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No Ar

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Sentei na cadeira do avião e pensei “puta merda, o que é que eu tô fazendo?”, mas eu sabia.

Sabia que tinha decidido ir até Brasília olhar na cara dela só pra ter certeza daquilo que sentia. Claro que eu pensei em nem deixar a aeronave decolar. Entre toda convicção que eu tinha de que aquele encontro era imprescindível e o medo de estar cometendo uma loucura ou uma burrice, deixava que o destino se cumprisse à maneira que eu planejei. Aliás, que eu comprei. Sim, porque o cartão de crédito que bancava aquilo tudo era o meu. Maluco eu ficaria quando visse o extrato e a vermelhidão em que se transformaria a minha conta.

Tinha que valer a pena.

Tinha que valer sair de São Paulo depois de tanto engarrafamento só pra poder estacionar no abraço dela. Não ousaria contar minha história pra ninguém. Quer dizer, alguns poucos amigos sabiam. Precisava colocar alguém como contato de emergência. Tive que abrir o jogo. Quando eles ouviram falar do encontro pela internet e da paixão avassaladora entre os dois, riram. Quando viram a foto – tirando a boa cara de espanto inicial com a beleza dela, me disseram que aquela não poderia ser uma mulher de verdade.

Que deveria ser um maníaco, já me esperando com garfo, faca e pronto para arrancar meus rins, córneas e vender o resto que estivesse bom no mercado negro.

A aeromoça passou recolhendo alguns copos, distribuindo balas de café (onde foram parar os caramelos?) e mandando colocar a poltrona na posição vertical. Não demorou e a pressão das turbinas me fez colar o corpo no estofado. Voo. E nem adiantava mais torcer para que desse certo. Se até ali tudo tinha saído conforme o esperado, era melhor deixar as expectativas em solo. A vida se faz nas loucuras que realizamos quando uma coragem insana nos invade. Pois bem. Eu estava ensandecido o suficiente para querer conhecer aquela mulher. Cintos apertados e estou indo.

Planando nas asas da história que eu mesmo escrevo pra mim.

(Gustavo Lacombe)

A Falta de Ser Mulher

Ela, trinta e poucos anos, dois filhos. Alguns quilômetros de corrida na areia da praia pra manter a forma, um marido zeloso, atencioso e alguma satisfação com a vida. Confidencia, às vezes, que só o que tem não basta. Ou, como gosta de dizer, apenas o que é não cabe. Psicóloga, mãe, dona de casa… Algumas de suas amigas não cansam de repetir que ela reclama de boca cheia. Fazer o quê, né? Só ter gente pra tratar, criança pra vestir e roupa pra lavar não preenchia todos os requisitos da plena felicidade.

Sentia falta de ser mulher.

O casamento tinha entrado numa fase terminal de falta de sexo, não de amor. O carinho sempre existiu e ainda existia. Não eram raros os momentos em que ocorria um mimo, um agrado, mas algo sempre acontecia para dificultar as coisas. Ter dois rebentos pra cuidar também não ajudava muito. No começo, recorriam a babás ou avós. Depois, passaram a depender da creche e das agendas alteradas para conseguirem escapulir para um motel às onze da manhã.

Entretanto, era muito trabalho para pouco tempo que podiam ficar juntos. Acabou começando a ter falta de interesse em ter toda aquela dor de cabeça. A partir de um certo ponto, ela não sabe se ele se contentou com os encontros no colchão espaçados ou se, na verdade, arrumou outra na rua. Sua mãe já tinha cansado de dizer que homem era assim mesmo. Se não tivesse em casa, procuraria o que quer em outro lugar. Tão mais fácil ser homem, né?

Ele, vinte e muitos poucos anos. Ainda estudante. Sair da casa dos pais? Pra quê?, perguntava. Andava de ônibus pra cima e pra baixo, curtia a vida correndo sua volta diária na Lagoa Rodrigo de Freitas num interminável fôlego de sete quilômetros em quase trinta minutos. Responsabilidade beirava zero. Naquele dia, motivado pela promessa de um jantar japonês de graça e às custas da mãe, acabou indo a um encontro dela com as amigas do trabalho num restaurante que deixava a televisão sintonizada na novela das nove.

Ela e ele se cruzaram. Um entrando e o outro saindo, cada um do banheiro destinado ao seu gênero. A julgar pelo olhar, o interesse foi instantâneo.

Caras mais novos nunca fizeram o tipo dela. Mulheres mais velhas nunca tiveram vez pra ele. Só que vai entender quando a pele arrepia só de passar perto de alguém. Não existia outra explicação. Ela, parada do lado de fora lavando a mão, resolveu esperar. Por que fazia aquilo? Nunca tinha tido atitude parecida. Sério. Trair era algo impensado. Ela defendia a instituição do casamento, mas uma de suas melhores (ou seria piores?) amigas tinha dito que ela merecia ser bem tratada por um cara.

“Seu marido que se dane”, repetia.

Quando ele saiu, deu de cara com ela. Nem susto levou. Parece até que tinha previsto aquele movimento. Ele enfiou a mão na calça pegou o celular… parecia instintivo pedir o telefone. E sentindo o perigo de serem pegos, ele desbloqueou o aparelho e ela, sem falar nada, digitou o número. Era a primeira vez. Juro. Talvez ele já estivesse acostumado às saídas de banheiro em boates da vida. Ela tremia. Passaram-se anos desde a última vez que deu tamanha abertura a um cara. E se alguém a visse encostada na parede com um garotão? E se algum amigo a visse?

Se a minha mãe me pega aqui eu faço o quê?, pensava ele.

Saíram do pequeno hall tentando ser discretos. Ela retocou a maquiagem, ele guardou o telefone e a fez acreditar quando prometeu que ligaria. Nem demorou muito. Mandou uma mensagem assim que chegou na mesa pensando em não perder tempo. Viu o celular piscar a quatro mesas de distância. Ela jantava com uma outra mulher. Travou o celular e não comentou nada com a amiga. Nem sequer o procurou esticando o olhar pelo salão, mas respondeu assim que se dirigiu mais uma vez ao banheiro.

“Quero te levar pra casa hoje. Posso ou mamãe não deixa?”. Ela não sabia quem mandava aquela mensagem, mas devia ser a mulher que muito tempo ficou escondida sob a mãe/psicóloga/dona de casa dentro dela. Sem frear os instintos, partia pro tudo ou nada. Era a primeira vez que fazia aquela loucura. Juro. Sério. Ela sentia falta de ser mulher e aquela era a saída mais próxima para tentar recuperar alguma coisa dentro dela. Ele? Bom, tomara que aquele “eu já sou bem grandinho, sei me virar” em resposta significasse que ele sabia ser usado.

Quem disse que uma mulher também não sabe brincar?

Primeira vez. É sério.

(Gustavo Lacombe)

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Carta de um Amante

Carta Amante

Pequena,

joga tudo pro alto. Acorda amanhã e faz uma mala, uma mochila. Ou, melhor, nem dorme essa noite. Espera a vizinhança se aquietar e sai de fininho. Deixa a porta encostada pra não fazer barulho com a chave nem com o trinco. Vem com seus pés de veludo até a esquina. Te espero. Carro ligado, motor funcionando e o ronco vai se confundir com o que deixou no quarto sozinho. Larga tudo.

Te peço isso num impulso louco apaixonado, mas com a frieza de quem pensou até não poder mais. Pesei muita coisa também. A sua, minha, nossa alegria. Coloquei do outro lado a tristeza que ele sentirá se acordar e encontrar o lado esquerdo vazio. Eu já sei faz tempo o lado que você gosta de dormir. Juro que me pus no lugar dele e não resisti ao fazer este pedido. Lutei muito contra o egoísmo de querer ter você só pra mim.

Mas não é desse jeito que funciona?

Eu sei que você não quer mais essa sua vida. Vive falando que agora o teu destino é comigo e que quer construir algo nosso. Deixa a janela entreaberta, faz uma corda fugitiva com lençóis amarrados. Escapada hollywoodiana em plena madrugada carioca. Rapel da janela do teu quarto pra escalada dos meus braços. E não esquece de deixar um bilhete pra ele.  Joga tudo pro alto. Larga o que eu chamo aqui de “tudo”, mas você vive me repetindo que é nada. Que não há mais nada.

Se essa carta chegou até você é porque existe quem acredite e apóie essa nossa loucura. Esse nosso amor. Nascido do olhar, confirmado nos beijos. Talvez levando apenas a culpa de você já estar com alguém. Entretanto, há tempo para concretizar nós dois, Pequena. Quando se ama nunca é tarde. Vem, te peço, e me mostra que tudo aquilo que fala pra mim é verdade.

Essa não é nossa última chance, mas é a chance. Pra quê prolongar?
Joga pro alto o que você não quer mais e agarra a gente de vez.

(Gustavo Lacombe)