Um Fim Sincero É Melhor Que Ter Uma Sacanagem de Pretexto

“Eu gosto de você, mas não posso ser o que você quer agora”. Talvez essa seja uma das desculpas esfarrapadas mais sinceras que eu conheço. A pessoa sai algumas vezes contigo, demonstra um tipo de querer mais profundo, mas uma hora se vai. Você, que já criava aquela expectativa de de poder se render e se jogar, fica com a mala semi-pronta e o coração na mão. Mas é bom, sabia? É bem melhor ver alguém pular do barco num momento precoce que ver alguém desistindo de algo maior. Sei que batemos muito na tecla do Amor, mas estamos querendo-o a qualquer custo. De qualquer maneira. Estamos colocando num lugar especial quem não deveria nem ser cogitado lá. E a culpa é de alguém? Não acredito em “culpa”, se é que você me entende. Se relacionar, amar, se entregar, saber se é a hora ou não, tudo isso é de um jogo social que demora até aprendermos a praticar. E não tô falando que precisamos saber momentos exatos de enviar mensagens, fazer “joguinhos”, fingir-se de morto ou fazer falta. Tô falando que na experiência empírica do Amor é difícil mesmo começar a compreender os sinais de que alguém não está tão a fim assim de você ou se é algo mais que uma paixonite. Quando se trata de algo já construído e que os dois veem como uma relação certa, sou sempre o primeiro a reforçar a necessidade da preservação e do bom funcionamento para ambos. Só que, sendo alguma coisa rasa, que um dos dois decidiu abrir mão por saber que só iria haver machucados e sabendo que não queria estar mais ali, o fim talvez seja uma das coisas mais incríveis que alguém pode dar. Um fim sincero, justo e sem muito drama. Sem uma sacanagem para servir de pretexto. Um ponto final que, quase sempre, nos dá a chance de começar outra história.

[ Gustavo Lacombe ]

 

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Muitos Tons de Roxo

Eu gosto que me batam. Batam, não… Eu gosto de apanhar. E talvez seja difícil explicar pra um cara que de alguma forma quer me tratar bem que esse “bem” passa por uns belos tapas, uns puxões de cabelo e até mesmo uns xingamentos. Ele acha que pode me machucar, que pode me deixar roxa, que eu posso de certa forma ficar puta e pedir pra parar.

Acho fofo isso.

Acho realmente bem bonitinha essa preocupação, mas se eu te disser “bate” é pra espalmar a mão e deixar marcado os cinco dedos em mim. Não tô pedindo um soco, poxa. Não é briga, não pra me apagar. Não sou um coleguinha do recreio que você brigou por causa de merenda ou um sujeito que te desrespeitou na rua e você quer quebrar a cara dele.

Sou uma mulher que gosta, sim, de apanhar na cama. Ou em pé. Ou sentada no colo do cara numa cadeira da sala. Não tem muito lugar exato pro ato, mas eu tenho minhas preferências na hora da “porrada”. Gosto, inclusive, quando ele começa batendo devagar, instigando e provocando. Vai quase que amaciando a carne até que desfere um só.

E aquele som ecoa pelo quarto. Pá!

Depois que o outro entende, então, a receita está criada. E aí, posso admitir que vou curtindo as mais diferentes variações dessa pegada forte que eu acho necessário que todo cara tenha. Gosto que afunde o dedo no meu quadril, me pegue de jeito, enlace a mão na base da minha nuca e me puxe pra perto, gosto de metida com força. Ficar dolorida acaba fazendo parte.

Lembro um dia que estava andando só de calcinha e sutiã pela casa e minha mãe viu o estado da perna e da bunda. Arregalou os olhos, me chamou imediatamente e perguntou:

“Minha filha, você foi espancada?”

“Mãe, espero que a senhora já tenha sido espancada desse jeito algum dia na sua vida”, respondi, tentando brincar. Ela não riu.

“Me respeita, garota”

Eu acabei rindo, mas corri no quarto pra botar uma roupa. Ela ficou uns dois dias me olhando de um jeito estranho. Até que, estando só nós duas em casa, ela soltou:

“Eu gosto muito também”
“De quê?”, não tinha entendido.
“De uns bons tapas”, ela disse – quase como se fosse pecado. Sempre tentei manter relações sinceras.

Acho que indicar essas preferências acaba fazendo parte disso quando se gosta de alguém. No caso da minha amizade com a minha mãe, falar de sexo deixou de ser tabu quando eu arrumei meu primeiro namorado e ela morria de medo que eu engravidasse. Eu precisava ser firme caso o garoto resolvesse não usar camisinha.

Só não me pergunte de onde veio esse tesão pelos tapas. Lembro da primeira vez que me olhei no espelho e pensei “caralho, isso vai car roxo”. Fica, mas antes é vermelho, depois fica verdinho, amarelo. Longe de ser uma violência, mas é um tempero que – me desculpem as mulheres que não gostam, faz uma boa diferença. E, convenhamos, quando é consensual e bem conversado, vale quase tudo entre as quatro paredes.

“Quatro paredes”, entre aspas por favor.

O mais interessante nisso tudo é que, no meu caso, com o passar do tempo e o ganho de intimidade, mais porrada eu gosto de levar. Vou ficar usando “porrada” que é pra você entender que eu tô falando do conjunto, ok? Acredito até que essa coisa gostosa da dor tenha um limite. Não sou masoquista, por exemplo.

Talvez a linha seja tênue, mas se é necessário ter o mínimo de confiança pra tirar a roupa, não é qualquer cara que vai conhecer esse meu lado mais safada. Existem nuances da nossa personalidade que precisam ficar quietinhos, sendo despertados pelas pessoas certas e mostrados nas melhores horas. Acabamos sempre voltando ao “tudo tem limite”.

Ainda assim, admito que gosto de, no dia seguinte, me olhar no espelho e ir encontrando as marquinhas. Um dedo na costela, um roxinho na perna, outro no bumbum e recordar como a transa foi boa. Muitos tons de roxo pra contar sobre um dos melhores jeitos de dizer “eu te quero”.

Pá.

[ Gustavo Lacombe ]

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Ficou em Mim Alguma Coisa Tua

Ficou em mim alguma coisa tua
Não sei se ruim, nem sei se boa
Sei que se ainda sorrio
Não pode ter sido à tôa

Ficou alguma coisa gravada, sim
Não sei memória, nem se déja vu
Sei que se ainda sonho
Falta uma parte aqui

Ficou, percebo na rua
Todos os rostos a olhar
E apontar minha direção

Ficou, me jogando a culpa
De ter levado alguma coisa tua
Talvez seu coração

Mais Velho Novo Anjo

O fim pode ser apenas a metade do caminho. Pode ser uma hora em que se fica sozinho, por alguns minutos – aguenta – que vão valer a espera. Pode ser belo, se acompanhado de alguma esperança que o próximo começo é bom. Depende de como você enxerga. E se ainda respira, ainda pensa. Assim é comigo. O ar que embaça as lentes num dia frio é o mesmo que dentro de mim traz seu cheiro, numa mentira de me fazer acreditar que o seu perfume está perto. É só alguém que roubou o vidro e me engana. Tua palavra que ainda ressoa, tua história que ainda é junta, minha luta que ainda sua e a ausência. Vai entender o porquê de eu ainda lembrar… Deve ser o que eu não admitia, mas enquanto houver você do outro lado, eu me oriento. Nem que seja para ficar longe. Nem que seja para ainda deixar de acreditar que mexe.

Ridículo.

A fé que eu depositei em mim foi suficiente. Tanto é que tive resposta pra tudo que perguntei. O problema foram as que vieram à reboque. E ainda respiro. O dia me mente que passou. Passou nada. Já é o próximo, mas a dor é a de ontem. A de agora. A dor que passa, mas ainda vai incomodar. Dorme, criança. Vai ser melhor. Tua sinceridade fez escola em mim – e um rombo na alma também. Tão mais fácil pular as partes chatas do livro, da vida, do filme, né? Ficar com o que é bom e não gasta muito da gente. Nem exige. Ainda respiro. A cena repete. Levanto, café, vou, pisco, janta, cama. A cena inverte. Cama, café, levanto, janta, pisco, vou. E a razão de ser alguém está tão longe. E me lembro de você. Ainda. Sem querer, querendo, podendo, morrendo, mordendo, sendo, roendo, vivendo. Mas não era o fim? Por que ainda tem tanto da gente aqui? Era brincadeirinha. É só uma etapa do processo.

Ridículo.

Novo anjo da minha vida, mas que parece me conhecer há tanto tempo. Só enquanto souber respirar vou lembrar do que é pra mim. Você é tudo isso. Sem mais. Sem menos. Exatamente a poesia. Exatamente a força. Exatamente enquanto eu respirar.

( Gustavo Lacombe )

Fechou o Tempo.

Fechou o tempo. Nuvens vermelhas carregadas de coraçõeszinhos se aproximam da sua vida e, no trajeto pra casa, você tem certeza que vai procurar as marquises dos prédios e os toldos das lojas e estabelecimentos que te ofereçam segurança para realizar todo o percurso sem se molhar. O guarda-chuva na bolsa, pronto para água, sabe que não vai poder fazer muita coisa se um daqueles artefatos atingi-lo. Será queda na certa, rumo a um caminho já conhecido e, por isso, bastante temido por todos que se vêem na iminência de se banharem com as gostas do amor.

Encostada com a cabeça na janela, a preocupação escorre junto com um pingo que o vento trouxe. Você suspira aliviada. Era só um ar-condicionado. Volta suas atenções para o trabalho, mas não consegue encontrar concentração. O celular vibra, distrai e carrega ainda mais o nebuloso céu lá fora. Já já começam os trovões. Por quê, meu Deus?, você se pergunta. Por que logo agora que a vida com S de solteira estava tão gostosa, uma tempestade dessa se arma sobre a minha cabeça? Não entenda. Nem culpe ninguém. Você ainda deu sorte de perceber que está nessa situação. Pior quem é pego de surpresa e, quando vê, está empapado disso.

Alguém passa por perto, te dá um tapinha nas costas e pergunta se está na Lua. Imagina, você responde. Na Lua não, mas em outro endereço que não aquele. Fato. A cada piscar de olhos você refaz o caminho até onde a chuva já cai torrencial. Consulta a meteorologia e lá diz 100% de chance de se apaixonar. Não vai ter jeito, você pensa. O corpo, já tão acostumado a se negar alguns pedidos como esse, tenta de novo resistir. Logo agora, repete. Não ter compromisso, hora ou dar explicações estava tão bom, tão confortável. Vão me tirar da zona de conforto por causa de um beijo bem dado, uma mão que sabe apertar e uma pessoa que sabe o que fazer pra mexer comigo? Só por causa disso? Sorte sua ele te saber fazer sorrir. Tem vezes que nos pegamos gostando de alguém que nem ao menos sabe da nossa existência. Você está no lucro.

Seis horas. O chefe pergunta se a saída se aproxima e, com certo desânimo, diz que sim. O pior não é estar nessa situação de novo. O que incomoda é ter passado por tanta coisa e agora ter que conviver com os fantasmas do passado que não deu certo. São só velhas teias num coração que não queria admitir que ainda era possível sentir algo assim. Recolhe as coisas, joga na bolsa, segura a chave de casa e dá uma última olhada para ver se acha um guarda-chuva perdido por ali. O céu não anunciava tamanho dilúvio para aquele horário. Quem está na chuva, definitivamente, é pra se molhar.

O primeiro pingo a bater não fez tanto efeito. Então era só isso? Andou sem pressa. Ao sair do prédio achava que teria que sair correndo. Besteira. Nem se preocupou quando viu que não tinha perigo. O pior mesmo era se apertasse. E não tardou. No meio do caminho, um sms e um trovão tocaram ao mesmo tempo. Pegou o celular e já sabia o que aconteceria. Leu a mensagem, ficou sabendo da saudade que batia do lado de lá e, de uma vez sentiu o corpo inteiro se afogar. Não havia volta, só direção rumo a trilha que não pensava em seguir tão cedo.

Só que não tem isso de querer prever. Se apaixonar é não ter tempo, e nem ao menos saber. É ser pego de surpresa mesmo, sem guarda-chuva, capa ou um casaquinho para pôr na cabeça. E vem reto, direto, certo. Entraria pela casa fazendo bagunça, deixando tudo espalhado depois da confusão na rua, mas não tinha como. Era a paixão que entrava na vida. Chuva sem guarida.

( Gustavo Lacombe )

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Da varanda eu p…

Da varanda eu posso ver a rua. Fecho a cortina para que aqui dentro fiquemos a sós. Não queremos ninguém vigiando. Mais duas portas cerradas e agora somos, literalmente, dois amantes entre quatro paredes. Debaixo da coberta, você faz charminho pra mim. Logo se vira, encara meu rosto e me beija. Mal sabe o que eu passei pra tê-lo. Para tê-la. Só começando nosso dia, mas a recompensa já me chega. É a tua boca na minha, minha pele na tua. É a vontade, nua e escancarada, que o amor nos faz vestir. Sabe-se lá que horas acaba – a gente não marca -, mas começou faz tempo. Num sonho perdido ou numa dessas madrugadas, eu já imaginava a cena, já planejava invadir o teu mundo e não sair por mais nada.

(G. Lacombe)

Modo de escrita

Sento em frente ao computador e vomito uma idéia. Eu gosto dessas assim, que saem inteiras de mim e nem ao menos pedem passagem pelo filtro das palavras. São essas aí mesmo, bonitas ou frias, cruas ou com erros, mas que preenchem o papel na melhor forma possível, com peso e vontade.

Difere da vida. Vivida de uma vez, como um poema que já tem todos os versos escritos no pensamento e apenas são transcritos para o papel, perde-se o gostinho de aproveitar cada momento dela. E pode achar estranho eu fazer minha caminhada com palavras que gosto de soltar sem medo, mas viver sem o mesmo acelerador.

Não é medo de arriscar, que fique claro.

De um modo geral, fico ansioso quando escrevo. Se tenho uma boa sacada, fico com receio de ter sido a última. Então, a agarro e vorazmente me aproveito dela. Calma, diria minha professora de literatura. Existem textos que pedem para serem jogados na gaveta.

Esquecidos? Talvez.
Frutos muito verdes precisam de maturação.

E que não me julguem. Eu adoro uma contradição. Tanto que, posso citar algumas coisas que escrevi e que só melhoraram depois de um segundo olhar, um tempo para crescerem e serem mais do que uma tinta jogada na tela à la Pollock. Porém, é divertido parir um escrito de vez. Os deslizes no português são a prova de que estava empolgado.
Do tanto de tesão que estava em fazê-lo.

Quando me empolgo na vida, acabo comentendo alguns errinhos assim também. E quem não comete equívocos por falta de atenção decorrente de uma excitação? Você não? Que sem graça.

Erra, cara! Aquele pequeno, perdoável, como um ‘s’ esquecido no plural de uma palavra grande em que se culpa o teclado. Ou uma palavra esquecida, mas que não compremete o entendimento. A vida é errar e aprender. Com desejo, claro, de sempre poder ter mais.

Teu melhor texto é tua própria história. Aí, sim, não a escreva de vez.
Estranho conselho se comparado ao que eu disse sobre meu modo de escrita, né? Eu te disse, sou contraditório.

Não ligue. Nem tudo na vida precisa ter tanto sentido assim.

( Gustavo Lacombe )