Eu até Hoje me Arrependo de Algumas Coisas que Fiz

Ela olhou pra mim e disse alguma coisa que eu não gostei. Não me lembro bem o que foi, mas me recordo o segundo exato em que não aguentei e explodi. Gritei. Na cara dela pude ver a perplexidade de alguém que não esperava aquela reação. Ela, chateada e com razão, simplesmente virou as costas e saiu de perto de mim dizendo que não queria mais conversar.

E naquele segundo eu achei que tivesse jogado fora tudo que a gente tinha.

Talvez seja por isso que hoje eu tente medir e muito as consequências das coisas que eu faço. Não acredito que o perdão tenha o poder de simplesmente apagar as coisas. Nada apaga totalmente um erro, nem mesmo dois acertos posteriores. Você pode, sim, recomeçar e aceitar a nova chance, mas nunca vai conseguir tirar da história aquele episódio ruim. Ele vai sempre estar lá para te lembrar da besteira feita.

Ao meu ver, o mais importante é conseguir seguir. “Como seguir” é o ponto crucial. O arrependimento pode ser carregado para sempre (como até hoje carrego a vergonha por ter feito o que fiz com alguém que amava tanto), mas é a lição que vem junto disso tudo que torna aquele fato ainda mais relevante. Se não há um aprendizado depois, o erro se torna ainda maior.

Como se continuasse a ferir.

Não quero que você pense, então, que pedir desculpas não vale nada e que simplesmente errar e aprender é o suficiente. Pelo contrário. Acredito que quando se erra e se enxerga o deslize, desculpas sinceras são o ponto de partida para um possível remendo, para uma tentativa de cicatrização do mal que foi feito. A partir daí, tudo é reconstrução.

Eventualmente dá certo. Você se arrepende de verdade, tateia caminhos para que tudo fique bem e guarda o erro como experiência. Principalmente para não ser repetido. Eu até hoje me arrependo de algumas coisas que fiz, como o exemplo do grito, mas acredito que aprendi. O difícil é ter que lidar com o fato de errar com as pessoas que amamos para, então, sermos melhores.

É preciso pesar as consequências, não deixar que elas nos esmaguem depois.

[ Gustavo Lacombe ]

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Roupa Suja

Ele costumava me abraçar depois que a gente fazia amor. Tudo bem que nem sempre gozávamos juntos, mas ver a cara dele de prazer comigo era suficiente pra mim. Até que um dia – e é sempre assim “de repente” – ele virou a cara e saiu da cama. Acendeu um cigarro, foi ao banheiro e, quando voltou, pediu que eu me arrumasse, que estava tarde e que me levaria em casa.

Oi?

A casa era dele, a cama dela, a mobília dele, tudo dele. Algumas almofadas eu dei de presente, tinha até uma gaveta pra guardar as minhas coisas, mas nada de demais. Ali eu era apenas uma reles convidada, mas com tempo suficiente de relacionamento pra me sentir à vontade. Até calcinha no chuveiro eu já esquecia. Erro grave meu, eu sei, mas acontecia vez ou outra. Só que nunca tinha sido tratada daquele jeito. Por ninguém.

Talvez seja assim que se iniciem as decepções, nas atitudes impensadas que quebram a rotina para o mal.

Nem discuti. Peguei minhas roupas, passei a mão na bolsa e fui embora. Enquanto ele ficava me puxando e tentando explicar que precisava acordar cedo, eu me vestia, ligava pro táxi e ia andando. Saí da casa, fui pro portão do condomínio e, mesmo sabendo que ele queria esclarecer os motivos, me senti uma puta.

Uma puta que é mandada embora assim que a farra acaba.

Claro que eu aceitei as desculpas. Ele passou uns dois dias ligando e deixando recados. Apareceu no meu trabalho, mandou flores e entendeu o que tinha feito. Era o mínimo. Percebi que essas coisas acontecem. Mal entendidos que corroem, mas, mesmo assim, disse tudo o que senti e como me senti naquela noite.

É muito mais fácil colocar as cartas na mesa e não engolir sapos. Roupa suja de problema é pra ser lavada antes de acumular, ou depois os dois sofrem juntos por terem se omitido. E eu já era grandinha demais pra não dizer as coisas.

(Gustavo Lacombe)