Os Outros

Tinham me avisado.

Assim que entrei pelo restaurante, eu vi. Assim que meus olhos cruzaram o salão e encontraram aquele casal, meu coração pulou. Só que não pulava como nos momentos de alegria em que escutava o barulho do carro dele ou quando o nome brilhava na tela do celular me pedindo pra descer. Era um querer sair correndo gritando pela rua que aquilo era quase uma tortura, xingando a primeira, segunda e terceira geração viva, porvir e morta, só pra amaldiçoar todo o carinho que já tinha me feito misturado com a loucura da vontade de bater a mão na mesa e perguntar se a comida estava boa, porque a indigestão eu garantia.

Quem pode me entender?

Já gostei de alguns garotos depois dele, claro. A vida anda, gira, rola, caminha ou qualquer outro verbo que você queira usar para descrever que quem fica parado no tempo morre. Mas, depois dele, os outros foram os outros. Já tinha previsto que isso aconteceria. Se eu disser que esperava nunca mais encontrá-lo ou então que ficasse solteiro pra sempre, estaria mentindo. Apesar de achar que eu deveria nunca mais vê-lo, sentir seu perfume, cair na armadilha de fitar sua boca ou na besteira de fazer comparações, uma hora tudo seria inevitável. Não se comparam amores, mas, sem dúvida, se comparam as flores. E as que ele me deu ainda guardam a essência em mim.

Ninguém acredita quando eu conto, sabia? Quando eu digo que o meu melhor namorado agora sai com outras, vai ao cinema com outras e se diverte com outras. É, ninguém acredita. E, naquela noite, uma amiga já tinha me avisado. Eu sabia o que me esperava. Quer dizer, imaginava. Minha raiva era não achar aquilo normal. Normal, pra mim, seria o lado dele estar vago e me esperando. Minha raiva era saber que a vida continua, mas eu seria sempre sua. Por mais que eu não queira, dá raiva.

Disfarcei tudo isso num sorriso.

E como se a merda não pudesse ser pior, ele me viu, levantou, foi me cumprimentar, beijou meu rosto, incendiou meu corpo, largou a menina na mesa cinco minutos, não a apresentou pra mim, disse “oi” pra minha amiga como se a tivesse visto ontem e ainda fôssemos um casal, voltou pra mesa e continuou comendo. A outra? Nem falou nada. Talvez só tivesse merecido o cinema de antes. O jantar estava sendo um bônus. Sem ciúmes, apenas pela conveniência de sair com o melhor que alguém deixou escapar pelos dedos. Agora, taí o resultado: ele de mãos dadas com outras.

Tinham me avisado. Eu tentei esquecer. Ele seguiu. Meu coração parou. Olhava pra ele e só conseguia pensar: depois de você, os outros são os outros.

Quem pode me entender?

(Gustavo Lacombe)

Garotos

tumblr_leixvslQmM1qe2im9

põe pra tocar e lê: http://www.youtube.com/watch?v=hFJljUyEJ3c

Tudo treme. Parece que é a primeira vez. Parece que sou um menino assustado que não sabe onde colocar as mãos. A testa sua, os olhos piscam mais que o normal e não consigo falar. A língua enrola e faz as palavras tropeçarem antes de saírem da boca. Ainda mais agora, que ela tira a blusa e monta em cima de mim. Pele, barriga, peitos e músculos retesados segurando meu cabelo com direito a poses. E posses.

Vai me levando aonde quiser.

Esqueço o antes. As posições inventadas com outras, os dentes cravados no pescoço, as unhas arranhando as costas, os orgasmos barulhentos ou silenciosos. Nada importa agora. O mistério é tudo que pesa sobre mim. Sinto a dobra do lençol amarrotado marcar meu corpo, mas logo ela me puxa e vai comandando as ações. O antes esquecido, sou como um papel em branco pronto para ser rabiscado pelo amor que ela quer fazer agora.

De repente, seus olhos param nos meus e parecem apresentar um convite. Não basta apenas sugerir o que acontecerá (ainda mais sabendo que, se ela quiser, para tudo no meio e me deixa na vontade), é preciso ter permissão para ir com ela. Desconfio. Não sei se aquilo é uma mão estendida para seguir rumo ao fecho do seu sutiã e jogá-lo no chão ou uma armadilha para me fazer querer mais. Ela é capaz de qualquer coisa, eu sei. Do imprevisível ao clichê. Tudo é dela.

Resistir?

Mastiga meu juízo e sentido com fome, mas sabendo que é preciso saborear o prato. A refeição, no caso, é temperada com o meu jeito de não saber o que fazer e a cara de bobo que a diverte. Hoje a noite é dela e eu sou seu palhaço. Tentação é mordê-la e comer o perfume com cabelo, beber nossas confusões de pernas e braços, não ter ideia do que é o “não”. Garotos (como eu), por mais espertos que sejam, só sabem dizer “sim” a certas mulheres. Mulheres como ela.

Não adianta apelar. Perto dela, sou só um garoto, preso e devorado, que não se importa mais com nada.

Apenas preocupado em segui-la aonde seus truques queiram me levar.

(Gustavo Lacombe)

Vida Simples

tumblr_mj7odijCvb1ryd72so1_500

“No fundo é simples ser feliz, difícil é ser tão simples” – Leoni

Sou a favor das coisas facilitadas. Calma, este não será um manifesto sobre as maracutaias e arranjos desenvolvidos por pessoas a fim de conseguirem realizar seus objetivos sem esforço nenhum. Aliás, abomino a maioria dos esquemas existentes por aí que visam dar prioridade a algumas pessoas para passarem na frente de outras. Talvez, o único acordo que aceito é o do trabalho com o sonho; mãos à obra. Sobre a facilidade que me referi no início do texto, falo sobre o poder de decisão que temos entre dizer “sim” ou “não” para as coisas.

Palavras que podem virar verbos, mas não perdem o efeito de serem uma aceitação ou um veto.

Perdemos muito tempo remoendo (e achando) (e tentando adivinhar) o que o outro, o presidente ou o papa pensam ou opinariam sobre a próxima decisão que iremos tomar. Sério, pare com isso. Concordo que muitas questões não se resumem a escolher entre o certo e o errado. Algumas passam ao campo da subjetividade, das suposições, das divagações sobre o que acontecerá se acaso tal coisa acontecer. (Não sei se é certo escrever essa expressão) Vai por mim, se der vontade de fazer alguma coisa e ela não prejudicar ninguém, faça.

Os maiores arrependimentos vem, justamente, daquilo que não fizemos por hesitar demais.

É como pegar o telefone e ficar pensando se deve ligar ou não. Deu saudade? Liga. Não vale a pena? Foda-se, então. Larga essa merda e esquece a vontade. Seguindo o mesmo exemplo: escrever um e-mail, uma carta, um SMS, fazer um sinal de fumaça ou planejar ir lá pro raio que o parta só pra dizer que você não consegue parar de pensar em alguém. Fazemos coisas tão instintivamente que de vez em quando me assusto com o tanto de vida que desperdiçamos tentando prever como será se…

“Se”. Palavra miúda que faz um estrago absurdo na nossa cabeça.

Não é preciso ter pressa para se realizar sonhos. Não é preciso passar por cima de ninguém para alcançar objetivos. Não é preciso dificultar as coisas para dar vazão aos sentimentos. E não é preciso fazer uma lista enorme do que “não é preciso”. Às vezes, as escolhas que se colocam à nossa frente nos cobram que sejamos simples apenas. É uma questão de dar prosseguimento com aquela vontade – seja do tipo que for. Já existem coisas demais acontecendo ao nosso redor sem que possamos interferir nelas. Simplifique a vida.

Abraça rindo o que for de “sim” e joga fora sem pensar o que for de “não”.

(Gustavo Lacombe)