Meu riso, teu riso, nossa rima.

Meu riso, teu riso, nossa rima.

Cheguei pra ficar. Cheguei pra ser diferente. Pra ser único. Sei que me torno parecido com vários outros que abordaram o mesmo discurso, mas tenho ressalvas quanto a eles. Eu acredito nisso. E em mim. É preciso mais do que uma idéia na cabeça, mas um coração preenchido e carregado de algo bom. Vim pra mudar, fazer com que pense em agir como nunca agiu, sentir o que sempre quis sentir e nunca teve coragem. Cheguei pra te dar coragem de seguir, encarar. Posso ouvir no nosso riso junto a música que vai embalar essa jornada. Nossa rima, par de bocas abertas superando qualquer coisa que apareça pela frente.

( Gustavo Lacombe )

Fechou o Tempo.

Fechou o tempo. Nuvens vermelhas carregadas de coraçõeszinhos se aproximam da sua vida e, no trajeto pra casa, você tem certeza que vai procurar as marquises dos prédios e os toldos das lojas e estabelecimentos que te ofereçam segurança para realizar todo o percurso sem se molhar. O guarda-chuva na bolsa, pronto para água, sabe que não vai poder fazer muita coisa se um daqueles artefatos atingi-lo. Será queda na certa, rumo a um caminho já conhecido e, por isso, bastante temido por todos que se vêem na iminência de se banharem com as gostas do amor.

Encostada com a cabeça na janela, a preocupação escorre junto com um pingo que o vento trouxe. Você suspira aliviada. Era só um ar-condicionado. Volta suas atenções para o trabalho, mas não consegue encontrar concentração. O celular vibra, distrai e carrega ainda mais o nebuloso céu lá fora. Já já começam os trovões. Por quê, meu Deus?, você se pergunta. Por que logo agora que a vida com S de solteira estava tão gostosa, uma tempestade dessa se arma sobre a minha cabeça? Não entenda. Nem culpe ninguém. Você ainda deu sorte de perceber que está nessa situação. Pior quem é pego de surpresa e, quando vê, está empapado disso.

Alguém passa por perto, te dá um tapinha nas costas e pergunta se está na Lua. Imagina, você responde. Na Lua não, mas em outro endereço que não aquele. Fato. A cada piscar de olhos você refaz o caminho até onde a chuva já cai torrencial. Consulta a meteorologia e lá diz 100% de chance de se apaixonar. Não vai ter jeito, você pensa. O corpo, já tão acostumado a se negar alguns pedidos como esse, tenta de novo resistir. Logo agora, repete. Não ter compromisso, hora ou dar explicações estava tão bom, tão confortável. Vão me tirar da zona de conforto por causa de um beijo bem dado, uma mão que sabe apertar e uma pessoa que sabe o que fazer pra mexer comigo? Só por causa disso? Sorte sua ele te saber fazer sorrir. Tem vezes que nos pegamos gostando de alguém que nem ao menos sabe da nossa existência. Você está no lucro.

Seis horas. O chefe pergunta se a saída se aproxima e, com certo desânimo, diz que sim. O pior não é estar nessa situação de novo. O que incomoda é ter passado por tanta coisa e agora ter que conviver com os fantasmas do passado que não deu certo. São só velhas teias num coração que não queria admitir que ainda era possível sentir algo assim. Recolhe as coisas, joga na bolsa, segura a chave de casa e dá uma última olhada para ver se acha um guarda-chuva perdido por ali. O céu não anunciava tamanho dilúvio para aquele horário. Quem está na chuva, definitivamente, é pra se molhar.

O primeiro pingo a bater não fez tanto efeito. Então era só isso? Andou sem pressa. Ao sair do prédio achava que teria que sair correndo. Besteira. Nem se preocupou quando viu que não tinha perigo. O pior mesmo era se apertasse. E não tardou. No meio do caminho, um sms e um trovão tocaram ao mesmo tempo. Pegou o celular e já sabia o que aconteceria. Leu a mensagem, ficou sabendo da saudade que batia do lado de lá e, de uma vez sentiu o corpo inteiro se afogar. Não havia volta, só direção rumo a trilha que não pensava em seguir tão cedo.

Só que não tem isso de querer prever. Se apaixonar é não ter tempo, e nem ao menos saber. É ser pego de surpresa mesmo, sem guarda-chuva, capa ou um casaquinho para pôr na cabeça. E vem reto, direto, certo. Entraria pela casa fazendo bagunça, deixando tudo espalhado depois da confusão na rua, mas não tinha como. Era a paixão que entrava na vida. Chuva sem guarida.

( Gustavo Lacombe )

Image

Foto

Foto – Gustavo Lacombe

Eu olhei uma foto sua hoje e uma coisa estranha percorreu meu corpo. Não foi um arrepio qualquer. Começou do lado direito do meu pé, subiu pelas pernas e fez estremecer o último fio de cabelo na nuca. Acompanhado de um sorriso, foi a prova de que a sua imagem mexe tanto comigo quanto à época em que nos conhecemos, começamos a ficar e iniciamos essa história.

Ficou um tempo. Durante alguns segundo, eu com o seu rosto na tela, fui me dando conta do que já sabia, mas reforçava em certeza. Gostar de alguém não é a coisa mais simples do mundo. Só que, ao mesmo tempo, é. Bater o olho e ficar mudo. Sentir que todo o peso do mundo se foi e nada importa agora entre eu e quem eu gosto. Queria entrar pela tela e estar ao seu lado na foto.

O coração bateu apertado, a alma se aninhou em algum lugar para tentar se esconder da dor que a sua falta me causa, e uma angústia de saber que não poderia te ter nos próximos dias me fez perder o fôlego por um instante. Aconteceu tão rápido e lento que duvido que o tempo não tenha se confundido. Meu medo era ficar preso naquela saudade.

Quando passei pra foto seguinte, já anuviada a tensão, relaxei no sofá. Permaneci ainda uns minutos olhando com cara de bobo para os olhos da menina que me fazia esquecer de qualquer coisa e viajar em pensamento para o lado dela. A verdade é que você vai estar sempre comigo, morando dentro de mim.

Declaração

Lucas comprou flores, colocou um cartão e se arrumou debaixo daquele sol fervente. Colocou no banco do carona no carro e foi embora. Atravessaria uma boa parte da cidade para poder se declarar, mas já tinha ensaiado tantas vezes, que o tempo entre a floricultura e a casa da amada era como o ensaio final. Usava uma camisa de botão azul listrada com branco, calça jeans e sapatos. O cabelo bem penteado, no tamanho que julgava o melhor e perfumado. Aquele homem tinha saído de casa sabendo que precisava causar uma bela impressão independente das que já tinha deixado antes. Era meio que tudo ou nada.

Entrou no condomínio de casas numa rua pouco movimentada. A quinta casa à esquerda, uma das maiores do lugar e com um muro altíssimo, a guardava. Bateu no portão, tocou a campainha e começou a suar. Por que isso agora? Tava tudo tão tranquilo, numa boa? Agora eu vou ficar nervoso? Ouviu o barulho de alguns passos e o tintilar da chave no portão. Aquele segundo gelou todo o ambiente que se umedecia do suor provocado pelos quase quarenta graus que faziam na cidade. Naquele instante, muita coisa se juntou. Lembrou de quando a viu pela primeira vez, dos primeiros beijos e foi passando pelo filme que muita gente vê antes da morte (pelo que dizem). Mas ali, ah, ali era a hora de começar a viver de novo. Dependia da resposta dela.

Primeiro ele emudeceu, lógico. Todo o homem perde a voz nessas horas. Depois não sabia onde colocar as mãos. Toda pessoa nervosa fica assim. Aí, vendo que ela esperava o que seria feito no segundo seguinte e já identificando o buquê na mão dele, saiu um “oi” bem tímido. Ela respondeu de volta, educada, dentro de um vestido bonito, com uma estampa floral que combinava com a luz daquele dia. Até que ele desandou a falar:

“Rafaella, tudo bem? Quer dizer, tô vendo que você tá bem. Você tá linda. A gente não se vê há quanto tempo? Uns vinte dias, né? Depois daquela briga idiota eu vi o quanto você faria falta pra mim. Infelizmente, sempre tem que existir um errinho bobo, uma briga, uma separação, um tempo, mesmo que continuemos juntos, pra gente ver o quanto deu mole. Não sei se andamos muito rápido em alguns momentos, se demos passos para os quais não estávamos preparados em outros, sei que todos foram válidos porque os dei contigo.

Trouxe esse buquê porque sei o quanto você gosta de flores e pra poder começar a compensar as que não te dei enquanto éramos um casal. Eu me considero um cara sensível, um cara que consegue enxergar as necessidades da pessoa que está ao meu lado, mas falhei algumas vezes contigo. Acontece. Somos humanos e acabamos por errar, certo? Me desculpa. Espero que nesses dias que a gente não se viu você tenha estado numa boa, tranquila. Eu senti sua falta, doeu, mas procurei me ocupar com outras coisas para me distrair. Bom, tá dando pra ver que não deu, né? Tô aqui.”

Quando acabou de falar ele estava muito suado. O nervosismo atrapalhava Lucas, mas logo entregou as rosas e Rafa sorriu. Ela o convidou para entrar, tomar um café, um água ou um suco, e aproveitar para conversar melhor. Sabia que existia muita coisa a ser debatida e esclarecida para aparar as arestas e ficarem juntos. Não disse nem que sim nem que não, apenas deu uma chance para eles se entenderem. O que sairia daquela conversa só eles poderiam dizer, mas era alguma coisa.

Às vezes, a gente quer uma oportunidade de mostrar que pode dar certo, não algo de mão beijada e uma confiança irrestrita. Tenha um pé atrás e conquiste a pessoa, mesmo que de novo, detalhe a detalhe, vontade a vontade e pouco a pouco.

Eu só queria poder perguntar como foi seu dia

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Queria poder te ligar agora.

Ligar e te perguntar alguma coisa fútil, te mandar uma mensagem perguntando se naquela noite você iria beber muito ou iria se maneirar, escrever um poema, um texto, ler alguma coisa pra você e ficar tentando decifrar se está gostando ou não. Queria poder cozinhar pra você, mesmo que errasse na receita e não reparasse.

Queria poder chegar no seu corredor e me perder sem saber qual apartamento é o certo, queria atestar o quanto você é distraída e também confunde um monte de coisas durante o dia. Queria estar aí para andar de mãos dadas com todos os seus conhecidos vendo e se perguntando quem é aquele menino que segura o seu coração. Queria poder acordar e dar de cara contigo do outro lado da cama e com aquele monte de cabelo na cara.

Queria poder viajar contigo, comer uma pizza, ir pra uma festa, tomar uma cerveja gelada, te ver alegre. Chegar em casa e te levar para um banho, ficar de preguiça no sofá da sala, namorar mais um pouco vendo um filme que eu já vi – mas que queria muito que também visse. Fazer das suas pernas o meu cobertor e pronto, frio nunca mais.

Queria poder te carregar no colo mesmo você morrendo de medo de cair (cair? isso nunca vai acontecer). Queria tirar uma foto pra posteridade, fazer amor de verdade, planejar a eternidade e acreditar em destino. E se sua mãe e seus amigos ainda tiverem dúvida sobre a gente, eles verão que isso é bobeira e logo passará. Rápido como você entrou para não sair da minha vida.

Eu só queria perguntar como é que foi seu dia. Nessa distância é a única coisa que posso fazer. Ainda assim, vou além.

Porque, mais do que um alô, posso terminar com aquele “eu te amo”. Ainda cheio de saudade, mas confirmando que, em mim, você é a melhor parte.

(Gustavo Lacombe)

Olhar no vazio

Ela se constrangeu.

Virou a cara, não sabia para onde olhar. Deveria existir um outro motivo, mas não aquele. Por que, Deus? Só pra sacanear? Só pra começar o dia com o pé esquerdo? Era castigo demais. Não podia ser verdade aquilo. Demorou uns segundos a mais ate conseguir encarar, mal acreditando que aquilo, logo aquilo, tinha acontecido com ela.

Quando finalmente conseguiu levantar, sentiu o peso no corpo e na consciência. Caminhou até o banheiro com um passo trôpego. Talvez fosse o resquício da noite anterior. Ainda tentava entender, e poderia adivinhar que isso duraria pelo menos uns três próximos dias, o porquê de ter cedido. Hoje ela seria culpa. Nada mais. Se vestiria de preto, num luto simbólico. Só porque cedeu.

Abriu o chuveiro, demorou mais que o habitual, ensaboou-se sem pressa, deixou que a água quente percorresse o seu corpo molhando cada parte. Parecia ainda estar em ebulição, mas sabia que era apenas reflexo do esforço final passado. Shampoo e condicionador para tirar os vestígios e dar vida a uma pessoa que tinha morrido e não sabia, que tinha se deixado abater e detestava o predador.

Saiu do box, se enrolou na toalha e o mundo pareceu desabar. Alguma coisa a abraçava além daquele tecido felpudo. O que era culpa se transformou em algo pior. Ela não sabia como sair dali e ao ver um sorriso refletido no espelho, soube que tinha ido longe demais ao se deixar levar pelas palavras dele.

Ex-namorados, por que existem?

(G. Lacombe)