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Eu Bem Que Te Avisei

Você pode ler esse texto ouvindo “Telefone”, de Tim Maia.

Eu te avisei.

Eu bem que te avisei que não queria me envolver, que não procurava nada pra me amarrar. Não que eu não pudesse, mas eu não queria. Nem quero. E você, agora, vem com todo esse amor pra me dar. Todo esse sentimento de graça. Eu gosto de você, mas não posso aceitá-lo. Eu não te prometi nada, entende? Não te jurei uma reciprocidade que não tenho pra te dar.

Me desculpa ser assim tão franco, mas se você já chegou ao ponto de ligar pra minha casa às quatro da manhã estando em pé na porta, é preciso ser mais sincero ainda. Não é um “sincericídio” porque não quero matar teu coração. Pense como uma libertação. Tá? Não fica puta comigo.

Se você quiser me xingar, eu vou até entender, mas você sabia. Sempre soube. No fundo, entre os seus lençóis amassados nas nossas noites gostosas e sexo sem pudor, você sabia que eu nunca fiquei pra esquentar a sua cama. Leva tudo isso como um tipo de recordação ou algo assim.

Ou, então, me esquece. Fala mal de mim pra quem você conhece, me acaba com as suas amigas. O que for preferível pra você. Eu bem que te avisei pra não levar tão à sério o que a gente vinha criando. Melhor arrancar o que tem agora aí contigo do que eu dar alguma corda. Depois você me cobraria e o cheque voltaria sem fundos, um Amor inventado e uma falta de interesse sonegada por querer apenas ficar mais tempo com o teu gosto e teu gozo.

Eu não posso fazer isso contigo.

E você não pode chegar me entregando todo esse carinho assim. Você não pode fazer isso comigo.
Eu bem que te avisei.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/GustavoLacombeTextos

Também

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Nos olhamos e um dos dois diz:

– Te adoro.
–  Eu também – o outro responde.

Entretanto, não gostamos de dizer o ordinário “também”. E é fácil entender. Na maioria das vezes, acabamos respondendo com um outro “te adoro”, mas não por fingir não ter ouvido ou só falar porque foi lembrado naquela hora. É que não tem o mesmo peso, sabe? O que está sendo dito acaba perdendo a força.

Me incomoda o fato de olhar nos olhos dela e não articular todas as palavras na minha boca, saboreando as sílabas e ver, pouco a pouco, aquele rosto se abrindo em sorriso. Gosto de dizer, ainda que resumido naquelas poucas palavras, quão grande é o bem me faz. O que um simples advérbio não traduz. E o mais engraçado nisso tudo é que, querendo verbalizar o que sentimos, volta e meia nos pegamos mudos, sem a necessidade de mover um músculo para nos declararmos.

O silêncio de um abraço apertado às vezes supera qualquer tentativa de dizer o quanto é grande um sentimento.

(Gustavo Lacombe)