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Parem de Demonizar o Ciúme

Parem de demonizar o ciúme. Parem de tratá-lo como se fosse a pior coisa do Mundo. Ciúme é tempero, não é refeição. Se entre todas as analogias o Amor fosse uma gripe, o ciúme seria apenas um espirro. Um sintoma. Efeito colateral de gostar muito de alguém. Quando passa disso, torna-se doença, deixando de ser Amor. Passa a ser posse. E o que antes dava um gostinho até legal para o relacionamento, passa a ser um fardo.

Até o motivo para o fim. E com toda a razão.

A dificuldade talvez seja conseguir enxergar o ciúme como algo bom e importante. Numa música do Rael a moça mesmo diz que não é pra reclamar das crises dela porque, sumindo o ciúme, some também o Amor. E acho que é assim mesmo que funciona. Quando se gosta de alguém, tem-se medo de perder. Essa certa insegurança age na cabeça dos apaixonados e cria algumas paranóias e outras coisas que se afloram no ciúme. Sendo arrefecido pela certeza do sentimento do outro.

Aí, eu sei, entram diversas outras variáveis que agem de forma diversa nesse contexto. Conheço pessoas que precisam dar provas atrás de provas de que são fiéis, que gostam, que fariam de tudo (e fazem) para deixar o outro “tranquilo”. Como também já vi algumas situações em que o outro dava milhares de voltas, enganava e não tinha nem ao menos que dar satisfação porque o outro lado confiava e não ligava pra algumas coisas. Já conheci gente que até brigava com o outro porque ela não “demonstrava que tinha ciúme”.

Vai de cada casal, né? E também do caráter em se aproveitar da confiança que é entregue, claro.

Só não acho que rotular o ciúme como algo ruim resolva. O velho ditado “ninguém é de ninguém” é o mais certo. Porém, quando se está dividindo a vida com alguém, espera-se respeito, atenção, carinho. O déficit em alguma dessas coisas pode ser combustível pro ciúme também. Quantos casos você já não ouviu de namoradas(os) que tem implicâncias de amigos (as)?

A grande sacada disso tudo é entender que tratar como “objeto” uma outra pessoa é a receita para afundar qualquer namoro/rolo/relação que tenha sido legal um dia. Ciúme é algo que, uma vez desperto, pode ser até bonitinho, mas quando começa a interferir na vida do outro, quando começa haver censura, quando um submete o outro às suas vontades, algo passa a destoar. Muda de figura e atrapalha. Vira um abuso.

Por fim, o problema não é ele existir, mas como ele se manifesta.

[ Gustavo Lacombe ]

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Tira o Olho do que é Meu!

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Segundo Proust, o grande amor só se sente no ciúme. Pode ser uma verdade para alguns, meia para outros ou, então, mais uma besteira dita por esses escritores que querem definir o sentimento. Enfim, não importa o que você ache de Proust, mas não se pode negar que ele está certo em alguns aspectos. Se é quase impossível estabelecermos conceitos divinos que não sejam logo rebatidos com alguns bons argumentos, que sejamos capazes de, pelo menos, defendermos nossas convicções. Assim, digo o seguinte:

Ciúme é uma merda, mas é bom. E o contrário também.

Talvez o amor em Proust seja aquele de homem para mulher, mas o ciúme (em si) é muito maior do que essa relação. Para não nos limitarmos: é muito maior do que a relação de um casal. Pode envolver irmãos, primos, amigos, etc. Ele nasce pela vontade de ter alguém só para si, sem querer dividir com mais ninguém. Causa aquelas reações involuntárias de demonstração de territorialidade, como aproximações repentinas do objeto, ou combustíveis para futuras discussões, embebidas de acusações sobre como o ser enciumado foi deixado de lado.

O bom do ciúme é que, de certa forma, ele atesta o sentimento. Quem nunca se pegou com um “ciuminho bobo” e, enfim, entendeu que gostava? Ratifica, mas conforme a intensidade, varia entre ser sutil ou possessivo. Uma coisa é tê-lo para com alguém que claramente quer “roubar” o que é “seu”. Lógico que as duas palavras estarão sempre entre aspas – e por motivos óbvios. Outra é não entender que uma pessoa precisa se relacionar com outras e que você não é a razão do viver dela. Amigos, parentes, ex-namorados, colegas de trabalho, conhecidos… Importando-se com cada um desses que chega perto, qualquer um pira em dois tempos.

Não vou falar de ciúme do passado, ok? Não ficar com alguém por ter ciúme do passado é doença.

Compreensível até certo ponto, pode ruir a estrutura inteira de uma relação por sua causa. Como um veneno para quem o sente, não se encontra lenitivo capaz de cura se usado em excesso. É preciso dosá-lo. Ainda há quem reclame da falta, mas, definitivamente, ciúme é uma linha tênue em que muitos confundem amor e carinho com posse.

Mesmo se fazendo uma concessão do coração, ninguém é dono de ninguém.

(Gustavo Lacombe)

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