Ser Gostosa Vai Além do Espelho

Tem dias que ela se sente. Literalmente. Coloca uma roupa mais colada e vai pra night sabendo que está gostosa. Sim, que “está”. Na cabeça dela, ser gostosa ou não é uma questão de dia da semana. É questão de se sentir bem com si mesma. Ela não é do tipo fresca e insegura, mas também não é daquelas que não tem crises. Tem dias ruins às vezes e sabe que toda mulher que se preze os tem.

Aliás, já enfrentou vários dias em que nada servia, que as blusas favoritas marcavam a barriga, que aqueles dois quilos a perder se transformavam em vinte e o quadril parecia enorme. Dias em que tudo parecia dar errado: espinhas brotavam em profusão e ninguém olhava pra ela. Como se fosse um patinho feio.

Quase quebrou o espelho numa dessas vezes.

Nos momentos mais exagerados e de sentimentos aflorados, ainda se deita na cama pra vestir uma calça que entraria mesmo se estivesse de cabeça pra baixo. Ah, e nem pense em lhe desejar um ‘bom dia’. Ela já pensou em botar silicone (e acabou botando), em fazer uma Lipo (e acabou não fazendo), em ter aula quinze vezes na semana com personal (chegou a 10), cortar carboidratos, virar vegetariana (mas adora um bom bife), e até a nunca mais comer chocolate (impossível!).

Ela teve de tentar de tudo um pouco até aprender que esses rompantes nunca passariam. Era dela. E que, na verdade, era preciso primeiro gostar de si mesma, se aceitar. Depois de uma viagem por Barcelona, passou a pensar em si como a Igreja da Sagrada Família: uma obra de arte linda, mas que sempre estaria em permanente construção. Nesse meio tempo, tentou yoga, Pilates, terapia e até aquelas mandalas para colorir.

Tentou ocupar a cabeça e se descobrir entre posições de flor de lótus e canetinhas variadas. Se achou na corrida e nunca mais parou.

Hoje sabe que, nos dias de TPM, vai se sentir horrorosa. Nos outros, pode se sentir a mulher mais deliciosa do planeta com apenas um elogio vindo de quem ama. Brinca dizendo que é complicada, como toda mulher, mas sabe que a beleza está além do espelho e do batom vermelho. Qual seria a graça em ser simples demais?

E não a tente decifrar, ela sempre te engole primeiro.

[ Gustavo Lacombe ]

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Sonhos, Devaneios e Afins

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Em alguns sonhos eu sou teu espelho.
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Acabo te dizendo algumas verdades que você julga inconvenientes. Não, nunca disse que era gorda nesses devaneios que tive – mesmo você falando pra quem quiser ouvir que precisa emagrecer. Eu apenas fico repetindo, olhando pras suas curvas, pros seus peitos e parando nos seus olhos: como você é gostosa. Quantas vezes te vi ficar vermelha, pegar uma blusa no chão e se esconder logo.
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Pra quê? Já te conheço inteira.
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Me atento, também, noutras curvas. Teu sorriso sempre tira o foco de qualquer outra coisa ao redor. E, saiba você, fui diversas dessas outras coisas nas minhas loucuras. Não é nessas horas que a imaginação é o limite? Não é nessas horas que eu posso escolher o que quero ser, como quero vir, o que quero deixar, o prazer que quero e me proponho a entregar? Não é nessas horas que posso ser qualquer coisa que te cerca?
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Confesso, já delirei o suficiente contigo para ser o batom e ficar o dia inteiro sentindo teu gosto. Fui perfume, grudado ao pescoço e deitado em teu colo, fixado na pele da qual não teimaria em sair. Fui um arrepio. E, mesmo percorrendo tuas costas rapidamente num dia frio, durei tempo suficiente pra você querer de novo. Inclusive, sonhei em ser chuva.
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E te tomei o corpo inteiro.
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Nesses desejos de ser muita coisa, acabo sempre acordando sendo apenas eu. Revejo um retrato, relembro algum fato e, me dou conta, preciso ser apenas isso mesmo. Um homem pra você. O homem. Que ainda anseia pelo gosto, pelo pescoço e pelo arrepio. Que ainda te acha tudo isso – e gostosa é pouco. Que ainda viaja no seu sorriso. Que sonha em ser muita coisa.
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Todas elas contigo.
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[ Gustavo Lacombe ]
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@glacombetextos