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E Não foi Só por Amor

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Eu voltei. E não foi só por amor. 

 
 Quando voltamos a nos ver, tudo parecia diferente. Quer dizer, parecia que em diversos aspectos tínhamos voltado à estaca zero e estávamos nos conhecendo de novo. O que era uma grande bobagem, se você pensar direito. E o que é uma verdade maior ainda, se você pensar melhor. 
 
Voltar era como se estivéssemos entrando numa casa em que já tínhamos morado, mas com a certeza de que algumas coisas não estariam no mesmo lugar. É claro que, sem uma reforma, os cômodos ainda seriam os mesmos. Talvez a decoração é que já poderia ter mudado. Enfim, a sensação era de conhecer aquilo tudo e ao mesmo tempo esperar para ser surpreendido. E estar ali já era uma surpresa. 
 
Foi preciso aceitar muita coisa. Primeiro, eu carregava uma certeza de que a vida tinha seguido de algum modo do lado de lá. Então, quem veio nesse meio tempo não poderia importar. Se batesse o ciúme, o argumento “você não estava comigo” seria sempre válido. E, claro, você não quer ser cobrado pelo o que fez nem ficar dando detalhes da vida que levava longe. 
 
Sabia que passamos até pela fase da conquista novamente? 
 
A volta, por mais rápida que seja, é feita com a recuperação da confiança, com o restabelecimento das certezas de que o outro é, sim, quem você quer. Aquela coisa de cortejar, mandar flores (sem ser por desculpas), paparicar, sentir frio na barriga por causa do beijo. Tudo reapareceu. 
 
Demos sorte, admito. 
 
 Tivemos, principalmente, que ser francos em relação ao que queríamos. Não poderia mais haver enrolação. Quando disse que não voltei só por amor foi porque apenas esse sentimento não bastava. Existe mais no meio como carinho, respeito, dedicação. E, também, foi preciso entender que nem tudo se ajeita de uma hora pra outra. 
 
Eu queria ser o porto seguro. Queria fazer bem, fazer sorrir. Queria, principalmente, me libertar do que tínhamos sido. Não adiantaria remoer os erros passados. Vida nova, esse era o lema. E eu vi verdade do lado de lá. Voltei, mesmo com amigos, parentes e outras pessoas dizendo que era “perda de tempo”. Voltei, mesmo com tanta gente interessante que eu conheci e poderia ter me feito seguir um outro caminho. Voltei, mesmo sabendo do esforço que seria recomeçar. 
 
 Voltei, e não foi só por amor. 
 
 (Gustavo Lacombe)
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Pelos Professores do Rio

Pelos Professores do Rio

Eu nunca entendi muito bem porque no Jogo da Vida – aquele de tabuleiro mesmo – o “professor” é uma das profissões mais desvalorizadas. Lembro de na primeira vez que joguei comentar o que hoje vejo estampado em camisas e gritado na boca de muitos por aí: não fosse o professor, onde estaria o médico, o advogado, o contador, o empresário? O pensamento logo passa e se assimila a hierarquia salarial estabelecida (no jogo e na vida real).

Ser professor é padecer no paraíso do ensino.

A profissão é a mais desvalorizada do Brasil. Muitos dos que começam hoje na carreira ganham um pouco mais do que o preço de uma bomba de gás lacrimogêneo (cerca de 800 reais). Imagine o seu salário correndo rua afora para te amedrontar. Sendo sincero, nenhum professor precisa de gás pra chorar. Olhar o saldo bancário e ver o quanto seu esforço é jogado no lixo já seria o suficiente.

Duvido que alguém feche os olhos e não consiga se lembrar de um mestre. Duvido que não se recorde de alguma passagem no ensino fundamental ou qualquer outro grau de ensino que valha a pena ser contado aos sobrinhos, filhos e netos sobre um ensinamento trazido por um professor. Duvido que passe incólume até as matérias mais detestadas.

Todo saber fez diferença na sua formação.

Aliás, se estuda cada vez mais para ser um bom professor. Cursa-se faculdade, faz-se pós, doc, mestrado, pós-isso, pós-pós-aquilo. Engraçado é que a um profissional de uma grande empresa é oferecido bônus e atrativos para que ele se qualifique mais. A um educador, o “muito obrigado pelos serviços prestados” já está de bom tamanho. Não há política que incentive a uma maior especialização.

Um país que trata do jeito que trata e não dá valor aos seus professores não sabe o problema que cria para si mesmo. Pra mim, o cara que ensina as primeiras letras e faz as crianças as juntarem para formar palavras deveria ter um dos maiores salários do país. Afinal, não fosse ele – e voltamos a estampa da camisa – onde estaria o médica, o advogado, o deputado, o empresário…

Afinal, não fosse o professor, onde estaria o Brasil?

(Gustavo Lacombe)