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Tô Fazendo Amor Com Outra Pessoa

Ela vai tirando a roupa no automático. Lembra de como era mais gostoso com o outro, mas segue o ritmo imposto por quem agora ocupa sua cama. Fecha os olhos e sabe que se engana. Sabe que por mais perfeito que possa parecer o cara que desliza as mãos na sua pele, são os defeitos daquele outro cara que faltam. Não se trata de sexo, mas de Vida.

Ele não te dá o mesmo que você tinha.

Aí, quando acaba, ela mal consegue dormir. Vai pro banheiro, saca o celular e faz menção de chamar o ex. Desliga antes que chame. Borra o pensamento antes que ele se transforme algo mais concreto. Se sente horrível, claro. Ela acabou de fazer amor com um, mas a cabeça vai longe.

O banho não serve para nada. Olha pelo vidro do box e consegue ver as costas do namorado. Senta no chão. É inevitável fazer comparações agora. Todas elas. Das dimensões do corpo aos detalhes do jeito. De como um fazia sorrir e de como o outro se preocupa com todas as necessidades dela.

Compara, inclusive, com a preferência da mãe.

Volta pra cama e rola pra um lado e pro outro. O cara, percebendo a inquietude dela, pergunta se está tudo bem e recebe um “claro, meu bem” como resposta. Não está. É claro que não está. Existe um coisa que toda essa dedicação e a possível perfeição não conseguem fazer. Nada disso faz a saudade passar.

Uma amiga já a tinha aconselhado. Já tinha dito que não adiantaria continuar se enganando e dizendo pra todo mundo que está feliz e que o novo é dez vezes melhor que o antigo. O Amor não é um objeto para se tornar obsoleto e ser substituído. Por fim, ela chora.

Sabendo que não há o que fazer, dorme. Amanhã, quem sabe, ela liga pro número que já decorou, faz a loucura de voltar pra vida que um dia negou, joga fora aquilo que todas as outras amigas invejam que tem. Quem sabe ela não cria coragem de jogar pro alto a segurança e ir atrás do que realmente a faz feliz.

[ Gustavo Lacombe ]
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Faz Parte do Nosso Show

A gente se conheceu na escola. Ela saindo da aula, eu indo buscar a minha irmã para levá-la ao dentista. Ela com dezesseis, eu com recém-completados dezoito. Foi num olhar que surgiu o interesse. Meu. Foi num ato meio impensado que se criou o contato. Eu cheguei e perguntei:

– Quer carona?

Ela sorriu e disse que não precisava. No dia seguinte, lá estava eu de novo. Minha irmã estranhou, claro. De onde tinha surgido aquela boa vontade toda? De novo eu a vi. De novo ofereci carona. De novo ela recusou, mas o sorriso foi tão lindo que eu não resisti:

– Me dá seu telefone?

Foram longas conversas até ela aceitar sair comigo. Marcamos no Arpoador, numa dessas tardes de horário de verão em que o Sol nos dá o prazer de sua companhia até mais tarde. E ela, ainda que desconfiada, me deu o gosto de tê-la ali comigo. Brinquei:

– Você quase não veio, né?

Nasceu ali. Ainda iria pegá-la mais um tanto de vez no colégio. Fizemos muita coisas juntos. Gostávamos de ir às festas no Circo Voador. Eu era exagerado e, numa dessas noites, fiz com que um cantor que a gente gostava lesse um recado meu pra ela. “Diz aqui no bilhete que ele te ama”, ele mandou em alto e bom som. Mais tarde, sugeri:

– Quer sair daqui agora?

A gente foi para a minha casa. Aquela seria a primeira vez. Testando o sexo e descobrindo cada cantinho um do outro, era uma delícia deslizar os dedos nela e estar com os olhos bem abertos. Eu me abri, contei segredos, me coloquei em suas mãos:

– Quero sempre te proteger da solidão.

Ainda me lembro quando a gente teve a primeira briga. E foi logo uma daquelas feias. Precisava desabafar e fui procurar uma amiga dela que, depois, provou ser quase inimiga de nós. Voltei ao Arpoador e senti o tamanho do vazio ao ver o pôr-do-sol sem ela. Inventei uma desculpa e fui até o apartamento dela, que não me atendeu. No mesmo dia ela me procurou:

Diz que eu não estou.

A volta foi questão de tempo. Não tinha outro jeito. Aquilo tudo fazia parte de todo nosso show. As saídas do colégio, o namoro no portão do prédio, as briguinhas por ciúme onde um saía de cara amarrada, a dor de uma noite sem o “boa noite” dela, o Arpoador. A Bossa Nova que ela gostava e o Rock’n’Roll que a gente dançava:

– Quer ouvir aquela de novo?

E até hoje, nosso amor está por aí. Nos sorrisos que se abrem na praia pra ver o Sol sumindo. Nas promessas malucas que se assemelham aos sonhos bons. No imaginável retrocesso de se jogar numa paixão em meio a tanta gente que convive com o medo de se permitir. Faz parte do nosso show:

– Meu Amor.

[ Gustavo Lacombe ] –

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

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O Bem de Alguém

 

Quando ela começou a me chamar de “meu bem”, eu achei bonitinho. Era diferente daqueles casais que só diziam “amor” e já tinham feito o apelido carinhoso virar vírgula. Aqueles que dão bom dia no automático, sabe? Tinha algo de diferente, mas só entendi quando parei pra pensar na palavra por si só.

Eu era o bem dela.

Era, entre diversos outros motivos, algo e alguém que lhe fazia – wait for it… – bem. Ela também fazia o mesmo aqui. Se pudesse, declararia ela no imposto de renda, mas teria que explicar à união o enriquecimento repentino de amor no meu coração. Eu era bem. Cotado, amado, querido. Mas uma última coisa me fez querer ter aquele apelido pra sempre. E não se tratava do jeito com que ela falava nem nada.

O fato foi perceber, ao conhecer os pais dela, que eles se referiam assim um ao outro. Confesso o romantismo incurável e, também, confesso não ter resistido aos pensamentos de que, um dia, nós pudéssemos ter a nossa família e que nossos filhos ouvissem os pais se chamando carinhosamente de “meu bem”. Fazia e ainda me faz um bem danado ser pra ela isso tudo. E eu me esforçando pra dar de volta tudo isso também.

Faz bem ser o bem de alguém na deliciosa certeza de que não se quer amar a mais ninguém.

[ Gustavo Lacombe ]
http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

Olha pra mim e presta atenção!

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Você está perdendo a mulher da sua vida.

Olha pra mim e presta atenção – eu disse com todas as letras e vou repetir:

Você. Está. Perdendo. A. Mulher. Da. Sua. Vida.

Assim, pausadamente, talvez fique mais dramático. Mas veja o drama que virou isso aqui. A sua vida, a dela, a dos amigos que precisam ver os dois felizes – sejam juntos ou separados. Não é que ela pode ter quem quiser, mas, no caso, ela quer você. Será que é tão difícil entender? Tá na cara que ela te ama. E que você não está nem aí pra isso. Me corrija se estiver errado. Ou corra pro destino que você acha certo.

Pra longe ou pra dentro dos braços dela.

A gente conversa muito e é claro que você sabe disso. Eu poderia fazer segredo, mas vou ultrapassar alguns limites aqui e te contar coisas que não deveria. Ela tem sofrido, está diferente. Por mais que tente ficar bem, ela não está. Terminar com o grande amor da vida não é fácil. Quê? Não se assusta com isso não. “Grande amor da vida dela” é só uma expressão que a gente cunhou junto durante uma de nossas conversas. Sim, é esse o tamanho que você tem.

Agora, o que eu fico mais puto é ver que você não percebeu a chance que ela está te dando. Nenhuma – entendeu bem? NENHUMA – mulher que eu conheço será capaz de deixar pro homem a decisão de ficar ou não com ela. Pode ser que ela exija uma resposta imediata, pode ser que ela encoste o rapaz alguma vez na parede, mas deixar o destino em aberto e à espera de uma decisão do cara, só ela.

E se isso não for certeza de que você é isso tudo pra ela, eu não sei mais o que é.

Pense bem. Pense bem mesmo. Porque ninguém espera pra sempre e, apesar de tudo que ainda sente, ela vai seguir. Ela vai continuar com a vida dela e um dia você vai ficar se perguntando “por que não deu certo, meu Deus?”. E você vai saber a resposta.

Porque você não quis.

(Gustavo Lacombe)

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Eu. Quero. Nós. Dois.

Eu. Quero. Nós. Dois.

Eu podia entrar no meu carro, ou pegar um táxi, ou mofar num ônibus, ou ser maluca o suficiente para ir a pé até a casa dele. Podia levar minhas malas com todas as minhas coisas, ou uma mochila com uma muda de roupa, ou uma bolsa pra ele me levar pra sair ou só minha carteira de identidade pra não andar desprevenida. Podia chegar lá e pular no colo dele, ou podia rasgar a camisa dele e jogá-lo na cama, ou podia dar um beijão gostoso, ou podia ir pra lá só pra ver um filme e ficar de conchinha na cama matando a minha carência.

Veja bem, meu bem, eu podia fazer tudo isso, mas não quero.

Eu. Não. Quero.

Ainda existe um carinho, claro. Eu o quero bem assim como ele também me quer bem. Ainda existe uma história, claro. Mesmo que tenha sido terminada, ela nunca vai deixar de ser a minha história com ele. Ainda existe um desejo da parte dele para que eu volte, claro. Ele faz questão de me mostrar isso e deixar a porta aberta. Mas aí, eu te pergunto: o que eu fiz com tudo isso? Nada.

Eu podia mentir pra você e ir lá passar uma noite com ele. Matava minha vontade que só aumenta porque você não apaga meu fogo. Enquanto você se decide se vai ficar de raivinha pelo meu passado ou se vai aproveitar o que tem nas mãos, minha carência aumenta (eu já falei que tô carente, né?). E sim, estou nas suas mãos. Por mais que diga que me dei pela metade, pese todas as possibilidades que eu te apresentei. Eu podia fazer tanta coisa que te magoasse e terminasse com as nossas chances…

Só que não existe mais possibilidade da minha vida amorosa não ser ao seu lado.

Estou, antes de tudo, dando uma chance para nós dois. Chance de me pegar pela mão e me fazer feliz. Chance de amarmos de novo. Chance de sermos mais do que uma história, mas o presente do outro. O que não deu certo, passou – mesmo você insistindo em olhar pra mim e enxergá-lo.

Aliás, já enjoei disso.

Eu podia ficar até amanhã aqui explicando o quanto eu quero ser feliz contigo. Eu podia, mas vou me calar. Abre os olhos. Eu estou aqui. É só você querer enxergar.

Eu. Quero. Nós. Dois.

(Gustavo Lacombe)

Citação

Da varanda eu p…

Da varanda eu posso ver a rua. Fecho a cortina para que aqui dentro fiquemos a sós. Não queremos ninguém vigiando. Mais duas portas cerradas e agora somos, literalmente, dois amantes entre quatro paredes. Debaixo da coberta, você faz charminho pra mim. Logo se vira, encara meu rosto e me beija. Mal sabe o que eu passei pra tê-lo. Para tê-la. Só começando nosso dia, mas a recompensa já me chega. É a tua boca na minha, minha pele na tua. É a vontade, nua e escancarada, que o amor nos faz vestir. Sabe-se lá que horas acaba – a gente não marca -, mas começou faz tempo. Num sonho perdido ou numa dessas madrugadas, eu já imaginava a cena, já planejava invadir o teu mundo e não sair por mais nada.

(G. Lacombe)