A Saudade é Uma Máquina do Tempo

Fecho os olhos e estou em outro lugar. Ainda com a cabeça no mesmo travesseiro do meu quarto, mas não é o teto que encaro. Teletransportado em menos de segundo. Ali, de abertos olhos e sorriso largo, estou frente a frente com ela. O peito aperta. Na minha mais maluca e ensandecida vontade de revê-la, busquei nosso momento mais feliz na memória e comecei a rezar mais ainda para que ficasse preso ali. Um bobo.

Perfeito idiota.

O corpo, mesmo com a esperança de sentir o calor dela novamente, continuava envolto aos lençóis frios. Na miragem, a boca saliva e logo estou pronto para o nosso beijo. Ficam à flor da pele a vontade, o carinho e o ódio comigo mesmo por a ter deixado ir. Sei que aquilo não está acontecendo de novo. Sei que é um sonho louco. E não adianta terceirizar a culpa. É minha. Com tanta coisa ruim agora entrando na cabeça, me pregam uma peça e sou atirado a um outro momento.

Ninguém está preparado para ouvir de quem ama que acabou. Meu devaneio me fez retornar a esse momento. A Saudade é uma máquina do Tempo, mas nunca se sabe onde ela pode parar. Fora de controle, me debatia em minhas próprias recordações de nós. Vi muitas coisas boas, claro, mas tive que olhar de novo para as ruins. Se eu pudesse, consertaria todos os meus erros. Se eu pudesse, lavaria todo o choro e levaria todo o mal que a fiz. Se eu pudesse, faria muita coisa diferente.

Mas, obviamente, não posso.

Fico torcendo para que, onde quer que ela esteja, o sorriso mais bonito a acompanhe. E por mais que a Vida siga, eu nunca a esqueci. Seguir é bem diferente de deixar ir.

[ Gustavo Lacombe ]

Foto

Foto – Gustavo Lacombe

Eu olhei uma foto sua hoje e uma coisa estranha percorreu meu corpo. Não foi um arrepio qualquer. Começou do lado direito do meu pé, subiu pelas pernas e fez estremecer o último fio de cabelo na nuca. Acompanhado de um sorriso, foi a prova de que a sua imagem mexe tanto comigo quanto à época em que nos conhecemos, começamos a ficar e iniciamos essa história.

Ficou um tempo. Durante alguns segundo, eu com o seu rosto na tela, fui me dando conta do que já sabia, mas reforçava em certeza. Gostar de alguém não é a coisa mais simples do mundo. Só que, ao mesmo tempo, é. Bater o olho e ficar mudo. Sentir que todo o peso do mundo se foi e nada importa agora entre eu e quem eu gosto. Queria entrar pela tela e estar ao seu lado na foto.

O coração bateu apertado, a alma se aninhou em algum lugar para tentar se esconder da dor que a sua falta me causa, e uma angústia de saber que não poderia te ter nos próximos dias me fez perder o fôlego por um instante. Aconteceu tão rápido e lento que duvido que o tempo não tenha se confundido. Meu medo era ficar preso naquela saudade.

Quando passei pra foto seguinte, já anuviada a tensão, relaxei no sofá. Permaneci ainda uns minutos olhando com cara de bobo para os olhos da menina que me fazia esquecer de qualquer coisa e viajar em pensamento para o lado dela. A verdade é que você vai estar sempre comigo, morando dentro de mim.

Del.

Del. – Gustavo Lacombe

Primeiro ela resolveu deletar. Deu um fora, uma bronca, virou as costas e ligou o foda-se. Fez o certo. Disse que ia, pediu (quase implorando o contrário) pra não vir atrás e se foi. Em algum lugar daquela cabeça, aquilo era o mais apropriado a se fazer. E era mesmo. Ficar enrolando, sendo enrolada e sem uma perspectiva? Ah, não, violão! Aquilo era demais até para um coração entregue e nas mãos da outra pessoa. Se valorizar acima de tudo, né?

Deu um tempo e nada aconteceu. O diálogo ficou mudo e parece que a cena toda feita tinha sido um favor. E pode ter sido mesmo. Eu, como escritor que imagino a situação inteira, posso adiantar que da parte dele foi um alívio, da dela também. No fundo, aquela relação arrastada, parecia prender os dois a um passado que teimava em ficar no presente. Quem sabe no futuro? Mas o futuro (o tempo, o tudo, o amanhã) a Deus pertence. Então, nada de fazer previsões!

Assim, se passaram os segundos, os dias, as semanas e alguns meses. Se fosse ano que vem, poderia escrever que até ano se passou, mas ainda não. Vamos pensar que o caso é recente, ok? Então, nesse intervalo ela se descobriu. O tempo inteiro com ele parece que escondia toda a beleza que ela tinha para dividir com o mundo. E ela era e é poderosa demais para se esconder atrás de um carinha sem futuro. Um qualquer. Ela precisa mesmo é ter os homens como enfeite. Ele? Ainda é aquele carinha sem futuro, eu acho.

A lição que ficou nessa historinha aqui? Bom, você pode tirar um monte. Pode vir com aquela que “ex bom é ex morto, sumido ou fugido”. Pode falar que ele deu mole pois não viu o potencial da menina que tinha com ele. Pode dizer que ela tava certa, só deixou de estar quando começou a postar indiretas no Facebook pra dizer que agora é a Rainha da Night. Você pode se abster e, no fundo, achar que esse foi só um texto merda. Pode tanta coisa na grandeza do nosso livre arbítrio…

Só que, como escritor que sabe quase tudo, posso dizer que as pessoas deixam furos. Um ex, por melhor que você deseja que ele esteja, vai ter que estar sempre um degrau abaixo. Normal. E esse degrau, se for falso, também é válido. A outra, é que os sentimentos que dão pontadas no coração, seja na hora de ver uma foto, uma conversa antiga ou que nos faz agir por impulso, são os piores. São porque ficam, vão ficando, não se retiram. Verdadeiros mal-educados. Já mandamos ir embora, mas eles insistem em ficar, nem que seja pra deixar de ser amor e virar um odiozinho.

Não se preocupe, se ela hoje tá bem, com certeza o pé na bunda dele foi bem vindo. A gente tem que aprender a ver o lado bom das coisas. Ele? Garanto que de algum modo torce pelo sucesso dela. O dele é procurado e caçado todos os dias quando acorda e se depara com um dia inteiro pela frente. A verdade é que a melhor parte de um ex, quando não é pra ficar em forma de uma amizade saudável, é a parte em que ele some de vez.

Sem mais, Meretíssimo.

Vai

Vai – Gustavo Lacombe

Vai, mas some
Que de tudo que deixou
Nem ao menos um fio
Do cabelo que eu abraçava
Eu quero ver

Vai, mas corre
Que minha saudade
Não te alcança na estrada
Nem pensa em ao menos
Tentar

Vai, mas confie
Que faz o certo
E o melhor pra você
Mesmo que eu discorde
Em tudo

Vai, mas troque
O nome, telefone, endereço
Tudo. Porque não haverá no mundo
Lugar que você possa se esconder
Do meu amor

Poesia é uma coisa complicada. Eu gosto de escrever, mas prefiro quando não tem muita metáfora, muitas figuras de linguagem. Sei que fazem parte e deixam qualquer texto mais bonito, só que as coisas quando são ditas diretamente, por mais que fiquem ‘na cara’, são mais honestas. São melhores. Eu adoro poesia, por mais complicada que seja. Espero que vocês gostem dessa.

Bom domingo!

Malsucedidos

Malsucedidos – G. Lacombe

Esqueci o telefone fora do gancho ontem. Tava conversando com um amigo e fui ver a comida que estava no forno e esqueci, simplesmente. Sei que você tentou várias ligar aqui pra casa e não conseguiu. Celular? Descarregou. Aí, coloquei na tomada lá no quarto e só liguei quando fui dormir. Vi suas ligações perdidas, mas já era tão tarde.

Eu dei uma saída. O pessoal da faculdade estava num boteco aqui do lado de casa e achei que não faria mal dar um pulo lá. Lógico que tinha algumas meninas. As meninas do nosso grupo. E você conhece todas. Fui pra esse boteco e não te avisei. Tudo bem, falha minha. Mas nem tudo eu vou conseguir lembrar de te avisar.

Acordei hoje e a primeira coisa que eu lembrei foi de fazer uns trabalhos. Tinha coisa pendente, eu tinha que fazer pra “ontem” e minha manhã assim foi ocupada por outras coisas. Na hora do almoço eu fui correndo pra casa da minha mãe. Reparei que a sua mensagem da noite passada tava lá, malcriada e me pedindo pra te ligar assim que desse, mas eu fiquei com medo da bronca. Eu não tenho mais cinco anos, só que não gosto de levar esporro de graça.

Só te liguei agora, de tarde, pra explicar tudo isso. Cuido com muito zelo da gente. Quero ainda ficar contigo por muito tempo, mas entenda que nem tudo vai sair do jeito que a gente planeja. Não faça tempestade num copo d’água. Se eu errei, só me aponte o que fiz e eu pretendo melhorar. Com seus toques eu quero evoluir como pessoa, como homem para melhor te atender.

Tudo começou numa série de eventos malsucedidos, só que não precisa ser o atestado de que tudo desandou.

Puzzle

Puzzle – G. Lacombe

Comecei um quebra-cabeça, quer dizer, começaram por mim. Já o peguei com algumas peças no lugar, outras me deram e algumas eu achei perdidas por aí. Fui tentando, certas não encaixavam e várias estavam só fora de posição. É preciso ter criatividade em alguns momentos para poder colocar todas juntas.

Esse que faço não tem caixa com uma figura nem manual de melhor disposição.

É tudo na base da tentativa e erro. Erros normais, erros sutis, erros grosseiros. Todos estão lá. Peças que colocamos de qualquer jeito, acabamos estragando, tem aquelas que a gente nem vê, ficam embaixo de outras escondidas. Ah, tem aquelas que parecem que cabem, mas não servem pra nada.

Assim, vou aprendendo que, no quebra-cabeça da vida, o lugar das peças não é o mesmo pra sempre e que certos encaixes ficam gastos sem aceitar mais nenhuma peça no lugar. Pai, mãe e melhores amigos não podem ser substituídos. Um grande amor também não. Outras peças ficam frouxas, não ficam boas, é estranho.

Sei que, um dia, não haverá mais nada a ser acrescentado ao meu puzzle. Quando essa hora chegar, quero poder olhar pra tudo que construí e sorrir satisfeito com todos os encaixes que reuni. Satisfeito com a vida.

Declaração

Lucas comprou flores, colocou um cartão e se arrumou debaixo daquele sol fervente. Colocou no banco do carona no carro e foi embora. Atravessaria uma boa parte da cidade para poder se declarar, mas já tinha ensaiado tantas vezes, que o tempo entre a floricultura e a casa da amada era como o ensaio final. Usava uma camisa de botão azul listrada com branco, calça jeans e sapatos. O cabelo bem penteado, no tamanho que julgava o melhor e perfumado. Aquele homem tinha saído de casa sabendo que precisava causar uma bela impressão independente das que já tinha deixado antes. Era meio que tudo ou nada.

Entrou no condomínio de casas numa rua pouco movimentada. A quinta casa à esquerda, uma das maiores do lugar e com um muro altíssimo, a guardava. Bateu no portão, tocou a campainha e começou a suar. Por que isso agora? Tava tudo tão tranquilo, numa boa? Agora eu vou ficar nervoso? Ouviu o barulho de alguns passos e o tintilar da chave no portão. Aquele segundo gelou todo o ambiente que se umedecia do suor provocado pelos quase quarenta graus que faziam na cidade. Naquele instante, muita coisa se juntou. Lembrou de quando a viu pela primeira vez, dos primeiros beijos e foi passando pelo filme que muita gente vê antes da morte (pelo que dizem). Mas ali, ah, ali era a hora de começar a viver de novo. Dependia da resposta dela.

Primeiro ele emudeceu, lógico. Todo o homem perde a voz nessas horas. Depois não sabia onde colocar as mãos. Toda pessoa nervosa fica assim. Aí, vendo que ela esperava o que seria feito no segundo seguinte e já identificando o buquê na mão dele, saiu um “oi” bem tímido. Ela respondeu de volta, educada, dentro de um vestido bonito, com uma estampa floral que combinava com a luz daquele dia. Até que ele desandou a falar:

“Rafaella, tudo bem? Quer dizer, tô vendo que você tá bem. Você tá linda. A gente não se vê há quanto tempo? Uns vinte dias, né? Depois daquela briga idiota eu vi o quanto você faria falta pra mim. Infelizmente, sempre tem que existir um errinho bobo, uma briga, uma separação, um tempo, mesmo que continuemos juntos, pra gente ver o quanto deu mole. Não sei se andamos muito rápido em alguns momentos, se demos passos para os quais não estávamos preparados em outros, sei que todos foram válidos porque os dei contigo.

Trouxe esse buquê porque sei o quanto você gosta de flores e pra poder começar a compensar as que não te dei enquanto éramos um casal. Eu me considero um cara sensível, um cara que consegue enxergar as necessidades da pessoa que está ao meu lado, mas falhei algumas vezes contigo. Acontece. Somos humanos e acabamos por errar, certo? Me desculpa. Espero que nesses dias que a gente não se viu você tenha estado numa boa, tranquila. Eu senti sua falta, doeu, mas procurei me ocupar com outras coisas para me distrair. Bom, tá dando pra ver que não deu, né? Tô aqui.”

Quando acabou de falar ele estava muito suado. O nervosismo atrapalhava Lucas, mas logo entregou as rosas e Rafa sorriu. Ela o convidou para entrar, tomar um café, um água ou um suco, e aproveitar para conversar melhor. Sabia que existia muita coisa a ser debatida e esclarecida para aparar as arestas e ficarem juntos. Não disse nem que sim nem que não, apenas deu uma chance para eles se entenderem. O que sairia daquela conversa só eles poderiam dizer, mas era alguma coisa.

Às vezes, a gente quer uma oportunidade de mostrar que pode dar certo, não algo de mão beijada e uma confiança irrestrita. Tenha um pé atrás e conquiste a pessoa, mesmo que de novo, detalhe a detalhe, vontade a vontade e pouco a pouco.

Eu odeio domingo de sol

Pra variar hoje é um domingo de sol.

Ninguém pra trazer café na cama
Ninguém pra me acordar cedo
Ninguém pra dizer que eu posso dormir mais
Ninguém pra me acordar com beijo
Ninguém pra ir ao cinema
Ninguém pra ir a praia
Ninguém pra tomar uma chuveirada logo cedo
Ninguém

Ela embora e deixou esses domingos
Iguais aos que tive com ela
Só pra me torturar

(G. Lacombe)

Completude

Completude.

 

Palavra bonita, não?

Pensei nela por acidente hoje escrevendo um texto e parei pra me perguntar quantas vezes já me senti assim, ou pelo o que já me senti assim. É realmente muito complicado você dizer: me sinto completo. A gente tem essa tendência de achar que nos falta algo, que não estamos satisfeitos com o que temos. Será que isso tudo vem da sensação que o marketing nos passa de quanto mais nós tivermos melhor? Será que um simples sorriso não nos ajuda nessa busca pela felicidade. Sim, porque se sentir completo é conseguir atingir um status de felicidade que beira a utopia. Tomara que possa ser menos que isso. Que essa sensação gostosa de estar no caminho certo e completo seja algo extraordinário, mas que não demore tanto para chegar.

E você, já se sentiu completo hoje?

 

“As coisas boas vem com o tempo. As melhores de repente.”