Ninguém se Apaixona de Graça

Eu acredito que a gente não se apaixona de graça. Sempre se aprende. E a lição que fica é muito valiosa: é preciso aprender a se relacionar melhor. Qualquer pessoa nova que nos chega tem o dom de trazer um Mundo novo de conhecimentos. E não é engraçado quando você vê alguém que não tem nada a ver contigo se aproximar e ganhar seu respeito, seu carinho, sua tolerância?

Diferente ou não, sempre nasce a responsabilidade pelo que o outro sente.

As diferenças, se existentes, pouco a pouco vão se tornando pequenas e o que importa é o quanto os dois desejam fazer aquilo dar certo. Desejam sincero. Ser sincero, aliás, é como um café forte sem açúcar que te acorda logo pela manhã. Evita expectativas, evita erros. Evita frustrações. Porém, tão paradoxal quanto esse imposto da sinceridade para relações mais saudáveis, torna-se inevitável ver a revoada das borboletas quando se sabe que o gostar é recíproco.

Como não acreditar?
Como não fantasiar?

Acredita-se, sim, que estar junto é dádiva. Ficar longe é o martírio. E até na saudade se aprende que não se terá sempre a quem se ama. Acontece. É por isso que bate-se tanto na tecla do valorizar. É por isso que quem não entende o valor dos momentos, fica fadado a viver no gelo da lembrança irreversível. Talvez seja por isso que aqueles que aprenderam a valorizar cada instante busquem incessantemente vivê-lo intensamente. E querem acelerar o tempo gasto longe.

Na verdade, acho que a residência é o que se pretende mudar. O Lar agora é o abraço. Único cômodo, mas com espaço suficiente para caber qualquer tamanho de sentimento. Aquele colo, aquela quentura. Dormir sozinho como? E pra quê? Posto isso tudo, me deixa aqui tentando descobrir quantos sorrisos você ainda tem além desses seis. Me deixa aqui tentando esticar cada um dos segundos e provando mais dessa boca que já me faz não pensar coisa com coisa.

Me encontro contigo pra perder todo juízo que tenho. Pra que eu ainda o quero?

Dita você o ritmo disso tudo que a gente tem e vai determinando as horas exatas pra cada coisa. Homem vira menino ao se tocar que está gostando. Hipnotizado pelo toque da musa, passa a descrevê-la aos amigos, ouvi-la em músicas e homenageá-la em seus melhores pensamentos. Ou piores. Todo sentimento lindo assim desfaz a casca que envolve o cidadão pra colocá-lo quase nu: sua alma está ali inteiramente colorida de Amor. Que cor? A que ela dá a tudo.

No meu caso, a que você pintou meu Mundo. E se nenhuma paixão vem de graça, como dito, o preço é se deixar tocar. Talvez custe o sossego, talvez onere a paz do cidadão, mas pode ser das mais certas apostas. Como aquele que olha fundo pro outro e sabe que é recíproco.

Danem-se os Freios

Não existe freio possível quando os olhos já brilham e todo Mundo ao seu redor parece ficar invisível. Não existe nem ao menos algum espaço para o medo porque o sentir se ocupa de fazer daquele bem, um verdadeiro exagero. Depois que as mãos ficam trêmulas e a voz perde para aquela encarada que parece já dizer tudo, não adianta. Fica a sensação de que qualquer tentativa em reverter a situação será apenas um incêndio sendo apagado com gasolina. Já não se imagina os dias seguintes sem aquela pessoa, já não se faz planos pra um, já não se convence de que os melhores programas são aqueles feitos sozinho. Tudo parece conspirar, todas as esquinas parecem ter combinado que te fariam lembrar, toda parede branca inocente parece pintar o rosto do ser em detalhes de tons de cinza pra te fazer enxergar o retrato e ficar com cara de bobo no meio do dia. Há quem aceite mais facilmente. Há quem até se declare e espere, pacientemente, o tal do “momento exato”, sem perceber que exato mesmo é o presente. Cada um se vira como pode, então. Bem verdade que muitas histórias morrem e os beijos tão gostosos de língua se transformam em “bjs” mandados em mensagens covardes de boa noite. Tem de tudo, não tem receita, só uma constatação: não existe freio possível quando os olhos já brilham ao falar, lembrar, estar com alguém.

[ Gustavo Lacombe ]

#ExageroDiário