Imagem

Queria Te Arrancar de Mim

Queria te arrancar de mim. Martelar o coração até que esse amor escorresse ou ele se convencesse de o jogar fora. Não é possível que ele ainda não percebeu o mal que faz a si mesmo te mantendo aqui dentro. Hey, Idiota!, dá vontade de dizer, qual é o preço que a gente paga enquanto você se desespera e se agarra a algo que não existe mais? Me diz, Idiota!? Coração burro. E nisso a vida vai passando e as oportunidades de ser feliz vão junto. Não consigo segurar nenhuma, apenas vejo tudo se esvair como areia entre os dedos. Mas, aqui no peito, coração bate o queixo no frio da solidão e se ancora a uma foto nossa antiga. Se ri, parecendo louco. Teimoso já é elogio. Se eu pudesse, apagava o que sinto hoje e acordava amanhã contigo sendo apenas uma lembrança distante. Não te apagaria por completo, claro. Inegavelmente vivemos coisas boas, mas não soube reconhecer o fato de que acabou. Acabou pra você e, talvez, esse seja o pior dos problemas. Tudo isso porque meu coração insiste. Feito uma criança que cola o bichinho de pelúcia no peito, ele se comprime ao teu olhar já desbotado na memória e rejeita qualquer tentativa de desapego. Fica repetindo baixinho teu nome, e eu já nem sei o que fazer. Te tiraria de mim e jogaria fora, te esqueceria e seguiria, como você mesmo seguiu. Mas não consigo. Foda-se. Desisto. Esse amor é muito mais forte que eu.

[ Gustavo Lacombe ]

Imagem

Quem Não Quer Sou Eu

Eu não tenho vontade nenhuma de voltar contigo.

Agora, então, que você me aparece com essa cara de choro e falando tudo aquilo que eu queria ouvir – agora mesmo é que eu não quero. Fiquei esperando, por muito muito muito tempo mesmo, que você viesse aqui e me fizesse mais uma vez de boba. Prometesse, jurasse, esperneasse e colocasse em prática todo o seu teatro de me dissuadir e fazer me entregar novamente.

Fiquei alugando o ouvido de conhecidos amigos e despejando tudo que sentia, pedindo opiniões e gastando minhas suposições para cogitar que você, talvez, pudesse estar sentindo falta de mim. Falta do que a gente tinha. Esperei pela pedrinha na janela, a mensagem bêbado de madrugada, a ligação pela manhã, as flores manjadas de desculpas, a surpresa no meio da tarde no meu trabalho.

Mas, aí, eu cansei de esperar.

A internet passou a  me contar aos poucos que você ia seguindo a sua vida. Eu ia me decepcionando com algumas de suas atitudes, me surpreendendo com outras, mas fui vendo que, sim, tinha sido muito melhor você ir embora. A Vida tinha me livrado de você, certamente.

Então, não vou esconder o choque da surpresa por te ver aqui e a indiferença da previsibilidade de que você faria tudo isso. De novo. Eu podia ter apostado que não perderia. Sempre tive a certeza que mais cedo ou mais tarde você estaria aqui nessa posição. Mendigando, pedindo, implorando e recebendo toda a minha pena de volta.

Só que, antes, eu esperava isso de uma forma tola, porque te queria. Hoje, esperava justamente por saber que sua encenação teria de voltar aqui. O ato final, lógico. Eu não volto pra você porque você teve todas as chances e preferiu usá-las de outras formas que não me fazendo feliz. Não adianta querer fazer agora.

Agora, quem não quer sou eu

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser adquirido aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

Imagem

E Não foi Só por Amor

4158575044_5120dc6059

Eu voltei. E não foi só por amor. 

 
 Quando voltamos a nos ver, tudo parecia diferente. Quer dizer, parecia que em diversos aspectos tínhamos voltado à estaca zero e estávamos nos conhecendo de novo. O que era uma grande bobagem, se você pensar direito. E o que é uma verdade maior ainda, se você pensar melhor. 
 
Voltar era como se estivéssemos entrando numa casa em que já tínhamos morado, mas com a certeza de que algumas coisas não estariam no mesmo lugar. É claro que, sem uma reforma, os cômodos ainda seriam os mesmos. Talvez a decoração é que já poderia ter mudado. Enfim, a sensação era de conhecer aquilo tudo e ao mesmo tempo esperar para ser surpreendido. E estar ali já era uma surpresa. 
 
Foi preciso aceitar muita coisa. Primeiro, eu carregava uma certeza de que a vida tinha seguido de algum modo do lado de lá. Então, quem veio nesse meio tempo não poderia importar. Se batesse o ciúme, o argumento “você não estava comigo” seria sempre válido. E, claro, você não quer ser cobrado pelo o que fez nem ficar dando detalhes da vida que levava longe. 
 
Sabia que passamos até pela fase da conquista novamente? 
 
A volta, por mais rápida que seja, é feita com a recuperação da confiança, com o restabelecimento das certezas de que o outro é, sim, quem você quer. Aquela coisa de cortejar, mandar flores (sem ser por desculpas), paparicar, sentir frio na barriga por causa do beijo. Tudo reapareceu. 
 
Demos sorte, admito. 
 
 Tivemos, principalmente, que ser francos em relação ao que queríamos. Não poderia mais haver enrolação. Quando disse que não voltei só por amor foi porque apenas esse sentimento não bastava. Existe mais no meio como carinho, respeito, dedicação. E, também, foi preciso entender que nem tudo se ajeita de uma hora pra outra. 
 
Eu queria ser o porto seguro. Queria fazer bem, fazer sorrir. Queria, principalmente, me libertar do que tínhamos sido. Não adiantaria remoer os erros passados. Vida nova, esse era o lema. E eu vi verdade do lado de lá. Voltei, mesmo com amigos, parentes e outras pessoas dizendo que era “perda de tempo”. Voltei, mesmo com tanta gente interessante que eu conheci e poderia ter me feito seguir um outro caminho. Voltei, mesmo sabendo do esforço que seria recomeçar. 
 
 Voltei, e não foi só por amor. 
 
 (Gustavo Lacombe)
Imagem

Vestida de Noiva

tumblr_lf7ub1FKaY1qg3h5io1_500

Acordei no susto. Bati a mão do lado esquerdo da cama.

Ninguém.

O coração acelerado e a incerteza do que era realidade ou sonho se confundiam. “Cadê ela? Cadê ela?”. Não adiantaria procurar ali, nem pela casa. Ter apenas a convicção de que ela estava dentro de mim não bastava. Ao contrário, era o suficiente pra apertar ainda mais o peito e levantar num sobressalto, levar as mãos à cabeça e pensar:

– Puta que pariu, o que tô fazendo!?

Já tinha se passado algum tempo. Não quero ter a precisão dos dias, mas tempo o bastante para que pesadelos como aquele estivessem se concretizando. Busquei o telefone na agenda, nada. Procurei algum amigo, algum contato que fosse o seguro bastante para fazer uma ligação e ter informações. Ninguém me encheu os olhos.

Não consegui comer nada. “A ficha caiu”, diria minha avó. Sim, caiu. Foi necessário todo aquele tempo, mas, principalmente, aquela merda de pesadelo pra eu ter a real noção da besteira que estava fazendo. Sem ter para onde correr, voltei à cama e me sentei à espera de uma luz. Ou um milagre.

Até que lembrei. Lembrei que, perdido em um dos bilhetes que eu recebi na época do término, a mãe dela tinha anotado o próprio celular com a mensagem “se precisar de qualquer coisa, me liga”.

Era a única chance.

Dois toques e a voz conhecida da ex-sogra diz “alô”:

– Dona Maria, eu não tenho muito pra conversar e espero que a senhora esteja bem. Me perdoa o nervosismo e a grosseria por sair atropelando tudo desse jeito. É que hoje eu tive um pesadelo. Estava na platéia vendo uma moça se casar e só vi o rosto dela quando o noivo levantou o véu. E era a sua filha e não era eu no altar. E, quando eu tentei gritar qualquer coisa pra interromper aquilo tudo, um convidado ao meu lado disse que eu não tinha direito nenhum agora. Que enquanto eu podia fazer alguma coisa, eu não fiz. Acordei assustado e com o coração na boca…

– Filho, calma… Ainda bem que você ligou.

Ela trazia uma luz. Ou um milagre.

[continua…]

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

Imagem

Escada do Tempo

4978937

Nossa escada já está um tanto desgastada pelo tempo. Olhei pra ela hoje com um misto de nostalgia e paixão, e meu primeiro movimento foi logo em sua direção. Sentei, pude ver nossos nomes gravados no quarto degrau – junto com o coração que fiz com a chave da sua casa. Era uma manhã como aquela em que nos conhecemos.

Estranho estar ali de novo. As árvores talvez fossem as mesmas, mas o entorno, a vista, muita coisa já tinha se modificado. Dali podíamos ver algumas outras casas mais baixas, a rua principal da cidade e podíamos sentir uma brisa tocar nossos rostos meio que agradecendo por pararmos um pouco com a agitação e descansar naquela escada.

Lembra como ela parecia grande no começo? Nossa! A venci hoje com um mínimo de esforço e ri. Nós éramos tão jovens, mas crescemos tanto um com o outro. Não se via aqueles prédios, eu lembro. Não se tinha aquela barulheira dos carros passando, os sons no último volume. Ainda dava para ouvir um violão ao longe. E eu que tantas vezes levei o meu para aquele degrau e te cantei minhas músicas – as suas preferidas.

Uma nota e eu já podia ver seu sorriso se abrindo do meu lado.

Ah! Dois degraus acima eu vi os nomes de meu irmão e sua antiga namorada. Divertido encontrar pedaços do passado pela cidade. Pude ver outras dezenas de nomes, todos enfeitados com corações, flechas e “para sempres”. Como éramos bobos. E apaixonados. Bobos apaixonados. Éramos felizes! Fui ao restaurante onde jantamos com seus pais e quase pude sentir o nervosismo daquele dia. Fui a outros lugares também.

Sabe, meu amor, não tem sido fácil desde que você se foi. Mas se existe uma coisa que me faz continuar a querer viver sempre mais, essa coisa é a lembrança da sua vontade de viver. A alegria com que você agradecia por mais um dia. Poder acordar e ver a família que construímos. E eu estou aqui até hoje por sua causa, pela sua força. Mas, olha, com certeza a gente ainda vai se ver de novo.

Enquanto não chego aí, deixa eu olhar mais pra essa escada que já teve tanto da gente ali. E eu vou me virando com essa saudade por aqui.

Sempre seu,

Amor.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

Obs.: Preparem-se. Em Abril tem lançamento. 😉

Imagem

Não Gaste Vida Com Briga

tumblr_m1pqux6Tlk1qj669do1_500

Eu não quero perder tempo.

Não quero gastar nossos momentos ficando de mal contigo. Errou, reconheceu, pronto. Faça-se as pazes, peça-se as desculpas e vamos em frente. Erros? A gente rabisca amor por cima e segue nossa vida. O que não admito é deitar na cama e sentir a cabeça latejar porque em algum momento não resolvemos nossas pendências e fomos dormir brigados.

Eu odeio dormir brigado com você.

Há quem ache estranho. Cinco minutos depois de caras feias e algumas palavras mais pesadas, já estamos conversando ao pé do ouvido e fazendo as pazes. Ora, eles que fiquem remoendo suas picuinhas. Se não entendem o que se passa aqui dentro, que nem ao menos tentem descobrir. Nossa relação é meio maluca, sim, mas é nossa. Minha, sua e de mais ninguém.

Vamos combinar? Já passamos da idade de fazer bico e deixar que algo pequeno entre no meio e atrapalhe. Por mais que a gente se sinta atingido por coisas bobas e faça outras idiotices sabendo que o outro pode ficar incomodado, aqui o que é ruim não se cria nem evolui. É cortado qualquer mal pela raiz assim que detectada a sua presença.

Até porque, a gente já se conhece bem.

Todas as minhas caras e bocas estão mapeadas e você sempre sabe quando eu tô estranho. Do lado de cá, também já consigo bater o olho em você e saber que algo não está certo. No pacto feito de relatar qualquer pedrinha que entre nos nossos sapatos, vamos aparando qualquer aresta que possa nos machucar.

Não há porque ficar de birra ou cultivar uma discussão mal resolvida. Com tanto a amar, beijar, abraçar e carinhar, a gente vai gastar vida com briga? Eu me recuso. E jogo até sujo pra te fazer sorrir comigo de novo. Faço cócegas, careta e só não conto piada porque não sei. Amor, não quero perder um segundo. Nosso tempo é contado, mas cada dia bem vivido se torna um pra sempre.

Ser feliz há de ser nossa lei.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

Imagem

Não Sufoque

tumblr_ljm9ltB3j91qe8g4go1_500

As pessoas precisam de espaço.

Espaço pra terem saudade, pra sentirem falta. Ninguém consegue se dar conta de que a presença da outra pessoa é realmente importante se ela está sempre ali. Você se acostuma, torna banal algo que deveria ser raro e especial. Não que um encontro precise acontecer só de tempos em tempos, mas marcar presença constante é sufocante. Como um lençol, que precisa amenizar o frio, não matar de calor.

Alguns de nossos pares funcionam assim: precisam estar longe para sentir o quanto querem estar perto. É estranho? Sim, mas te garanto que é perfeitamente entendível. Querem um tempo. O Tempo é tão único que cada um tem o seu. Enquanto estar ao redor de alguém não for bom pra um dos dois, tenha certeza que nada frutificará. Pelo contrário. Tentar agradar demais, elogiar demais, se mostrar disponível demais, apenas o fazem se tornar mais um rapidamente.

E isso nada tem a ver com saber – ou não – dar valor.

É apenas uma questão de dar espaço, como já dito. Nem todas as coisas precisam de você, aceite. A vida segue com ou sem a sua presença. Mas quando ela acontecer, que seja por uma boa causa. Ainda que ligações de madrugada, mensagens no meio da tarde e esperas na saída do trabalho sejam sempre bem vindas, tornar surpresas rotina acabam fazendo com que essas mesmas surpresas sejam banais.

Um “eu te amo” dito repetidas vezes enjoa. Claro que, em alguns momentos, pode-se gastar as palavras (acompanhadas de gestos, por favor!). Em outros, um olhar já diz tudo. A distância é craque em tornar palavras abraços. Quando não se pode estar perto, quer se estar presente de alguma forma. Mas nenhuma tecnologia vai substituir o físico. Assim, estar dentro do coração do outro é bem mais importante.

Valorizar o momento a dois é tão importante quanto compreender que os momentos sozinhos também são bons. Por mais que se construa uma estrada junto, cada um tem que fazer sua parte, tocar sua vida e assumir seus projetos. Para tal, é preciso saber onde começa e termina o quadrado de cada um. Querer um tempo para si não é egoísmo, nem tampouco prova de que não se gosta mais de alguém.

Às vezes é apenas uma mera necessidade.

(Gustavo Lacombe)

Imagem

É Preciso Espaço pro Tempo

tumblr_mi9j4qtWmG1s0nmupo1_500

Você não sabe quanto tempo eu esperei esse sorriso.

Quanto tempo eu fiquei olhando pros outros casais imaginando quando chegaria a minha hora. Noite, manhã, tarde. Fiquei pensando no que faria, no que falaria. No final das contas, sobrava solidão. Me frustrei, sabia? Porque colocava muita pressão em pessoas que não podiam me dar o que eu queria. E eu queria construir. Não sei se um castelo, um palácio ou só uma palafita. Um barraco, talvez, mas queria. Nem que minha casa fosse os braços do outro e a gente se beijasse na chuva, considerando ser uma goteira. Tudo bem.

Só queria onde descansar. E estou falando de colo, não de colchão.

Resolvi dar tempo. Só que ninguém sabe o tanto que é preciso dar de espaço pro amor e tempo para o próprio tempo. Ninguém sabe mesmo. Digo mais: não adianta dizer que “tudo vai dar certo”. Corta essa. As coisas dão certo por um tempo, depois degringolam. É normal. Aí, ficam um tempo dando errado, mas voltam pro lugar. É um ciclo. São as águas que se remexem e depois se acalmam.

Até que um dia – êta expressão que gosto! – alguma coisa acontece no coração.

Você vê alguém cruzando a rua, vê entrando no elevador, pedindo um Mocha no Starbucks, correndo em Copacabana ou simplesmente sorrindo num piquenique, e há um estalo. Fica aquele barulhinho na cabeça remoendo o encontro como a seta de um carro fazendo “plec plec plec”. Logo esse som se mistura às batidas do coração, vira confusão e tudo que (não) se quer é se declarar e saber a resposta. Vai que dá certo.

Vez ou outra, uma em milhão (dizem especialistas), dá. Pode abrir o sorriso com calma.

Depois de tudo percorrido, pra não dizer sofrido, pode-se voltar a escancarar os dentes sem medo ou culpa. Faz-se isso apenas para juntar a boca na outra no simples prazer do beijo, antes tão proibido. Você não faz ideia do quanto eu esperei pra soltar esse sorriso, antes tão amarrado.

Você não faz ideia do quanto esperei pra poder ser amado.

(Gustavo Lacombe)

Imagem

Até que um Dia

483742_340906866010386_183162060_n

Todas as histórias tem aquela expressão “até que um dia” pra usar, sabe?

A gente se conhecia, conversava. Era amigo mesmo. Até que um dia ele pegou minha mão e eu senti. Primeiro senti o calor do corpo dele passando pro meu no simples toque dos dedos e depois das palmas se abrindo e entrelaçando mais do que o momento, mas o querer. Subiu um arrepio que me levou direto pra segunda sensação que o gesto trouxe: não era só amizade.

Constatar isso é um passo mínimo perto de todo o esforço que se faz depois para qualquer direção. Seja para aceitar que algo mudou, seja para resistir e lutar contra ou, então, escancarar de vez que agora era amor e pronto. Na teoria é simples. Escolhe-se um caminho, fecha-se os olhos e vai. Na prática, coloca-se o coração na berlinda de qualquer jeito.

É ganhar ou perder sem engano.

Devo ter deixado transparecer. Se ele simplesmente queria a minha companhia, em segundos eu queria a história dele. Poderia ter sido ruim, não fosse o fato de estar apaixonada por um dos caras mais cabeças de vento que conhecia. Eu poderia colocar uma plaquinha no pescoço dizendo o que se passava comigo que ele leria e perguntaria “mas quem é o felizardo que eu não conheço!?”.

De repente, me vi evitando os lugares em que ele ia, deixei de sair se fosse pra dar de cara com alguma menina pulando nos braços dele ou simplesmente chegando perto. Não conseguia evitar meu ciúme, não conseguia parar de pensar nele, na gente. Até que ele reparou. Não que eu o queria, mas que estava estranha.

– Você tá estranha. – homens adoram essa frase tanto quanto as mulheres curtem “precisamos conversar”.

E por mais clichê que possa parecer, a coisa toda de eu tentar evitar e me abster foi por água abaixo quando ele começou a ficar com uma menina do condomínio dele. Ela me assombrava aparecendo em todos os eventos com ele. Eventos esses que eu não poderia deixar de ir.

Resolvi guardar meu amor num cantinho bem fundo de mim. Não queria me expor e acabar perdendo a amizade. Me declararia e não teria chance alguma contra uma menina que morava a algumas casas da dele, um cabelo loiro impecável, que tinha menos cintura que eu, e mais peito, mais bunda. E parecia, realmente, gostar dele.

Eu não atrapalharia isso. Desculpa, mas eu sou assim. Penso primeiro que ele está feliz e nada pode ir contra isso do que pensar que posso fazê-lo ainda mais feliz. Eles se mereciam. Eu? Esperava. Esperava que, num passe de mágica, aquilo tudo mudasse em mim (assim como começou). Esperava outra pessoa, sei lá. Me ocupei, fiz outras mil coisas. Mas, no final, acabava com a cabeça no travesseiro pensando em como estava sendo burra.

Porque me afastando eu ficava sem nada. Nem tinha o amor nem a amizade.

Era quase meia noite quando me dei conta disso. Tinha voltado há um tempo de um bar com outros amigos. Tinha, também, me levantado assim que o vi entrar no lugar com a menina. Fingi que ia ao banheiro, dei dois beijinhos nele e parti. Deixei minha parte da conta e, com o coração acelerado, entrei no carro e só parei em casa.

Como se uma loucura tivesse tomado conta de mim, resolvi finalmente explicar para ele porque estava estranha. Iria dizer que não tinha gostado da menina, mas omitiria qualquer coisa que dissesse respeito ao que sentia. Tentaria, então, dizer que estava com ele pra tudo. Que a nossa amizade não poderia se perder.

Chovia, pra variar. Quando alguma coisa tem que ir contra, todas as outras irão junto como um efeito dominó. Só o pneu do carro que não furou, mas pense em trânsito, cruzamentos com experiências de quase morte e desvios de rota por conta de bolsões d’água que se formavam em dez minutos de chuva forte. Essa merda desse prefeito que não resolve os problemas da cidade!

Ah, e o porteiro do condomínio não queria me deixar entrar. Disse que, provavelmente, estavam todos dormindo. Olha isso, cara!

Liguei pra ele e dei um susto logo. Mandei vir até o portão ou ligar pra portaria. Fui autorizada a entrar e, quando cheguei na porta da casa dele, lá estava o menino que vestia um calção de corrida e uma camiseta sem graça da melhor maneira possível. O carro parou com um tranco e eu saí, ficando ensopada em três segundos.

– O que você tá fazendo aqui? – ele já chegou logo perguntando.
– Fala direito comigo. Parece que eu tô atrapalhando alguma coisa. Parece que você não gosta de mim.
– Eu não sei o que tá acontecendo contigo! Eu não te reconheço mais, cara. Cadê aquela menina que tava comigo pra tudo, que me contava as coisas, que ria comigo? Cadê aquela parceira pra quem eu podia contar meus medos?
– Tá aqui! Isso que eu vim te mostrar! Será que você não percebeu o que aconteceu? – acho que meus planos iam por água abaixo, junto com o resto da maquiagem que eu usava.
– Percebi que você mudou pra muito pior. Nunca achei que você fosse capaz de abandonar seus amigos!
– Você fala como se tivesse cheio de problema! Você não tem nada pra reclamar da vida! – eu vivia dizendo isso pra ele – E agora você tem essa menina aí pra te ajudar.

– Amor! – alguém gritou lá de dentro.

Eu disse. Quando algo pode dar errado, tudo conspira no mesmo sentido. Não demorou mais que alguns outros instantes pro portão da casa se abrir mais um pouquinho e a loira peituda apareceu na porta. Os poucos pingos de chuva que pegou bastaram pra transformá-la numa espécie de concurso Garota Molhada e eu fiquei morrendo de vergonha do meu corpo colado contra a roupa que não revelava nada.

Quando me viu, a cara dela fechou.

Enquanto o idiota ia atrás dela e me pedia pra não sair dali, pude ouvir o barulho de chaves (mentira, acho que ouvi. A chuva estava forte, mas ela passou por mim com um molho na mão e batendo o pé). Não deixou nem um recado, mas pelo “agora fodeu” que ele soltou quando ficou sozinho ali tomando chuva comigo eu percebi que era grave.

– Quem se explica primeiro? – eu perguntei.
– Ela viu uma foto sua.
– Que foto, Bocó?
– Não me chama disso que eu não gosto desse apelido idiota.
– Tá, explica logo!
– Eu tenho uma foto nossa numa das minhas gavetas de cueca.

Sério, eu estava mais do que perdida na hora. Ou só não queria entender o que aquilo significava.

– E…?
– E aí que não deve ser muito legal achar a foto de outra menina na gaveta do seu namorado quando se está procurando uma camisinha pra transar com ele. Acho que acaba todo o tesão.
– Por isso ela saiu daqui assim?
– Eu disse a ela que – e não terminou a frase, só engoliu à seco.
– Porra, agora você vai falar! Porque eu saí de casa que nem uma maluca, quase morri três vezes dirigindo…
– Você dirige mal – ele me interrompeu
– Babaca, não me interrompe! E cheguei aqui pra dizer o quanto eu tenho sofrido porque a gente está afastado. Eu sempre fui e vou ser sua amiga, mas não dá mais pra manter algumas coisas dentro de mim.
– Como assim?

Acho que a ficha dos dois estava caindo.

– Eu preciso dizer que eu te amo. Tô nem aí se você não sente o mesmo, se você quer sair correndo atrás daquela menina ou se você vai rir. Foda-se. O que eu não posso mais é ficar carregando o peso de te amar e, por isso, não poder estar perto. Porque é isso que acontece. Você chega perto e eu tremo, a mão sua e, quando vou ver, estou mandando mais olhares apaixonados por segundo do que qualquer filme romântico que eu já vi. COMO VOCÊ NÃO VIU ISSO TUDO!? “Você tá estranha”, não foi o que você disse? E eu estava mesmo, porque te evitava pra não te atrapalhar.

E ele começou a rir. Que raiva que deu! Minha vontade era pular na garganta dele e socar aquela cara até que ele entendesse que eu gostava dele, mas eu não tinha forças pra nada. Só de me confessar eu já gastava muita da energia que tinha.

– Isso que você nunca entendeu também. Você não atrapalha nada. Você sempre foi onde eu me desembolava. Você sempre esteve ali e eu nunca consegui ser grato o suficiente. Nunca consegui admitir que, por trás da máscara do amigo, existia um outro interesse.

A ficha caiu. A minha e a dele. Naquela hora, todos os momentos que dividimos passaram na minha cabeça e eu vi como a gente era e o tempo que a gente tinha perdido. Perdemos tempo com outras pessoas, outras noites, outras camas e, agora, tudo se encaixava. Ainda que algumas outras coisas tivessem que ser explicadas, não importava muito com o que iria acontecer depois.

Éramos dois corpos molhados. Éramos dois num só abraço. Éramos eu, ele e um beijo. Éramos uma vontade represada há tanto tempo que só aquele beijo na chuva não daria jeito. Até que um dia, no meio de um beijo nosso, eu tirei a prova de que era ele quem eu queria. A gente se tornava mais que amigos.

Até que um dia, éramos um do outro de vez.

(Gustavo Lacombe)

Imagem

Saia Plissada

tumblr_lyo7hdUEVv1qi98e1o1_500

Minha mãe sempre me dizia para tomar cuidado com os rapazes. O que ela nunca tinha me dito era que, no fundo, eles é que precisariam tomar mais cuidado ainda comigo.

Por isso a importância da saia plissada passada em cima da cama. Mamãe não contava que eu crescesse esses últimos três centímetros – que o médico disse – aos dezessete. Tarde para uma moça, ficava repetindo. Eu sei o porquê desse sentimento dentro dela, atacando com força. É que o azul marinho da saia agora não chegava mais perto do joelho, mas se aproximava do meio da coxa. São três centímetros só, eu ficava falando.

É como cortar o cabelo e ninguém reparar, mãe!

Não adiantava. Ela tinha cismado que era preciso comprar outras mais comportadas. Não!, dizia dentro de mim. Admito: aquilo seria meu trunfo. Já que Deus tinha me abençoado com um belo par de pernas, que elas tivessem livre acesso ao ar quente do Rio. Claro que um shortinho por baixo. Eu não sou uma das periguetes da turma B. Respeito é bom, combinado?

Entre outras coisas que a mamãe tinha me dito – e eu já tinha comprovado – era que a imaginação dos meninos era pior do que a realidade na cara deles. Então, nada como deixar que eles imaginassem o resto de mim. Um botão a mais aberto na camisa era suficiente. O tipo de blusa que usava por baixo também fazia diferença. Aliás, detalhes sempre fizeram e ainda fazem toda a diferença.

Nunca fiz pouco de outra menina. Assim como existem mais bonitas, tem as mais feias. Ninguém fala, mas é uma puta competição. E isso, sem dúvida, às vezes é uma grande merda. Agradeço todo dia por não precisar de tanta maquiagem pra me sentir bem, mas sempre tem aquela no colégio que acorda, nem toma café, e chega linda. Exemplo: a Mah Fraga.

Raiva.

Não quero o monopólio das atenções. Papai já faz isso muito bem e cresci com a convicção de que um cara dedicando até seu tempo longe pra mim é melhor que vários apenas me vendo passar. Agora, que é uma delícia se sentir valorizada, isso é. Saber que as cabeças estão tortas por sua causa. Que menina não gosta?

E aquela saia plissada passada em cima da cama era parte do jogo. Eu queria crescer só mais um centímetro. Só mais um.
Aí, ficava perfeito.

(Gustavo Lacombe)