Imagem

Bom Conselho

Tenho um ótimo conselho: pare de dar conselhos. Não se importe tanto em ser a voz da razão às pessoas. Diz pra mim qual a experiência de vida que você tem pra ficar apontando para os outros e dizer que “isso é errado” e “isso é certo”? Diz pra mim quantas vezes você já ouviu os seus próprios conselhos e conseguiu não quebrar a cara? Desculpa falar assim, mas se é pra seguir alguma voz, eu vou seguir sempre a do meu coração.

É porque eu canso de te ouvir dizendo para eu não criar expectativa. Já não aguento mais você me falando para eu ir com calma, para analisar as possibilidades e correr atrás do que eu quero. Não, às vezes tudo que eu mais desejo é gastar toda a minha vontade num gole só, aproveitar a chance que se ofereceu e ter um dia de preguiça pra não fazer nada. E, às vezes, eu penso diferente de tudo isso.

Eu mudo demais pra seguir os mesmos planos de sempre.

Não é que eu viva sem roteiro ou descaralhado por aí. Eu não ligo o foda-se pra tudo. Mas é que se for pra pedir ajuda a alguém e conversar esperando ouvir algum aviso, vou procurar meus pais, meus avós, meus tios. Alguém mais velho, mais experiente ou, então, que eu saiba que vai me acrescentar algo. Não você. Não a sua velha máquina de escrever manuais sobre como se comportar na sociedade moderna. Não as suas frases prontas.

É claro que posso te ouvir. Eu ainda não sou surdo. Só não quero que você venha me vendendo as suas ideias como se fossem regras básicas ou a palavra de uma Bíblia. Não quero monólogos intermináveis que torram o saco e enchem a paciência vindos de uma pessoa que ainda nem sabe direito a diferença entre os tantos sentimentos que existem. A vida é mais complicada do que fazer análises rasas sobre o que se passa dentro das pessoas.

E pessoas são bem mais complicadas do que parecem.

Juro que ainda consigo enxergar algo de bom nessa sua tentativa, mas pare de dar tantos conselhos. Quero que você se agarre a chance de dizer “eu não teria feito assim”, não a de esperar falar um “eu te avisei”. Quero a chance de te mandar à merda e dizer que fiz do jeito que eu queria. Até porque, no meu lugar, tenho certeza que você teria feito o mesmo. Os erros são meus e me reservo ao direito de cometê-los. Inclusive os que ainda não cometi.

Quer um bom conselho? Pare de dar conselhos. Vai vivendo. Sem amarras em discursos prontos, sem mágoas guardadas por outras pessoas e transmitidas como mandamentos do Universo, sem a hipocrisia do “faça o que eu digo, não o que eu faço”. Não fique brincando de fazer previsões ou de tentar acertar o que já aconteceu comigo. Resolve teus problemas por aí que eu me ajeito por aqui. E, se quiser aparecer, vem com um abraço.

Não com um conselho.

[ Gustavo Lacombe ]

Para ler mais:
http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos
Para me levar pra casa:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

Imagem

Gosto não se Discute

tumblr_lwtu73HXjY1r4cfp7Gosto não se discute.

No mínimo, se respeita. No máximo, se lamenta. E antes que você julgue alguém por um determinado comportamento, esteja preparado para ouvir o famoso “quem é você pra falar isso?”. Porque, muito além do que um padrão quadrado criado pela sociedade, o gosto é algo extremamente pessoal. Se o diferente lhe incomoda, problema seu. Se você não compreende como outra pessoa pode gostar de algo que não lhe agrada, também é problema seu. Se a sua opinião não foi pedida, não se preocupe dando-a.

Não confunda, no entanto, o que um monte de valores usados pelas pessoas de um maneira geral chama de belo ou de bom. Os conceitos vem sendo montados há décadas e, ao surgir o novo, é natural haver um movimento condenando ou taxando negativamente. O que nos vem mais facilmente a cabeça quando tratamos do assunto é beleza (lembrando o ditado “quem ama o feio, bonito lhe parece”) e música. Essas são duas seções de intermináveis discussões entre defensores de diversos estilos que culminam sempre na frase que abre esse texto: gosto não se discute.

Gostar de sertanejo, rock ou pagode não é defeito. Preferir uma mulher gorda ou um cara peludo também não. Os exemplos, claro, são intermináveis. As brincadeiras podem até ser saudáveis. Entre amigos, sempre há aquele com o gosto mais diverso. Há quem chame de exótico, de refinado e, por que não?, de estranho. E o que seria dos fetiches não fosse o gosto? Por mais que não se ache argumentos para reforçar a opinião acerca do gostar, o bom “porque sim” sempre pode ser usado.

Por que você gosta de poesia? Porque sim, ué.

A confusão só vai aumentar se incluirmos nisso o modo de falar, de agir, de vestir, ter ou não tatuagens, piercings e afins, ou se citarmos cinema, cerveja, literatura ou futebol. E essa é apenas a ponta do iceberg. Acredito que o problema, hoje, é que temos “especialistas” demais nas redes sociais. Somos todos phd’s da porra toda e doutores em crítica do caralho à quatro. Damos conselhos, dizemos qual caminho fulano tem que seguir para “se curar” de certos desvios de caráter que tem como base fundamental o gosto dele. Ah, vá à merda.

Agora, quando opinar sem ser chamado, é bom saber que sempre poderá vir voando – sem aviso algum logo após uma intromissão como essa – o melhor argumento e desfecho para qualquer discussão.

O bom e velho “Foda-se”.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

 

 

Imagem

Nem Certo, Nem Correto

1012417_548145781911687_1889880828_n

Isso não tá correto, eu digo.

Não mesmo, ela concorda.

Mas nem adianta. Cinco segundos depois as línguas se encontram as minhas mãos estão sendo preenchidas pelo pano da saia dela, pelo algodão da blusa e, volta e meia, pelos cabelos dela. Parece o balé de um polvo que tenta percorrer toda extensão de um corpo em pouquíssimo tempo. Aprendi isso com um amigo que dizia ser preciso ter “mãos espertas”. “Bobas” eram aquelas que se deixavam pegar paradas em algum lugar por muito tempo.

Eu gosto dela.

Gosto do que a presença dela faz comigo e de todas as outras sensações que vem junto. Ela fala que é química, eu curto a física e a gente vai fazendo a matemática de ser um mais um multiplicados por uma vontade em ebulição. Pra continuar no assunto, sinto um ímã nela que me chama. Mal sei como aguentei tanto tempo com essa reclamação em mim a pedindo toda vez que passava na rua dela. Ou só de lembrar mesmo.

E, sei lá, tem pessoas que não precisam de motivos para serem lembradas. Era e é assim com ela. Nem ao menos é o fato de terem sido esquecidas em algum momento, mas porque já fazem parte da rotina boa de completar os nossos dias com suas presenças. Ainda que essas presenças sejam apenas na nossa cabeça.

Errado. A palavra martelava na cabeça. Mal dava tempo da saliva arrefecer o ímpeto que a culpa já entrava com tudo. Por quê? Bom, digamos que nossos caminhos se cruzaram quando não deviam, mas as transgressões que praticávamos estão liberadas hoje. Ninguém deve nada, só que ainda pesa o histórico. A gente se confia, sim, pra realizar os desejos um do outro. Passar disso, não sei. Desde sempre foi assim. Meio torto, meio errado. Ainda assim, coerente.

A gente se gosta. Claro e certo.
Foda-se o correto.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos