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Aqui Só é Permitido Sentir

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Nós temos a terrível mania de querer colocar em palavras as coisas que sentimos. Tentamos traduzir uma sensação, mas é quase impossível certas vezes. Como definir uma coisa que simplesmente bate? Assim, simples assim. E, mesmo com toda a dificuldade em fazê-lo, insistimos na questão. Acho que essa é uma necessidade do ser humano em querer entender e rotular o que nasce no peito, mas sem perceber o quão absurdo isso pode soar. Certas coisas não podem ser ditas, apenas sentidas.

Um olhar demorado, por exemplo, pode ser o estopim para algo muito maior. Olhar daqueles, do tipo que parece ultrapassar qualquer barreira e só para quando enxerga o fundo da nossa alma. Torna-se o ponto de partida para uma corrida louca das mais variadas atividades sensoriais em nossos corpos. Somos atravessados sem chance de defesa.

Acontece um estranho pensamento. É aquilo de te fazer pensar no passado, presente e futuro ao longo de toda a duração da conexão. Cogitar caminhos, fazer planos em milésimos e acreditar estar de frente com alguma porta se abrindo. Isso tudo em apenas um olhar, que não se contenta e escorre.

Desce pelo rosto e se condensa em sorriso como um movimento natural. Não se sabe com qual velocidade se abre, mas só o notamos quando ele já está sendo mostrado sem pudor a todos em volta. Pode ser que, então, os olhos se apequenem nessa hora. No meio dessa dança, aos poucos, o olhar vai se dissipando. Quando termina, deixa o produto final de seu encontro: o bem que uma pessoa nos proporciona. E esse bem fica latente, visível.

Mesmo sem conseguir explicar, ainda assim tentamos. Repete-se um “não sei” acompanhado de um “sei lá” e, pra terminar, coloca-se um “foi diferente”. Minha vontade é colocar uma placa de “Bem-vindo ao Mundo do que não tem tradução”.

Ou “aqui só é permitido sentir”.

E o mais engraçado nisso tudo é que eu mesmo agora acabei de tentar definir com vocábulos o que senti e sinto toda vez que ela me olha. Mania terrível, mas eu já sei que todo bem que ela me causa aparece num sorriso. Sorriso esse que traduz a indescritível sensação de estar exatamente ao lado de quem desperta só coisas boas em mim. Uma coisa que bateu e até hoje lateja. Assim, simples assim.

[ Gustavo Lacombe ]

Para ler mais:
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Para me levar pra casa:
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De Mudança

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Decidi que vou me mudar.

Mudar de ares. Sem medo e sem receio de deixar memórias e/ou pessoas pra trás. O que deles for verdadeiro, me acompanhará, eu sei. Se tiver que manter qualquer coisa à distância, sei que conseguirei. Entretanto, às vezes é preciso se libertar. É necessário cortar o cordão umbilical, mesmo que se deixe sentimentos órfãos do lado de lá.

Estou correndo de aventura. Ao contrário, quero é achar um lugar para fixar residência e laços. Pode ser que eu bata em vinte municípios e cidadelas antes de conseguir me atrelar definitivamente. Ouço as propostas, não me prendo aos quereres, exceto o meu de ter angariado forças ao longo dos últimos tempos e ter chegado a essa conclusão. Diria brilhante, não fosse comum.

É apenas uma decisão.

Pretendo contar lá em casa quando for a hora certa. Sei o pânico que vai gerar nos meus pais eu sair da asa deles. O que, na verdade, é um tanto engraçado visto que moro sozinho há três anos e já pago minha contas, dou um jeito na minha comida e, principalmente, de ter roupas limpas. Apesar da mamãe reclamar do jeito que a Ana passa minhas blusas, ela já admitiu – uma única vez – que eu tenho me saído bem nessa tarefa.

Decidi mudar não por ter poucos amigos ou chances. Nem ao menos por ter enjoado do lugar onde moro. É que, aqui e do jeito como as coisas estão, eu sei exatamente como chegar e estacionar na minha zona de conforto. E antes que você aponte um dedo pra mim dizendo que é só sair dela, olhe para si mesmo e me diga se você também não se sente tentado a encostar nesse lugarzinho tão confortável.

É normal, acredite.

Se nada der certo, eu volto. Não tenho vergonha de dizer que até voltar a dividir um teto com meus pais eu voltaria. Cara, não é retrocesso, mas a gente nunca sabe como será o dia de amanhã. Todas as possibilidades precisam ser analisadas. Boa sorte, vai dizer meu pai. Talvez seja pelo fato dele ter saído da cidade dele e ter parado onde moramos agora. Ele sabe bem como é isso de querer trilhar a própria estrada.

Eu vou encarnar meu desejo e achar meu caminho.  E vou achar.

(Gustavo Lacombe)