Ciúme Daquele Cara

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Eu sou aquele cara que a sua mulher fecha os olhos e imagina.

Aquele cara que, quando ela lê um bilhete seu, pensa que poderia ter sido escrito por mim. Que, quando você decora um texto e fala no ouvido dela, fica se perguntando onde eu estou e no ouvido de quem eu estou inventando minhas rimas e poesias. Ela deseja saber se sou realmente tudo que escrevo e falo. Se eu vou entendê-la tão bem como prometo nos momentos em que decifro seus códigos, truques e armadilhas.

Eu sou aquele cara que, quando você dorme, entra pelo quarto através do celular, do computador ou só da lembrança de algo que eu disse e ela lembrou. Sou parada obrigatória no dia dela e, porta trancada ou não, eu entro pela fresta. Sou aquele cara que arranca um suspiro à distância, que não precisa nem encostar um dedo nela pra acendê-la ou despertar algum sentimento. Aquele cara que, por mais que você queira igualar, nunca superará.

Só perco pra mim mesmo.

Ainda que não faça nada novo e diferente, ela vai se lembrar de mim enquanto estiver contigo.E, mesmo eu sendo isso tudo, você não deve sentir ciúmes. Porque sou só um personagem que pareço estar perto, mas estou distante demais. Enquanto isso, é você quem a abraça. O que eu só posso fazer com palavras, você pode com braços, pernas, gestos e até o silêncio. Você, sem falar nada, pode viver tudo com ela.

Eu, se não for lido, morro no esquecimento dela.

(Gustavo Lacombe)

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Calça 38

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A calça bem que poderia ser 36, mas o riso dentro da 38 mostrava que estava tudo bem.

O famoso “Projeto Verão” e as promessas feitas de cortar carboidratos e o álcool duraram até o primeiro convite para tomar um chope com as amigas. Não resistiu às conversas que só elas tinham quando se soltavam numa mesa de um bar. Mais tarde, quando o namorado apareceu com um pote de sorvete de creme e um brownie feito por ele mesmo (graças a Deus tinha arrumado um cara que sabia cozinhar), esqueceu o que eram as calorias. Gastaria todas elas depois com beijos e os corpos suados no lençol.

E se sobrasse, sempre havia aquele banho a dois pela manhã.

As cantadas que se acostumou a ouvir na rua apenas atestavam o que as meninas do trabalho diziam. “Essa bunda chama atenção, filha”. Poderia ter mais peito, como poderia ter mais um monte de coisa. Pés menores, nariz mais fino, dois centímetros a mais de altura – sendo que outros dias desejava ser mais baixa, vai entender. Ou, por que não?, poderia ter mais dinheiro, brincava.

Sobre a silhueta, tratava apenas de se cuidar para manter aquele vestido e aquela saia cabendo. E não se importava em repetir roupa. Não ligava em eleger algumas peças favoritas e usá-las mais de uma vez. Mico, no seu discurso, era se endividar toda no cartão de crédito só para posar de socialite.

Sentia-se abençoada com o que tinha, e isso bastava. A vida profissional e pessoal caminhavam bem. Cada uma no seu compasso. Nada corria. Aliás, pressa pra quê? Mesmo assim, se algo estagnava, não tinha medo de dar um passo atrás para poder enxergar outros pra frente.

Sabia que era só mais uma no meio de tantas, mas sempre considerada única por quem tinha a sorte de conhecê-la.

(Gustavo Lacombe)

A Falta de Ser Mulher

Ela, trinta e poucos anos, dois filhos. Alguns quilômetros de corrida na areia da praia pra manter a forma, um marido zeloso, atencioso e alguma satisfação com a vida. Confidencia, às vezes, que só o que tem não basta. Ou, como gosta de dizer, apenas o que é não cabe. Psicóloga, mãe, dona de casa… Algumas de suas amigas não cansam de repetir que ela reclama de boca cheia. Fazer o quê, né? Só ter gente pra tratar, criança pra vestir e roupa pra lavar não preenchia todos os requisitos da plena felicidade.

Sentia falta de ser mulher.

O casamento tinha entrado numa fase terminal de falta de sexo, não de amor. O carinho sempre existiu e ainda existia. Não eram raros os momentos em que ocorria um mimo, um agrado, mas algo sempre acontecia para dificultar as coisas. Ter dois rebentos pra cuidar também não ajudava muito. No começo, recorriam a babás ou avós. Depois, passaram a depender da creche e das agendas alteradas para conseguirem escapulir para um motel às onze da manhã.

Entretanto, era muito trabalho para pouco tempo que podiam ficar juntos. Acabou começando a ter falta de interesse em ter toda aquela dor de cabeça. A partir de um certo ponto, ela não sabe se ele se contentou com os encontros no colchão espaçados ou se, na verdade, arrumou outra na rua. Sua mãe já tinha cansado de dizer que homem era assim mesmo. Se não tivesse em casa, procuraria o que quer em outro lugar. Tão mais fácil ser homem, né?

Ele, vinte e muitos poucos anos. Ainda estudante. Sair da casa dos pais? Pra quê?, perguntava. Andava de ônibus pra cima e pra baixo, curtia a vida correndo sua volta diária na Lagoa Rodrigo de Freitas num interminável fôlego de sete quilômetros em quase trinta minutos. Responsabilidade beirava zero. Naquele dia, motivado pela promessa de um jantar japonês de graça e às custas da mãe, acabou indo a um encontro dela com as amigas do trabalho num restaurante que deixava a televisão sintonizada na novela das nove.

Ela e ele se cruzaram. Um entrando e o outro saindo, cada um do banheiro destinado ao seu gênero. A julgar pelo olhar, o interesse foi instantâneo.

Caras mais novos nunca fizeram o tipo dela. Mulheres mais velhas nunca tiveram vez pra ele. Só que vai entender quando a pele arrepia só de passar perto de alguém. Não existia outra explicação. Ela, parada do lado de fora lavando a mão, resolveu esperar. Por que fazia aquilo? Nunca tinha tido atitude parecida. Sério. Trair era algo impensado. Ela defendia a instituição do casamento, mas uma de suas melhores (ou seria piores?) amigas tinha dito que ela merecia ser bem tratada por um cara.

“Seu marido que se dane”, repetia.

Quando ele saiu, deu de cara com ela. Nem susto levou. Parece até que tinha previsto aquele movimento. Ele enfiou a mão na calça pegou o celular… parecia instintivo pedir o telefone. E sentindo o perigo de serem pegos, ele desbloqueou o aparelho e ela, sem falar nada, digitou o número. Era a primeira vez. Juro. Talvez ele já estivesse acostumado às saídas de banheiro em boates da vida. Ela tremia. Passaram-se anos desde a última vez que deu tamanha abertura a um cara. E se alguém a visse encostada na parede com um garotão? E se algum amigo a visse?

Se a minha mãe me pega aqui eu faço o quê?, pensava ele.

Saíram do pequeno hall tentando ser discretos. Ela retocou a maquiagem, ele guardou o telefone e a fez acreditar quando prometeu que ligaria. Nem demorou muito. Mandou uma mensagem assim que chegou na mesa pensando em não perder tempo. Viu o celular piscar a quatro mesas de distância. Ela jantava com uma outra mulher. Travou o celular e não comentou nada com a amiga. Nem sequer o procurou esticando o olhar pelo salão, mas respondeu assim que se dirigiu mais uma vez ao banheiro.

“Quero te levar pra casa hoje. Posso ou mamãe não deixa?”. Ela não sabia quem mandava aquela mensagem, mas devia ser a mulher que muito tempo ficou escondida sob a mãe/psicóloga/dona de casa dentro dela. Sem frear os instintos, partia pro tudo ou nada. Era a primeira vez que fazia aquela loucura. Juro. Sério. Ela sentia falta de ser mulher e aquela era a saída mais próxima para tentar recuperar alguma coisa dentro dela. Ele? Bom, tomara que aquele “eu já sou bem grandinho, sei me virar” em resposta significasse que ele sabia ser usado.

Quem disse que uma mulher também não sabe brincar?

Primeira vez. É sério.

(Gustavo Lacombe)