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Você Merece Ser a Mulher Mais Feliz do Mundo

Eu fico imaginando que um dia eu vou estar no altar. Ali, todo arrumado e, sei que estarei suando muito enquanto te espero. Nervoso, tenho mais do que certeza de que acabarei roendo todas as minhas unhas antes que todos os convidados cheguem. Meu medo não será que você desista, mas que eu não dê conta de te fazer feliz como você merece.

Se eu tenho dúvidas de que posso te fazer a mulher mais feliz do mundo? Não. Claro que não. Porém, eu tenho medo de não atender às suas expectativas, entende? Eu sei que esse é um pensamento complicado, mas vou estar ali, encarando todos os olhares, diante de todos os questionamentos e, na hora em que te vir entrando e passando pelo tapete vermelho, sei que vou tremer.

Meu amor me dá a certeza necessária e eu deveria te dizer que estou firme. Sim, estou. Te pedir para dividir toda essa caminhada comigo foi a mais acertada das decisões que tomei. E você nem imagina como eu estava na hora em que pedi a sua mão. Porém, fica esse receio. É meio inexplicável. Talvez eu não esteja sendo tão claro assim.

Só te peço isso, meu bem, que no dia em que estivermos lado a lado e prontos para dizermos nosso “sim”, você segure a minha mão e me dê a força necessária para seguirmos em frente. Me mostre, com seu toque macio e o seu olhar acolhedor, que eu já tenho conseguido realizar a incrível tarefa de colocar sorrisos nos seus lábios e dar cor aos seus dias.

Um homem, por mais seguro que esteja do quanto ama, também enfrenta o medo da rejeição. Antes ou depois, é essa coisa estranha de ter você hoje e vislumbrar a possibilidade de não te ter amanhã. É quase um mini-pesadelo quando o pensamento me ocorre. Não entra na minha cabeça isso, sabe?

Eu quero nós dois por toda vida, sem dúvida alguma, mas sei que não conseguirei fazer isso sozinho. Posso ser forte, mas com você sou invencível.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

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Eu te Odiaria se Você Não Existisse

Pra começar nossa conversa, eu queria três filhos, tivemos dois.
E, às vezes, eu quase te odeio por isso.

Fico revirando na minha cabeça todos os outros motivos que tenho pra te detestar. Chego a ter raiva por eles ficarem saltando na minha frente e apontando seus defeitos, rindo e zombando da minha cara que te aceitei assim. Você é tudo aquilo que eu jurava que não iria ter num domingo à tarde quando eu passasse dos meus quarenta anos.

Quando eu conversava com a minha mãe sobre a vida dela e dizia que não repetiria os mesmos erros ou quando eu ficava naquela coisa de criança com as amigas tentando adivinhar o futuro, sempre dizia que arrumaria alguém que seria sempre ativo, bonito e que, de vez em quando, cozinharia para mim. E você veio com tudo fora de lugar.

Tem mais, claro: você faz coisas que eu simplesmente detesto. Nesses dias em que fico remoendo seus erros, penso em como fui capaz de entrar na Igreja toda de branco e dizer “sim”. Você já deixava a toalha em cima da cama, você já não me levava mais café na cama e eu já vivia pedindo pra você largar a cerveja e entrar na academia. Olha em que ponto chegamos.

Dezesseis anos depois, enquanto você coloca os pés no mesa de centro e a televisão no futebol, estou aqui do seu lado abraçada aos nossos filhos que entraram naquela fase de perguntar o porquê de tudo. E ontem eles me perguntaram se eu não tinha encontrado alguém melhor do que você na minha Vida.

Vê se tem cabimento essa pergunta!

Primeiro eu disse que sim, que havia encontrado outros homens muito melhores do que você. Alguns eram ricos, outros sarados, e conheci até aqueles que beirariam a perfeição, mas nenhum deles tinha os seus defeitos. Nenhum deles sabia arrancar um sorriso meu no meio de uma briga.

Nenhum deles conseguia enxergar o lado bom das coisas em qualquer que fosse a situação – como quando o pneu furou e a gente ficou esperando o reboque porque o carro estava com o estepe vazio e você disse que era bom porque, pelo menos, a gente ficaria mais um tempinho juntos e tinha um bom motivo para chegar tarde em casa.

Nenhum deles saberia dizer quando estou na TPM tão bem e me trazer paçoca para comer. Nenhum deles repetiria as piadas infames como “pra que arrumar a cama se nós vamos desarrumá-la mais tarde?” – e, o pior, ainda me fazer rir disso.

Às vezes, eu quase te odeio por um segundo inteiro. Minha vida poderia ter sido completamente diferente, eu disse aos meninos, mas certamente eu não teria sido tão feliz quanto eu tenho sido com vocês nessa Vida.

E eu te odiaria se você não existisse para me dar isso tudo que a gente tem.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

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O Entendedor

O Entendedor

Eu não entendo as mulheres, eu entendo da minha mulher. E pode ser que, por exatamente ser uma delas, ela tenha vontades, desejos, anseios e outra série de questões parecidas com a de outras mulheres. Não que mulher seja tudo igual, mas se tanta gente se identifica e se encontra nas histórias dos filmes, músicas e telenovelas, é porque em algum aspecto somos, sim, um tanto parecidos. Mas a Lúcia é diferente.

Lúcia acorda sempre às 6:30 sem despertador nos dias úteis e aos fins de semana se permite rolar na cama até às oito. Agradeço a Deus todos os dias pelos seus pés de veludo e seu jeito delicado de levantar. Já são vinte e sete anos podendo dormir um pouco mais que ela, salvo exceções. Não que sair antes para trazer um café na cama seja rotina, mas um agrado de vez em quando ajuda a suavizar os efeitos do tempo.

E ela adora ser agradada, não mimada.

Você não entendeu errado. São vinte e sete anos. Nesse meio tempo, foram cento e oito escovas de dente (trocadas de três em três meses assim que as primeiras cerdas se entortam), vinte e três jogos de cama, lençol e fronha (compradas com periodicidade suficiente para que ainda servissem para doação), e seis carros diferentes (trocados sempre que completavam cem mil quilômetros rodados). Todas essas renovações eram culpa dela.

Lúcia tem essa mania de renovar as coisas.

Tanto é que, quando fizemos vinte e cinco anos de casado, ela fez questão de renovarmos os votos. Numa época em que as pessoas descasam porque a outra deixa a toalha em cima da cama por mais de trinta segundos, a gente vem se virando bem com essa coisa de meio termo. Ah, só pra constar, a Lú detesta toalha embolada em cima da cama. Por isso eu deixo na cadeira mesmo. Num relacionamento, um lado sempre tem que ceder e eu venho cumprindo bem o meu papel.

Ela é bem humorada, mas acordava de ovo virado quando estava de TPM. Agora entrou na menopausa, mas continua acordando alguns dias assim só pra não perder o costume. Ela diz que TPM é um estado de espírito. Ama música, mas não gosta quando eu corto o assunto e começo a cantar. Geralmente faço isso no meio de uma discussão pra poder não falar mais nada. E como quem cala consente, eu canto.

Tem sempre um livro na bolsa. A estante do quarto já não tem mais espaço pra tanta brochura que ela volta e meia pega e lê de novo pra um clube do livro que ela fundou com umas amigas de colégio. De colégio, sim. “Trinta e nove anos de amizade, querido”, ela me diz em tom de deboche por eu não ter conseguido cultivar nenhuma amizade dessa época. Ela tem seus dias de debochada, de sonsa.

Mas, isso, todo mundo tem.

Tem vezes que ela deita na rede da varanda e se deixa olhar. Eu meio que me escondo, mas depois de tanto tempo, ela aprendeu a se fazer de paisagem pra que eu admire. E a Lúcia adora que eu olhe pra ela com cara de namorado. Ela soube envelhecer. Não quer ter a idade que não tem. Cultiva marcas de felicidade no rosto e deixa que o pilates e a caminhada dêem jeito no resto. E eu olhando ela na rede. Linda, num balançar preguiçoso de quem é amiga do tempo.

Ela diz que me ama. E diz desde aquele fatídico sorvete na esquina da casa dela – há trinta anos -, quando esfregou um potinho inteiro de baunilha na minha cara depois de uma briga entre ela e uma ex minha. Em meio a um xingamento de estúpido pra mim, deixou escapar um “como é que eu consigo amar uma pessoa assim!?”. Eu fiquei meio atordoado com tudo. Resultado? Larguei uma pra casar com outra. Eu sei que a vida é feita de escolhas. Meu nariz cheira baunilha até hoje, essência do creme de mãos dela.

Eu digo que a amo. Digo quando ela precisa ouvir isso, quando não precisa. Quando ela volta do trabalho com cara de cansada ou quando sai do banho refeita. Quando ela faz um almoço, quando compra pronto. Quando vai dormir, quando acorda. Quando a gente só dorme, quando a gente faz amor. Quando ela discute e fica mais bonita ainda, quando ela chora vendo um filme e eu preciso consolá-la.

E, quando não digo, tento traduzir em gestos. O “eu te amo” está nas coisas pequenas. Tudo bem que um anel pode gritar lá de dentro da caixa, mas é no sussurro de um chá feito especialmente pra ela que eu tento aquecê-la com o meu amor.

Eu mal falei dos meninos, né? Como eu disse, esse texto é sobre a Lúcia, não sobre mais ninguém. Só que é impossível falar disso tudo sem frisar como ela cuidou bem das crianças. Que agora já estão morando fora, mas serão sempre crianças. A Renata é igual a mãe. Linda. Eu sou péssimo para descrever traços, mas elas não gostam quando eu brinco que são cara de uma e focinho da outra.

Lúcia não suporta brincadeiras bobas, mas guarda as suas próprias na manga.

Já o Pedro, ela diz, puxou demais a você. E fala isso olhando pra mim de lado, como se quisesse falar da minha vida de falta de compromisso com horário para o trabalho. Eu argumento que escritor escreve quando a ideia vem. E a maioria delas não respeita o horário normal de 8:00 às 18:00. Taí… talvez seja por isso que eu não a escute levantar da cama.

Nossa, se deixar eu falo até amanhã dela. Nada foi fácil. Quem disser por aí que casamento é uma coisa tranquila, é porque nunca casou. Um conselho para as novas gerações? Lúcia sempre diz “não casem”. É preciso entrega, é preciso vontade. É preciso saber que uma briga não é o fim do mundo, apesar de o precipício parecer bem perto às vezes. É preciso saber que qualquer maré boa pode ser afetada por um acontecimento ruim. E um corte, por menor que seja, sempre pode infeccionar.

Entender o outro – e não é só saber que ela gosta de água morna, Brahma gelada, pilates, polenta frita, ar condicionado a vinte e dois graus, Búzios, Santa Rita, Flamengo, feijão em cima do arroz, chá de camomila, toalha estendida, roupa nova, lírios, e coisas de baunilha – é complicado. Eu ainda me surpreendo com alguns gostos dela, esquecidos ou adquiridos.

E eu ainda me surpreendo todos os dias por olhar pra ela e descobrir que me apaixono cada dia um pouco mais. Deve ser essa mania dela de renovar as coisas. Faz sempre isso de eu cair de amores. Mesmo depois de vinte e sete anos de casado. Ah, isso foi o que ela disse no dia das nossas bodas e renovações de votos de casamento:

– Eu, como toda mulher, sempre desejei encontrar um amor. A vida acabou me dando você. Mais que um amor, um pedaço de mim sem o qual eu não saberia viver.

Ainda bem que eu já tinha falado, porque fiquei mudo. Calado.
E quem cale consente.

( Gustavo Lacombe )