguém aí Pra me Ouvir

Não é que eu me sinta idiota olhando pro céu e pedindo alguma coisa, mas é estranho que a gente só faça isso quando sente o coração apertado. Se tiver alguém aí pra me ouvir, que leve tudo que eu disser pro coração dela.

Queria que entrasse uma brisa pela janela do quarto dela, tocasse o seu rosto – como um beijo – e mostrasse que ainda existe o carinho aqui. Depois de conseguir chamar a atenção dela, que a brisa a envolvesse e a desse um abraço. Sinto saudade daquele abraço. Sinto falta das mãos dela. Se agora, olhando pro alto, algum ouvido aí estiver atento, que possa ouvir esse meu lamento. Quem chora hoje sou eu, mas sei que fui eu quem fiz mal a ela.

Durante muito tempo eu fui um babaca. Um grande babaca. Tá, perdoa o meu vocabulário. Não quero ofender, mas é que algumas coisas só são bem traduzidas com um palavrão. E eu fui tanta coisa… Se essa brisa que entrou pela janela e a deu um beijo e um abraço pudesse soprar algo no coração dela, que embalasse um pedido de desculpas. Sinceros. Envolvido no mais profundo arrependimento. E remorso.

Eu aprendi, você sabe, que arrependimento não mata, mas que, quando a ficha vai pra quem magoa, é ruim também.

Ainda bem que eu não fui muito magoado na Vida. Bem, você deve saber. Eu acho que sabe. Mas acabei magoando muito. Ela, então… Consigo lembrar de cada choro, de cada erro. Por que eu insisti? Ah… Difícil. A gente, às vezes, não pensa. A gente só aprende quando perde. Talvez essa seja a grande verdade do Universo. Vou ter a Vida inteira pra me arrepender disso.

Vou contar aos meus filhos e netos sobre como perdi um Amor – o dela – que era pra ser daqueles de “pra sempre”, mesmo que a esta altura eles já saibam que o “pra sempre” é uma grande utopia. Você sabe, se é que tem alguém aí me ouvindo, que minhas mãos estão, de certa forma, atadas. Ela pediu pra eu sumir. E eu respeito isso. Quero que ela seja feliz. Nunca quis o mal dela. E, se essa brisa pudesse – além do beijo, do abraço e das desculpas – deixar um recado.

Que dissesse que eu ainda a amo.

Mesmo que ela não acredite. Mesmo que ela sorria e diga baixinho que é mentira. Mesmo que ela volte algum desdém a isso. Mesmo que nunca mais eu tenha outra chance. Eu a amo, você sabe – se é que tem alguém aí pra me ouvir.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser adquirido aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

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Afaste-se

Afaste-se

Afaste-se enquanto pode. Eu não sou de confiança. Vou te decepcionar na primeira oportunidade e jogarei por terra tudo aquilo que você vinha idealizando sobre mim. Eu sou assim. Desculpa. Tenho problemas não resolvidos e caminhos abertos que ainda quero seguir, mas não sei como voltar. Sou complicado. Posso parecer simples de entender à primeira vista, mas sou apenas um emaranhado de confusões em que não é justo meter mais alguém. Não é certo eu te trazer pra dentro do meu buraco negro. Já causei mais destruição do que a minha consciência pode suportar. E meus joelhos não tem conseguido agüentar a carga de ter jogado fora tantas alternativas de ser feliz. Eu, basicamente, consegui estragar todas as relações que tive. Posso me fazer perfeitinho, mas sou um perfeito idiota. E não quero o papel do vitimismo nem a pena dos outros. Sou meus próprios dedos apontados pra mim e a certeza de que não posso consertar nada. Não quero alguém novo, não quero uma chance nova. Não quero nada. Queria sumir, tem como? Não tem. Preciso encarar o espelho e abaixar os olhos pra mim mesmo porque não consigo ficar mais de três segundos olhando pra minha cara. Fiz mal não só a mim mesmo, mas a uma série de pessoas que de nada pediram para sofrerem. Pelo contrário, me entregaram carinho e eu voltei com desdém e atitudes covardes. Eu sou o que de pior está na boca das pessoas sobre atitudes – ou sobre a falta delas. Aquilo que muitas mulheres vão repetir que abominam e o que muitos homens irão dizer que vai fazem. Muito prazer. Sou o Poeta que Não Aprendeu a Amar, afinal. E não foi por falta de tentativa ou esforço de terceiros. Por pura incompetência mesmo, ou inabilidade. Posso te encantar por um dia, mas tenho a Vida inteira pra te decepcionar. Máquina de disparar versos e babaquices. Talvez eu não mereça nada do que me foi dado. Talvez eu nem merecesse estar aqui ainda. Todas essas pessoas, eu nunca as mereci. Elas merecem alguém muito melhor. Queria poder olhar nos olhos de cada uma e pedir toda a desculpa que tenho engasgada em mim, mas sei que ninguém quer me ver – nem mesmo pintado de ouro e cravejado de diamantes.

Sabe quando é tarde? Eu já passei disso.

[ Gustavo Lacombe ]

 

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Quem Não Quer Sou Eu

Eu não tenho vontade nenhuma de voltar contigo.

Agora, então, que você me aparece com essa cara de choro e falando tudo aquilo que eu queria ouvir – agora mesmo é que eu não quero. Fiquei esperando, por muito muito muito tempo mesmo, que você viesse aqui e me fizesse mais uma vez de boba. Prometesse, jurasse, esperneasse e colocasse em prática todo o seu teatro de me dissuadir e fazer me entregar novamente.

Fiquei alugando o ouvido de conhecidos amigos e despejando tudo que sentia, pedindo opiniões e gastando minhas suposições para cogitar que você, talvez, pudesse estar sentindo falta de mim. Falta do que a gente tinha. Esperei pela pedrinha na janela, a mensagem bêbado de madrugada, a ligação pela manhã, as flores manjadas de desculpas, a surpresa no meio da tarde no meu trabalho.

Mas, aí, eu cansei de esperar.

A internet passou a  me contar aos poucos que você ia seguindo a sua vida. Eu ia me decepcionando com algumas de suas atitudes, me surpreendendo com outras, mas fui vendo que, sim, tinha sido muito melhor você ir embora. A Vida tinha me livrado de você, certamente.

Então, não vou esconder o choque da surpresa por te ver aqui e a indiferença da previsibilidade de que você faria tudo isso. De novo. Eu podia ter apostado que não perderia. Sempre tive a certeza que mais cedo ou mais tarde você estaria aqui nessa posição. Mendigando, pedindo, implorando e recebendo toda a minha pena de volta.

Só que, antes, eu esperava isso de uma forma tola, porque te queria. Hoje, esperava justamente por saber que sua encenação teria de voltar aqui. O ato final, lógico. Eu não volto pra você porque você teve todas as chances e preferiu usá-las de outras formas que não me fazendo feliz. Não adianta querer fazer agora.

Agora, quem não quer sou eu

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser adquirido aqui:
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Ser Gostosa Vai Além do Espelho

Tem dias que ela se sente. Literalmente. Coloca uma roupa mais colada e vai pra night sabendo que está gostosa. Sim, que “está”. Na cabeça dela, ser gostosa ou não é uma questão de dia da semana. É questão de se sentir bem com si mesma. Ela não é do tipo fresca e insegura, mas também não é daquelas que não tem crises. Tem dias ruins às vezes e sabe que toda mulher que se preze os tem.

Aliás, já enfrentou vários dias em que nada servia, que as blusas favoritas marcavam a barriga, que aqueles dois quilos a perder se transformavam em vinte e o quadril parecia enorme. Dias em que tudo parecia dar errado: espinhas brotavam em profusão e ninguém olhava pra ela. Como se fosse um patinho feio.

Quase quebrou o espelho numa dessas vezes.

Nos momentos mais exagerados e de sentimentos aflorados, ainda se deita na cama pra vestir uma calça que entraria mesmo se estivesse de cabeça pra baixo. Ah, e nem pense em lhe desejar um ‘bom dia’. Ela já pensou em botar silicone (e acabou botando), em fazer uma Lipo (e acabou não fazendo), em ter aula quinze vezes na semana com personal (chegou a 10), cortar carboidratos, virar vegetariana (mas adora um bom bife), e até a nunca mais comer chocolate (impossível!).

Ela teve de tentar de tudo um pouco até aprender que esses rompantes nunca passariam. Era dela. E que, na verdade, era preciso primeiro gostar de si mesma, se aceitar. Depois de uma viagem por Barcelona, passou a pensar em si como a Igreja da Sagrada Família: uma obra de arte linda, mas que sempre estaria em permanente construção. Nesse meio tempo, tentou yoga, Pilates, terapia e até aquelas mandalas para colorir.

Tentou ocupar a cabeça e se descobrir entre posições de flor de lótus e canetinhas variadas. Se achou na corrida e nunca mais parou.

Hoje sabe que, nos dias de TPM, vai se sentir horrorosa. Nos outros, pode se sentir a mulher mais deliciosa do planeta com apenas um elogio vindo de quem ama. Brinca dizendo que é complicada, como toda mulher, mas sabe que a beleza está além do espelho e do batom vermelho. Qual seria a graça em ser simples demais?

E não a tente decifrar, ela sempre te engole primeiro.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser pedido aqui:
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Faz Parte do Nosso Show

A gente se conheceu na escola. Ela saindo da aula, eu indo buscar a minha irmã para levá-la ao dentista. Ela com dezesseis, eu com recém-completados dezoito. Foi num olhar que surgiu o interesse. Meu. Foi num ato meio impensado que se criou o contato. Eu cheguei e perguntei:

– Quer carona?

Ela sorriu e disse que não precisava. No dia seguinte, lá estava eu de novo. Minha irmã estranhou, claro. De onde tinha surgido aquela boa vontade toda? De novo eu a vi. De novo ofereci carona. De novo ela recusou, mas o sorriso foi tão lindo que eu não resisti:

– Me dá seu telefone?

Foram longas conversas até ela aceitar sair comigo. Marcamos no Arpoador, numa dessas tardes de horário de verão em que o Sol nos dá o prazer de sua companhia até mais tarde. E ela, ainda que desconfiada, me deu o gosto de tê-la ali comigo. Brinquei:

– Você quase não veio, né?

Nasceu ali. Ainda iria pegá-la mais um tanto de vez no colégio. Fizemos muita coisas juntos. Gostávamos de ir às festas no Circo Voador. Eu era exagerado e, numa dessas noites, fiz com que um cantor que a gente gostava lesse um recado meu pra ela. “Diz aqui no bilhete que ele te ama”, ele mandou em alto e bom som. Mais tarde, sugeri:

– Quer sair daqui agora?

A gente foi para a minha casa. Aquela seria a primeira vez. Testando o sexo e descobrindo cada cantinho um do outro, era uma delícia deslizar os dedos nela e estar com os olhos bem abertos. Eu me abri, contei segredos, me coloquei em suas mãos:

– Quero sempre te proteger da solidão.

Ainda me lembro quando a gente teve a primeira briga. E foi logo uma daquelas feias. Precisava desabafar e fui procurar uma amiga dela que, depois, provou ser quase inimiga de nós. Voltei ao Arpoador e senti o tamanho do vazio ao ver o pôr-do-sol sem ela. Inventei uma desculpa e fui até o apartamento dela, que não me atendeu. No mesmo dia ela me procurou:

Diz que eu não estou.

A volta foi questão de tempo. Não tinha outro jeito. Aquilo tudo fazia parte de todo nosso show. As saídas do colégio, o namoro no portão do prédio, as briguinhas por ciúme onde um saía de cara amarrada, a dor de uma noite sem o “boa noite” dela, o Arpoador. A Bossa Nova que ela gostava e o Rock’n’Roll que a gente dançava:

– Quer ouvir aquela de novo?

E até hoje, nosso amor está por aí. Nos sorrisos que se abrem na praia pra ver o Sol sumindo. Nas promessas malucas que se assemelham aos sonhos bons. No imaginável retrocesso de se jogar numa paixão em meio a tanta gente que convive com o medo de se permitir. Faz parte do nosso show:

– Meu Amor.

[ Gustavo Lacombe ] –

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
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Nenhuma Saudade Consegue ser Compensada

Da janela do ônibus, uma menina acenava e assoprava um beijo. Do lado de fora, um cara colocava as mãos dentro do casaco e segurava o choro. Dava o mesmo “tchau”, mas é sempre pior pra quem fica. Nessa coisa de namoro à distância, quem vai ainda tem a estrada pra se distrair. Inevitável, para os dois, seria a saudade que preencheria o peito – quase que instantaneamente – assim que o veículo saísse da plataforma da rodoviária de Campinas.
Nenhuma saudade consegue ser compensada.

De um banco ao lado, alguém assistia aquela cena e pensava no tamanho da coragem dos dois em bancar um relacionamento assim. Num Mundo onde a oferta para se resolver problemas de carência parece tão abundante, assumir um compromisso com alguém e deixá-lo longe não parece um cenário tão seguro. A fraqueza das pessoas faz com que promessas sejam quebradas, regras violadas e confianças para sempre abaladas. Sem dúvida, amar é para os fortes.

Eles sabiam daquilo tudo. Quantas vezes já não tinham ouvido uma piada aqui, outra ali. “Relacionamento à distância é bom para os quatro”, diz um ditado popular. E idiota. Talvez a freqüência com que dois apaixonados longe um do outro se vêem seja apenas um detalhe perto da intensidade que colocam a cada encontro. Claro que há tempo para brigas, discussões e coisas ruins pelas quais passam qualquer casal. Ainda assim, sabendo do pouco tempo que tem juntos, aproveitem bem mais o Amor que sentem.

A saudade entre duas pessoas que se amam apenas reitera a certeza, essa que o peito há muito tempo grita. Os quilômetros que os separam sabem, cada vez que são percorridos, que nunca serão o bastante para afastá-los de vez. As dificuldades que aparecem testam os dois, mas se transformam em combustível para poderem prosseguir. E quer dificuldade maior que estar longe? E quer combustível melhor que querer estar perto?

Ali, sentada naquele ônibus, com os olhos marejados e abraçada a uma foto, ela olhava as estrelas pela janela. E, certamente, não se preocupava com a lonjura que agora se recolocaria entre eles. As juras eram mais fortes, o caráter dos dois era bom, o Amor era o bastante para suportarem. E aos que ainda duvidavam, eles aprenderam a dar de ombros. Se não entendiam que aquilo era Amor, o que por fim entenderiam?

Amor é pros raros.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:

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Que teu Coração Encontre a Calma

A gente insiste porque gosta. E não é um defeito apenas seu ou um desvio de caráter que estou reconhecendo agora. Nada disso. Até hoje eu não vi nenhum amor ser errado. Até isso que você está sentindo agora e fica se repetindo que não pode ter. Todo amor que nasce na gente é certo. O que não é certo é estagnar, não olhar pra frente.

Parar no tempo mesmo, sabe?

Às vezes, uma pessoa pede pra não andar mais do nosso lado e a gente perde o equilíbrio. É normal até. Somos apoio e temos apoio no outro. Usamos as mãos, os olhares, a cumplicidade e toda uma história para servir de base. E o que fica quando não temos mais essa base? Fica a saudade, o Amor que ainda mora no peito e uma puta vontade de sacudir o outro perguntando “por que raios você me deixou??”.

Se não faltava carinho, se não faltava atenção, se não faltava tesão, se não faltava nada… Se eu ainda queria te dar tudo. Por quê? A resposta mais provável é um olhar pro chão e os passos a distanciar o que era tão perto e, agora, se põe tão longe. Não existe culpa. Acontece. Não existe remédio. Essa dor é algo que, por incrível que pareça, cicatriza no tempo. No sereno, no ameno do vento, até no álcool.

Mas aviso: álcool faz arder qualquer ferida ainda mal cicatrizada. Principalmente no coração.

Eu não te quero chorando por alguém que escolheu te deixar chorando. Como eu disse, a gente insiste porque gosta, mas se não há recíproca, não adianta mais. Fala baixinho com teu coração choroso que todo esse mal vai passar. Mesmo que ele não acredite e só enxergue uma saída. Mesmo que ele queira voltar no tempo. Mesmo que ele esperneie. Acalma teu coração e confia na Vida.

Algo melhor sempre há de raiar.

[ Gustavo Lacombe ]

Este e outros 100 textos estão no meu segundo livro.

“O Amor é Para os Raros”, meu segundo livro, pode ser reservado por aqui:
http://www.bit.ly/oAmorÉParaOsRaros