Quando você era só um sonho

Quando você era só um sonho

Eu gostava quando você era só um sonho. Quando eu fechava os olhos e te via na minha frente. Pensava no que dizer, no que fazer. O que poderia te impressionar, te conquistar. No fundo, era usina de ideias para te trazer pra perto. Eu gostava. Curtia aquela coisa de te encontrar pelos corredores da vida e sentir o coração bater mais rápido, mais forte, como um soco no esterno que me forçava a aceitar: era paixão. Com o passar do tempo e as trocas de olhar com mais frequencia, algo mudou. A gente passou a se falar mais, eu passei a te mostrar tudo aquilo que guardava pra mim em pensamento. Você foi se deixando levar. Eu fui me deixado revelar. Quando os corpos pareciam ímãs e um beijo aconteceu, mais uma vez, algo mudou. Quando você era só um sonho, era diferente. Você lá, distante, longe, linda, impossível. Eu aqui, platônico, bobo, admirador. Agora, perto, tangível, palpável. Mudou. Eu gostava. Juro, gostava. Só que a vida me ensinou que tudo vindo antes de um “mas” pode ser cortado fora.

Então, deixa eu te dizer:

Eu gostava quando você era só um sonho, mas prefiro agora que é realidade na minha vida.

( Gustavo Lacombe )

Ficou em Mim Alguma Coisa Tua

Ficou em mim alguma coisa tua
Não sei se ruim, nem sei se boa
Sei que se ainda sorrio
Não pode ter sido à tôa

Ficou alguma coisa gravada, sim
Não sei memória, nem se déja vu
Sei que se ainda sonho
Falta uma parte aqui

Ficou, percebo na rua
Todos os rostos a olhar
E apontar minha direção

Ficou, me jogando a culpa
De ter levado alguma coisa tua
Talvez seu coração

Fechou o Tempo.

Fechou o tempo. Nuvens vermelhas carregadas de coraçõeszinhos se aproximam da sua vida e, no trajeto pra casa, você tem certeza que vai procurar as marquises dos prédios e os toldos das lojas e estabelecimentos que te ofereçam segurança para realizar todo o percurso sem se molhar. O guarda-chuva na bolsa, pronto para água, sabe que não vai poder fazer muita coisa se um daqueles artefatos atingi-lo. Será queda na certa, rumo a um caminho já conhecido e, por isso, bastante temido por todos que se vêem na iminência de se banharem com as gostas do amor.

Encostada com a cabeça na janela, a preocupação escorre junto com um pingo que o vento trouxe. Você suspira aliviada. Era só um ar-condicionado. Volta suas atenções para o trabalho, mas não consegue encontrar concentração. O celular vibra, distrai e carrega ainda mais o nebuloso céu lá fora. Já já começam os trovões. Por quê, meu Deus?, você se pergunta. Por que logo agora que a vida com S de solteira estava tão gostosa, uma tempestade dessa se arma sobre a minha cabeça? Não entenda. Nem culpe ninguém. Você ainda deu sorte de perceber que está nessa situação. Pior quem é pego de surpresa e, quando vê, está empapado disso.

Alguém passa por perto, te dá um tapinha nas costas e pergunta se está na Lua. Imagina, você responde. Na Lua não, mas em outro endereço que não aquele. Fato. A cada piscar de olhos você refaz o caminho até onde a chuva já cai torrencial. Consulta a meteorologia e lá diz 100% de chance de se apaixonar. Não vai ter jeito, você pensa. O corpo, já tão acostumado a se negar alguns pedidos como esse, tenta de novo resistir. Logo agora, repete. Não ter compromisso, hora ou dar explicações estava tão bom, tão confortável. Vão me tirar da zona de conforto por causa de um beijo bem dado, uma mão que sabe apertar e uma pessoa que sabe o que fazer pra mexer comigo? Só por causa disso? Sorte sua ele te saber fazer sorrir. Tem vezes que nos pegamos gostando de alguém que nem ao menos sabe da nossa existência. Você está no lucro.

Seis horas. O chefe pergunta se a saída se aproxima e, com certo desânimo, diz que sim. O pior não é estar nessa situação de novo. O que incomoda é ter passado por tanta coisa e agora ter que conviver com os fantasmas do passado que não deu certo. São só velhas teias num coração que não queria admitir que ainda era possível sentir algo assim. Recolhe as coisas, joga na bolsa, segura a chave de casa e dá uma última olhada para ver se acha um guarda-chuva perdido por ali. O céu não anunciava tamanho dilúvio para aquele horário. Quem está na chuva, definitivamente, é pra se molhar.

O primeiro pingo a bater não fez tanto efeito. Então era só isso? Andou sem pressa. Ao sair do prédio achava que teria que sair correndo. Besteira. Nem se preocupou quando viu que não tinha perigo. O pior mesmo era se apertasse. E não tardou. No meio do caminho, um sms e um trovão tocaram ao mesmo tempo. Pegou o celular e já sabia o que aconteceria. Leu a mensagem, ficou sabendo da saudade que batia do lado de lá e, de uma vez sentiu o corpo inteiro se afogar. Não havia volta, só direção rumo a trilha que não pensava em seguir tão cedo.

Só que não tem isso de querer prever. Se apaixonar é não ter tempo, e nem ao menos saber. É ser pego de surpresa mesmo, sem guarda-chuva, capa ou um casaquinho para pôr na cabeça. E vem reto, direto, certo. Entraria pela casa fazendo bagunça, deixando tudo espalhado depois da confusão na rua, mas não tinha como. Era a paixão que entrava na vida. Chuva sem guarida.

( Gustavo Lacombe )

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