Vendo Irmão Usado

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Confesso: uma vez, na praia, quase vendi meu irmão.

Viu, eu não sou todo esse doce de pessoa. Quer dizer, eu não iria vendê-lo. Iria trocá-lo por um sucolé de chocolate. Um, não. Dois! Um de chocolate e outro de uva, mas o vendedor disse que não poderia levá-lo porque não teria como revendê-lo. E, ainda por cima, ele já tinha os filhos dele pra criar. Tudo bem que éramos pequenos e a minha mãe me deixou de castigo porque eu cheguei em casa falando – alto pro prédio inteiro ouvir – que ele tinha sido adotado, mas foi até bom ele ter ficado com a gente.

Sentiria muita falta de alguém pra ser o player dois no Street Fighter. Ou pra dizer que foi achado no lixo.

O tempo passou, nós crescemos. Todos crescem. Pero no mucho, né? Em tamanho, em sonhos e projetos todos crescem. Entretanto, tem vezes que nos juntamos e nossos pais juram que a idade mental dos dois não mudou nada desde o episódio na praia. E damos risada. E implicamos mais um com o outro. Hoje é saudável. Antes também era, mas confesso que só pra uma parte.

Já o usei como exemplo em várias ocasiões para contar histórias. Ruins, claro. Nada aconteceu comigo, tudo com o meu irmão. As vitórias são minhas, mas as derrotas eu mudo de nome. Poderia usar um amigo e começar sempre contando “eu tenho um amigo…”, mas prefiro dizer “uma vez aconteceu com o meu irmão…”. O melhor exemplo.

Falando nisso, uma das coisas mais bonitas que ele já me disse é que se espelha muito em mim. Me acha um cara correto, que deseja meu bem, mas que aprendeu muito com as cagadas que eu já fiz. Babaca, né? Me desarmei por dois segundos e o moleque não perdeu a chance de me sacanear. Tudo bem, eu também não perderia. Agora, que fique bem claro: só eu posso implicar, bater e xingá-lo, ok?

Falando sério: meu irmão é mais que isso. É um amigo.

Vou entender se você argumentar que existem amigos que se consideram irmãos, mas quando a relação sanguínea vem pronta, construir a amizade é tão difícil quanto entre duas pessoas que não são realmente nada uma da outra. É preciso confiança, parceria, admiração e amor.

Amor de irmão.

(Gustavo Lacombe)

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Prioridade de Mãe

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– Hoje não vai dar – respondi a mensagem.
– Que pena, queria você aqui – ela logo treplicou.

Olhei pro lado, vi minha avó na cadeira de balanço. Noventa anos e resistindo bravamente a todos que insistem em dizer que “deve descansar”. Morando com a minha mãe e dando um trabalho grande para ser cuidada, quando estou por aqui faço as vezes de babá tentando descobrir suas vontades e decifrar sua fala. É triste a velhice em determinada fase. Minha mãe apareceu, viu minha cara abatida e perguntou:

– Que houve, filho?

Expliquei. Expliquei que tinha pouco tempo até que ela embarcasse numa viagem de um mês pra longe e me deixasse aqui. Ainda que existisse a saudade e o querer continuar, ela já tinha optado por terminar e só ver o que acontecerá quando voltar. Plausível, eu sei, mas sentia que o tempo ia se esgotando. E estar longe dela é como se o tempo passasse duas vezes mais rápido.

O que você sente por ela?, minha mãe perguntou cirurgicamente. Olha, eu demorei pra responder mais porque organizava as coisas na minha cabeça  entre flashbacks de tudo que já tínhamos passado e o que ainda queria viver. Nada tinha a ver com escolher as palavras. Sou muito amigo da minha mãe e não tinha vergonha de falar na frente dela ou da minha avó (que mesmo não entendendo muita coisa parecia pescar aquela conversa).

– Eu gosto muito dela, mãe.
– E por que você não vai pra lá? Quem tá te segurando aqui?

Eu sabia que ela estava blefando.

Seria errado falar que ela sente ciúme. Como toda mãe, a minha também me superprotege. Como já disse, se sai muito bem no papel de amiga. Me incentiva, conversa e tenta sempre me mostrar que nunca é tarde. Dá suas palestras e monólogos também, mas gosto. E, aliás, não era tarde mesmo. Era por volta de oito da noite ainda. “Vai ficar com ela”, me disse. Alguma coisa coçou dentro de mim e arrumei minha mochila.

Foi quando eu me perguntei o que eu estava fazendo ali, tão longe dela e do melhor abraço do mundo. Foi quando, olhando ao meu redor, não enxerguei o que me completasse como ela e senti vontade de sair correndo, dirigir até a casa dela e derrubar a porta. Foi quando eu senti que o amor, ignorando qualquer tranca que eu tivesse colocado no meu coração, quebrou a vidraça e entrou pela janela.

Mas, mesmo em meio aquilo tudo, não fui.

Não fui porque, no segundo seguinte, minha avó tentou levantar sozinha e caiu no chão. Não fui porque, olhando todo o trabalho que a minha mãe tem com ela, seria injusto eu largá-la num dia que me propus a estar ali. Sei que poderia esperar até o dia seguinte pra ter aqueles beijos. Sei que, por mais triste que pudesse parecer ter aqueles momentos se acabando e eu só descobrindo que a amava de verdade agora, outra pessoa também precisava de mim.

Liguei:
– Amanhã ninguém vai me impedir de ficar contigo, mas hoje eu preciso ajudar minha mãe.
– Tudo bem, meu bem. Eu mesma já tinha dito que era melhor você ficar por aí, mas é que eu queria te ver.
– Eu sei. Olha, eu preciso dizer uma coisa…
– Fala.
– Eu te amo.

E o silêncio nunca foi tão ensurdecedor quanto naquele momento.

– Amanhã. Venha mesmo.

(Gustavo Lacombe)

Cuidem da sua Família

Família é foda.

Queria começar de outra forma, mas não há melhor forma de expressar o que ela é. E penso assim porque, no fundo, família é o lugar onde você aprende de tudo. Desde a sua formação e educação, passando pelos bons modos e valores que vão sendo construídos ao longo do crescimento, até uma verdadeira lição de como guardar rancores, problemas mal resolvidos e feridas que não cicatrizam. Toda família tem suas rusgas, seus desentendimentos.

Os almoços de domingo que nunca terminaram numa boa discussão são insossos.

Distância é um belo fator para manter a certeza de que, família, é algo primordial e a ser cultivado. Ninguém nunca sabe quando aquele primo vai poder te dar abrigo nas férias, né? Sem falar nas festas e dos convites que chegam no endereço sem que nem saibamos quem são aniversariantes, debutantes ou noivos. Aí, quando se encontra, é sempre aquela festa. Ainda não sei se é melhor ter todo mundo por perto ou não, mas os parentes do interior sempre rendem boas histórias.

Entretanto, tudo isso deteriora. Perto ou longe, as relações humanas, quando não bem tratadas, acabam perecendo. Quando se esquece alguém, pode-se ter esquecimento de volta. Ainda assim, família é sempre um lugar para se recomeçar. Sobre todas as coisas que são aprendidas com ela, como eu disse, o perdão também marca presença. No fim, somos um monte de gente diferente se amando de um jeito estranho, mas se amando. Se aturando as vezes, né?

Nada como manter aquilo de dizer “é família, né?”.

Cuidem da sua. Percam cinco minutos visitando um tio que mora do outro lado da cidade. Nem que seja uma vez por ano, ligue para quem mora longe. Passe uma tarde com a sua tia avó que nem sabe mais quem você é. Esteja presente, porque quem muito se ausenta, um dia deixa de fazer falta. Seja exemplo para outros primos, irmãos, tios. Sim, um hora essa coisa toda de família enche o saco e parece teatro, mas não é. Não é porque, se precisar, ela será a primeira a estender a mão.

Parece que isso diz pouco, mas não.
Família é foda, mas é família.

(Gustavo Lacombe)

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Saia Plissada

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Minha mãe sempre me dizia para tomar cuidado com os rapazes. O que ela nunca tinha me dito era que, no fundo, eles é que precisariam tomar mais cuidado ainda comigo.

Por isso a importância da saia plissada passada em cima da cama. Mamãe não contava que eu crescesse esses últimos três centímetros – que o médico disse – aos dezessete. Tarde para uma moça, ficava repetindo. Eu sei o porquê desse sentimento dentro dela, atacando com força. É que o azul marinho da saia agora não chegava mais perto do joelho, mas se aproximava do meio da coxa. São três centímetros só, eu ficava falando.

É como cortar o cabelo e ninguém reparar, mãe!

Não adiantava. Ela tinha cismado que era preciso comprar outras mais comportadas. Não!, dizia dentro de mim. Admito: aquilo seria meu trunfo. Já que Deus tinha me abençoado com um belo par de pernas, que elas tivessem livre acesso ao ar quente do Rio. Claro que um shortinho por baixo. Eu não sou uma das periguetes da turma B. Respeito é bom, combinado?

Entre outras coisas que a mamãe tinha me dito – e eu já tinha comprovado – era que a imaginação dos meninos era pior do que a realidade na cara deles. Então, nada como deixar que eles imaginassem o resto de mim. Um botão a mais aberto na camisa era suficiente. O tipo de blusa que usava por baixo também fazia diferença. Aliás, detalhes sempre fizeram e ainda fazem toda a diferença.

Nunca fiz pouco de outra menina. Assim como existem mais bonitas, tem as mais feias. Ninguém fala, mas é uma puta competição. E isso, sem dúvida, às vezes é uma grande merda. Agradeço todo dia por não precisar de tanta maquiagem pra me sentir bem, mas sempre tem aquela no colégio que acorda, nem toma café, e chega linda. Exemplo: a Mah Fraga.

Raiva.

Não quero o monopólio das atenções. Papai já faz isso muito bem e cresci com a convicção de que um cara dedicando até seu tempo longe pra mim é melhor que vários apenas me vendo passar. Agora, que é uma delícia se sentir valorizada, isso é. Saber que as cabeças estão tortas por sua causa. Que menina não gosta?

E aquela saia plissada passada em cima da cama era parte do jogo. Eu queria crescer só mais um centímetro. Só mais um.
Aí, ficava perfeito.

(Gustavo Lacombe)

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