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Fique Firme

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dê o play e leia: Josh Krajcik – One Thing She’ll Never Know ( http://www.youtube.com/watch?v=4XWoz2pHtng )

A voz conhecida me pegou mexendo no celular enquanto caminhava na rua. Sabe quando você demora pra associar as coisas, ligar os pontos? Então, demorei pra perceber quem era. Quando os meus olhos acabaram pousando no dela, foi como se algo em mim tivesse gritado:

– Isso vai ser o nosso segredo.

Sorrisos sem graça (pelo menos do meu lado), dois beijos (no rosto, apesar da boca estar bem mais acostumada a sentir aqueles lábios do que as bochechas) e aquele roteiro pré-programado de “como você está”, “o que tem feito”, etc.

– Namorando – eu disse.
– Eu sei – ela respondeu.
– Ah, é? – soltei por reflexo – e você? – também por reflexo.
– Ah, eu estou me descobrindo.

Tem coisa que intrigue mais um cara do que essa frase? Fingi que não me importei. Tentei concentrar todas as minhas energias no bem que a minha atual me faz e encarei o copo como meio vazio em relação a outra. Entretanto, parada na minha frente, ficava difícil não tremer com o encontro.

“Firme. Fique firme”, repetia a voz em mim. Se eu dissesse que às vezes acordo achando que a gente ainda está junto, mas não a encontro. Se contasse que ainda penso que podia dar certo, mesmo já estando com outra. Eu seria um idiota se falasse. Só queria entender o porquê de ainda pensar tanto assim em outra já que existe quem me faça feliz de verdade.

– Eu preciso ir – ela disse encerrando a conversa.
– Eu também, ela vai chegar aqui pra me encontrar.
– Ah, então posso ficar pra conhecê-la? – não sei com qual intenção perguntou.
– Não…

Uma terceira voz:

– Amor?

“Firme. Fique firme.”

(Gustavo Lacombe)

Vai Dizer que o Tempo não Parou?

Vai Dizer que o Tempo não Parou? – Gustavo Lacombe

Não, imagina só: você se arruma todo, passou o dia pensando naquele encontro e, quando tá de cara com a pessoa, trava. Eu sei que todo mundo tem uma hora que fica tímido, que não sabe como agir, queria até não ter mãos, já que mal sabe onde colocá-las. Toda a tensão do momento está nos seus ombros e, quer saber, você não está aguentando mesmo. Fica aquela cara de bobo e nada anda. A vida empaca.

O pior de tudo é que a pessoa que está contigo, e que provavelmente passou por todas as mesmas etapas que você, não age. São duas timidez impedindo que toda a expectativa de antes não se realize. Duas pessoas, sei lá, numa boate, morrendo de vontade de dançar, mas com a mão no bolso. Ficam dando aqueles passinhos pro lado, dão um sorrisinho sem graça pro outro, e a hora vai passando sem que os dois realmente dancem.

Nessa hora, e que Deus abençoe os imprevistos, sempre acontece alguma coisa. Como diria minha avó, “É Batata!”. Se você tiver no restaurante, a comida vai cair na sua roupa, se você tiver caminhando na rua, você vai tropeçar, se você estiver fazendo qualquer coisa, outra fora do roteiro vai acabar quebrando o gelo. E você vão rir, vão querer passar por cima daquela tensão que estava no ar e a as coisas vão começar a fluir.

Veja bem, não é receita de bolo. Não sei se isso vai acontecer no minuto trinta e quatro depois que ele puxar a cadeira pra você sentar ou ela disser que vai ao banheiro e te deixar esperando (ela foi retocar a maquiagem e voltou mais linda ainda). Não, essas coisas podem até acontecer depois, num segundo encontro. Sei lá, se a gente nunca sabe quando vai encontrar o caso, não tem nem como determinar se ele vai mesmo aparecer.

O mais importante é tirar proveito da situação. Se já existe toda aquela atmosfera que une as duas pessoas ali, no mesmo lugar, com o mesmo propósito de passarem o dia, a hora, a noite, um tempo juntas, é quase um jogo ganho. Lógico que a gente se decepciona, encontra alguém e não é nada daquilo que a gente esperava ou, até mesmo, conhecia. Acontece. Mas se existe a vontade de estar na presença da outra pessoa, nada pode impedir. Quer dizer… um monte de coisa pode, mas não hoje, por favor!

E então (ufa, finalmente!) o Universo age. Por algum motivo você puxou um assunto, a pessoa se interessou e vocês estão conversando descontraídos. Uma mão toca a outra, um olhar cruza com o outro e há uma sinergia ali. O peso nos ombros se foi, a expectativa fez sentido, mas já não traz nervosismo nem atrapalha. Um, dois, três risos juntos. E não mais que de repente, tudo pára.

É possível ouvir as engrenagens que movem o Mundo entrando em estado de repouso. A barulheira em volta se transforma em silêncio, ou o silêncio se transforma de breu. Apenas dois corpos se destacam e se mexem, lentamente, em direção ao outro. Fechando-se, os olhos preparam o terreno para a conclusão épica do que foi aquele dia. Ou a abertura do que será aquele caminho. As bocas se encontram, se confundem e, depois de alguns segundos, tudo volta a girar.

Já em casa, sozinho entre os móveis e a roupa jogada numa cadeira que serve de cabideiro, você volta a pensar naquela sensação. Muito louco isso. Poderia jurar que, realmente, a vida ao redor travou e ficou observando vocês dois. Você, que nem reparou no relógio que estava usando, tira-o e coloca em cima da mesinha de cabeceira. Estranho era ele não estar funcionando. Um arrepio sobre pelas costas ao ver os ponteiros travados. Não havia dúvida: até o tempo tinha parado naquele momento.Image